A Coisa Sem Nome*

Hiroshima

(fotografia tirada daqui)

Oito horas e quinze minutos da manhã, em Hiroshima. Seis de Agosto de 1945. Os relógios pararam todos à hora exacta em que a primeira bomba atómica foi detonada. A essa hora o avião ‘Enola Gay’, do tipo B-29, lançou sobre a que era a sétima maior cidade do Japão a primeira bomba atómica, ironicamente apelidada ‘little boy’. Três dias mais tarde, apesar da constatação dos efeitos devastadores da primeira bomba atómica, uma segunda foi lançada às dez horas e dois minutos sobre outra cidade japonesa – Nagasaki. Em três dias, o mundo conheceu os efeitos daquela que pode ser considerada como a mais poderosa arma de destruição. Em poucos minutos, metade da cidade de Hiroshima ficou reduzida a cinzas, entre sessenta a setenta mil pessoas morreram, muitas delas instantaneamente e cerca de cento e quarenta mil ficaram séria e irreversivelmente feridas. Em Nagasaki a bomba atómica (apelidada ‘fat man’ e lançada por um B-29 chamado ‘Bock’s Car’) matou cerca de quarenta e duas mil pessoas e feriu aproximadamente quarenta mil.

O que a bomba atómica produziu, para além do caos, para além dos efeitos das radiações que prevaleceram durante anos e anos naquelas cidades japonesas, provocando doenças variadas, mais mortes, malformações congénitas de toda a espécie, foi o início do período que ficou conhecido na história como a ‘guerra fria’ e igualmente do surgimento da construção de outras armas nucleares ao longo do tempo em países como a ex-URSS, a Índia, Israel, o Paquistão, a Coreia do Norte ou o Irão. Os efeitos das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki não dissuadiram a continuação dos programas de armamento nuclear em muitos países. Nem garantiram que a história não será repetida.

O processo de desenvolvimento da bomba atómica iniciou-se nos finais de 1941, na sequência, diz-se, de uma carta escrita por Albert Einstein ao então presidente americano, Roosevelt. Einstein foi persuadido por cientistas alemães, exilados nos Estados Unidos da América, a informar o presidente sobre as probabilidades da Alemanha nazi se encontrar a desenvolver a bomba atómica. Tal receio era consequência directa da descoberta do processo de fissão nuclear por cientistas alemães e da séria possibilidade de o urânio ser utilizado como uma importante fonte de energia. Os Estados Unidos da América gastaram mais de dois biliões de dólares, ao longo de cinco anos, no chamado Projecto Manhattan, liderado pelo físico J. Robert Oppenheimer e no qual trabalharam mais de cento e cinquenta cientistas. Tanto Einstein, como Oppenheimer lamentaram, após a constatação das devastadoras consequências das suas descobertas, a sua participação directa ou indirecta no desenvolvimento destas armas. Mas já não foram a tempo. A terrível herança das bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki perdura até hoje. Essencialmente pelas feridas físicas e psicológicas que deixou, mas também por ter mostrado à humanidade que era possível produzir armas de destruição massiva. E utilizá-las. Contra os inimigos, a pretexto seja do que for, como o fez Truman há sessenta anos quando se referiu aos dias seis e nove de Agosto como ‘grandes sucessos’. Grandes sucessos científicos? Grandes sucessos militares? Grandes sucessos políticos? Reduzir a cinzas milhares de pessoas não me parece, hoje, como não pareceria a quase ninguém há sessenta anos, um grande sucesso. Utilizar uma arma de que se conhecem bem as consequências e produzir os efeitos esperados por quem a construiu e manipulou, não me parece um sucesso, mas antes um enorme retrocesso na história da humanidade. Que tenham sido os Estados Unidos da América, há sessenta anos como hoje, considerados pelo mundo ocidental, os garantes da liberdade, da justiça, dos direitos humanos, não é surpreendente. O que é surpreendente é o branqueamento a que o que se passou em Hiroshima e Nagasaki em 1945 tem sido sujeito. E, mais que o branqueamento (ou as suas causas e consequências) as justificações que hoje encontramos para um dos mais hediondos crimes contra a humanidade de que há memória. Este crime tem justificação, de facto? Mesmo no contexto político e militar da época?

Depois de Hiroshima e Nagasaki é certo que nunca mais foram utilizadas bombas e armas deste tipo, mas essa possibilidade existe. A possibilidade de voltar a espalhar a chuva negra sobre cidades e milhares de pessoas inocentes. A possibilidade de viver o terror da desintegração instantânea de uma cidade, de um lugar, das pessoas, da história. Como se refere num dos melhores blogues nacionais – A Natureza do Mal –  «nunca ouvimos a voz dos sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki. Nos primeiros tempos porque eles não escreveram. Como no Holocausto, o que sobrou foi o silêncio aterrado, o repúdio das palavras. Nunca se fora tão baixo na nossa condição e não havia nomes para aquilo». Continua a não haver nomes para aquilo. O que há é a possibilidade de recordar para não deixar esquecer, que há sessenta anos, nos dias seis e nove de Agosto de 1945, os relógios pararam à hora exacta a que a morte visitou pessoas como nós, que viviam vidas como as que vivemos. A possibilidade de não deixar esquecer que, no dia seguinte, o mundo nunca mais foi o mesmo, pela destruição sim, mas principalmente porque, apesar dela, das cinzas de Hiroshima e Nagasaki não nasceu o fim das armas de destruição massiva, mas o seu princípio. E a terrível percepção de que aprendemos pouco nestes sessenta anos e que as vítimas de Hiroshima e Nagasaki não foram aparentemente suficientes para evitar que a história se repita.

*Ando a escavar no baú. Lembrei-me desta crónica publicada também no Passeio Público, do Jornal de Notícias em 19 de Agosto de 2005. Hoje que passam 70 anos sobre o lançamento da bomba atómica em Hiroshima.

Comments

  1. Nightwish says:

    A bomba atómica evitou a invasão naval de um país cujos líderes nunca aceitariam a rendição sem muito mais mortes do que aquelas que aconteceram. Ainda hoje os USA atribuem os Purple Hearts (medalhas póstumas) que foram produzidos em massa para atribuir aos soldados que invadiriam o país. Se não fossem os americanos teriam sido os russos a criar a bomba atómica, já os nazis nunca disposeram da capacidade de o fazer nem, felizmente, Hitler levou o caso muito a sério.
    De resto, existem ou com relativa facilidade podem ser criadas armas biológicas muito mais perigosas.


  2. sim, atualmente. e não está em causa – pelo menos para mim – quem a criou. Mas o facto de ter sido utilizada

    • Nightwish says:

      Foi mau, como foi reduzir Berlin a destroços, mas qual era a alternativa melhor contra países que nunca aceitariam a rendição?
      Ainda hoje não se tem a certeza se a segunda bomba foi mesmo necessária ou se capitulariam por perceber que nada podiam fazer (alegadamente, o alto comando japonês não acreditava que tal destruição sem possível retaliação fosse possível e recusava-se a acreditar no que lhes foi transmitido sobre Hiroshima).

  3. ver como os outros says:

    por favor mudem a imagem…não acho bem um texto sobre hiroshima estar a aparecer com a imagem do continente…

  4. Rui Moringa says:

    Tempos da besta. Ainda não nos livramos desses tempos. O Homem sempre se dedicou a matar o seu Semelhante tenha ele pele de uma cor, fale uma qualquer língua ou tenha diferentes hábitos.
    Estamos condenados, simplesmente…Não respeitamos a liberdade e a não ligamos nenhuma á responsabilidade como seres racionais.
    Deus não tenha nada a ver com a nossa desgraça e com a nossa bestialidade. Temos tudo para sermos felizes, mas persistimos em nega-lo e “matar” quem tenta sê-lo.
    Não há inocentes, apenas as crianças que logo que possível instruímos para a infelicidade ( inveja, mania da perseguição e competição).


  5. Será que Harry Truman e Stalin não mereciam também um lugar no banco dos réus em Nuremberga? Pelo menos esses 2 do lado dos vencedores, mas claro, criminosos de guerra são apenas os vencidos…

  6. ferpin says:

    Este assunto do uso da bomba atómica é mais complicado do que parece. É um daqueles casos em que dou graças de não ser presidente dos EUA num momento destes.

    Resumo: O Japão atacou os EUA à má fé. Embora já estivesse militarmente condenado nunca se renderia (ver harakiri, tratamento desumano dado aos inimigos que se rendiam por acharem que quem se rende fica sub-humano…).
    Os americanos conduziram (antes de largarem a bomba) testes atómicos, avisando os japoneses para estarem atentos aos sismógrafos. Logo os japoneses já saberiam da tremenda capacidade em mega toneladas das bombas que os EUA teriam.

    Após a primeira bomba foi dado tempo aos japoneses para se renderem, debalde.

    Agora imagine que é presidente dos EUA, em guerra, e que os relatórios dizem 2 hipóteses, larga a bomba e morrem 1 ou 2 centenas de milhar de japoneses de uma só vez, ou continua a guerra convencional e até Tóquio cair morrem alguns milhões de japoneses e, o que é mais grave, umas centenas de milhar de americanos.

    Eu não queria ser o presidente que tinha que explicar às mães daquelas centenas de milhares de mortos que o filho tinha morrido por embora eu tivesse a bomba que podia acabar logo com a guerra não a usei por pruridos…

  7. omaudafita says:

    Osaka (março – agosto de 1945)
    Este único ataque deixou 3.987 e mortos e 678 desaparecidos.

    Kassel – (fevereiro de 1942 – março de 1945)
    Pelo menos 10.000 pessoas morreram nas explosões e incêndios que se seguiram, as chamas ainda ardiam sete dias depois.

    Darmstadt (setembro de 1943 – fevereiro 1944)
    Estima-se que 12.300 habitantes perderam a vida e os alemães classificaram o ataque como um “atentado terrorista”.

    Pforzheim (abril de 1944 – março de 1945)
    379 aviões britânicos participaram do bombardeio em 23 de fevereiro de 1945, que em terríveis 22 minutos destruiu 83 por cento da cidade, matando 17.600 habitantes e ferindo outros milhares.

    Swinoujscie (12 de março de 1945)
    Estima-se que entre 23.000 pessoas perderam a vida neste ataque extremamente destrutivo.

    Londres (setembro de 1940 – maio de ​​1941)
    A capital do Reino Unido foi submetida a uma campanha de bombardeios estratégicos realizados pela Luftwaffe alemã, que teve a duração de 76 noites consecutivas e foi diretamente responsável pela morte de 20.000 pessoas.

    Berlim (1940-1945)
    Entre 20.000 e 50.000 berlinenses perderam a vida no ataques da II Guerra Mundial, e outras milhares de pessoas ficaram feridas e desabrigadas.

    Dresden (outubro de 1944 – abril de 1945)
    Dresden, a sétima maior cidade da Alemanha na época da Segunda Guerra Mundial, e um centro industrial extremamente importante, viveu um dos bombardeios mais devastadores vistos até aquele ponto da história. Durante o período mais intenso, de 13 a 15 de fevereiro de 1945, 1.300 bombardeiros de uma força conjunta da RAF com a Força Aérea Americana, despejaram mais de 3.900 toneladas de explosivos e bombas incendiárias sobre a cidade sitiada. Quinze quilômetros quadrados do centro da cidade foram totalmente destruídos pelo incêndio devastador que varreu as ruas. O número de mortos foi divulgado como em mais 200 mil pela imprensa nazista em 1945, mas as estimativas posteriores, incluindo uma apoiada pelas autoridades da cidade em 2010, apresentam o número de 25.000 vítimas do ataque.

    Hamburgo (setembro de 1939 – abril de 1945)
    Bem como Berlim, Hamburgo experimentou períodos contínuos de bombardeios durante a maior parte da guerra. A cidade foi um alvo importante para os aliados devido ao fato de que ela era um importante porto e centro industrial, lá também estavam instalados os grandes estaleiros alemães que produziam centenas de submarinos e navios de guerra. O bombardeio mais grave na cidade veio de uma força combinada de bombardeiros britânicos e americanos durante a última semana de julho de 1943. A Operação Gomorra, como a missão de bombardeio foi nomeada, praticamente varreu a cidade do mapa. A gravidade das explosões, que continuaram durante oito dias e sete noites, criou uma mortal tempestade de fogo reduzindo a cidade à cinzas. Cerca de 3.000 aeronaves participaram nos ataques, que deixou 42.600 mortos e 37.000 feridos. Estima-se que mais um milhão de civis fugiram da cidade. No total, 9.000 toneladas de bombas foram jogadas nesta operação. A Europa continental nunca tinha visto algo parecido, nem tornou a ver desde então.

    Tóquio (novembro de 1944 – agosto 1945)
    O bombardeio estratégico principal do Japão pelos americanos começou em novembro de 1944 e continuou até a rendição do Japão em 15 de agosto de 1945. Os EUA já haviam executado um bombardeio menor na capital japonesa em abril de 1942, o esforço inicial deu América uma vitória em termos de moral, mas o bombardeio não começou para valer até quase dois anos mais tarde.
    Quando os poderosos B-29 Super Bombardeiros Fortaleza entraram em serviço, os americanos fizeram pleno uso dos mesmos, colocando as suas capacidades para o uso extensivo sobre Tóquio. Na verdade, quase 90% das bombas que caíram em solo japonês foram despejadas por B-29s. De todas as missões sobre Tóquio, o ataque de 9 a 10 março de 1945, cujo codinome era Operação Capela, foi o mais significativo, e de fato, é considerado o mais destrutivo da história. Cerca de 1.700 toneladas de bombas caíram sobre a cidade, destruindo cerca de 286.358 edifícios – feitos em grande parte de madeira e papel – e matando um número estimado de 100.000 cidadãos ou mais nos incêndios resultantes. Quando 1.000.000 de feridos e desabrigados são adicionados a esta estatística, começamos a ter uma pequena noção da escala de destruição testemunhada naquelas terríveis noites de 1945.

    Ah e tal as bombas atómicas é que mataram muita gente…

  8. Nascimento says:

    Brest ( Bretanha, França). Caen (Normandia). Lorient (Bretanha, França). Tudo arrasado pela aviação aliada. Lembrei-me agora.
    É, a guerra é como merda numa ventoinha…e, já agora, quantos desapareceram , na 1ª guerra do Golfo,na estrada da morte que vai dar a Bagdade?100,200,300 mil? Cáceres Monteiro escreveu sobre o ” assunto”, mas, parece que as “alminhas puras”, nessa , como nestas alturas estiveram -se a cagar sobre o “assunto”! E viva a CNN, nê? Gandas herois ,pá! Gandas jornaleiros….dass.


  9. eu continuo a não perceber o que é que o ‘cu tem a ver com as calças’. o post é sobre Hiroshima. Se houve e há mais guerras? se na 2ª GM morreram milhões de pessoas (incluindo 6 milhões de judeus), sim. Mas o post não é bem sobre isso, certo? De resto, estou a gostar das lições de história, genuinamente.

    • Nightwish says:

      O post é sobre como a bomba atómica foi a mais terrível coisa a acontecer na história da humanidade, o que é claramente falso para quem conheça história, mais especificamente a segunda guerra.
      Aquilo que ninguém diz é que não foi horrível, é evidente que foi, mas não foi desproporcional no contexto da 2ª Guerra em particular nem das guerras em geral.


  10. bom, desculpe se discordamos.

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