Cartoline di Roma #2

La pioggia su Roma ed essere a metà strada*

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Não é preciso dizer-vos que perdi o pequeno almoço. Já é um clássico, onde quer que vá. Levantei-me ja passava das 11h. Dormi pouco e mal. tomo banho e visto-me e saio para a rua rapidamente. A Piazza Bologna está praticamente deserta. Está calor como ontem, mas o céu anuncia que a chuva virá. Lembro-me que não trouxe chapéu de chuva. Mas penso que tanto faz e que se for preciso compro um algures. Antes tinha visto uma mensagem no facebook do Stefano que me dizia bom dia e que ia fazer isto e aquilo e que talvez por volta das nove estivesse livre. Respondo-lhe que então, falaremos depois. No bar da esquina, aqui mesmo em frente ao hotel, bebo um sumo de laranja, um espresso e como um croissant com doce. Desço as escadas do metropolitano. O jardim está deserto, mas alguém deixou uma garrafa em cima da fonte com uma rosa vermelha. Considero aquilo um bom sinal. Não sei que sinal, nem sei por que o considero bom. Mas desço as escadas a pensar em coisas boas.

Tomo o metro em direção a Termini, claro. Aqui tomo outro para a Piazza de Spagna. Não tenho um plano bem definido para hoje. Não tenho um plano, ponto. Mas há lugares onde quero regressar. Não ao Vaticano, seguramente. Uma vez é suficiente. E já o visitei antes. Não é sítio onde queira voltar. Demasiada pompa e demasiado embaraço diante de tanta ostentação. Lembro-me que quando visitei o Vaticano estava um calor abrasador e desagradável. Lembro-me que dentro da Capela Sistina nos trataram como se fossemos gado, sempre a mandar-nos avançar. Não, o Vaticano não é definitivamente, um lugar a que queira regressar. Uma vez na vida creio que será suficiente. Tão pouco penso em regressar ao Coliseu. Ainda ontem lá passei à noite. Está no mesmo sítio e deve continuar bonito como dele me recordo. Mas não está nos meus planos hoje ficar em filas infindáveis para ver o que já foi visto. No entanto, há lugares onde gostaria de regressar e é esse o meu plano, dentro do plano que, afinal, não tenho.

Começo pela Scalinata della Trinitá dei Monti, vulgo escadas de Espanha. Saio do metro e em vez de seguir para a Piazza di Spagna, apanho o elevador para Trinitá dei Monti. As escadas são melhores de descer que de subir, já se sabe. A vista dali de cima é bonita. As escadarias estão apinhadas de gente. Sentada, de pé, que tira fotografias. Desço-as devagar, reparando nas pessoas, nas casas, nas varandas, nas janelas. Na praça, a pequena fonte está rodeada de pessoas, mas à parte isso está até bastante tranquila. Resolvo seguir pela Via del Babuíno em direção à Piazza del Popolo e quando vou a meio grossas pingas de chuva começam a cair. A rua está cheia de lojas de marcas caríssimas mas nenhuma vende chapéus de chuva a preços que eu esteja disposta a pagar. De maneira que me abrigo sob as grandes portas de uma igreja – reparo depois no nome: Sant’Atanasio… Chiesa Cattolica di Rito Greco. Acho que é um bom lugar, apesar de não ser religiosa. Quando olho em volta reparo que ali mesmo à esquerda fica a Via dei Greci. Faz sentido. As gotas de chuva tornam-se menos grossas e frequentes e eu continuo a caminhar pela Via del Babuino até alcançar a praça do povo.

Não sei se já estiveram em Roma. Se sim, compreenderão quando vos digo que é uma cidade monumental. Mas não é monumental naquele estilo certinho e organizado. É monumental num certo desalinho que me agrada demasiado em toda a parte. Para onde quer que olhemos, em Roma, há uma torre, uma igreja, uma fonte, umas ruínas, um ‘palazzo’ que nos encantam. Mas há isto tudo misturado com casas a cair, obras, pinturas descascadas, flores desalinhadas nas janelas e varandas. E é este mesmo desalinho em que reparo na Piazza del Popolo. Não sendo das praças mais caóticas (ou das mais cheias, a esta hora) de Roma, há aqui igualmente este encanto que vem do desalinho que não sei explicar melhor que isto. Nem creio que seja preciso.

Ando pela praça, que é enorme. Tiro fotografias a isto e àquilo. Observo as pessoas, os pormenores dos edifícios. Sento-me num banco para estar mais sossegada a olhar para tudo muito bem. Há pessoas sós sentadas noutros bancos, incluíndo uma mulher que, primeiro, vejo atravessar a praça carregada com o peso de dois sacos. Está vestida de azul forte e amarelo que contrastam violentamente com a sua pele muito escura. Penso que é bonita e quando se senta num banco longe de mim, tiro-lhe uma fotografia. Senta-se e coloca a mão na cara. Como que a descansar toda ela. Mas há na sua cara alguma coisa de preocupação. Fico para ali a olhar para ela, sabendo, no entanto, que estou suficientemente longe, para que ela o note. A chuva parou definitivamente e há nesgas azuis no ceu cinzento. O sol de vez em quando espreita e é muito quente. Tão quente que me faz levantar, ao fim de um grande bocado, do banco. Tenho sede. E não tenho água comigo.

Resolvo tomar a Via del Corso, paralela à Via del Babuino. É uma rua muito grande que vai até à Piazza Venezia. Vou devagarinho. A reparar outra vez nisto e naquilo. Encontro uma loja que vende garrafas de água. bebo metade da garrafa num instante. E continuo a caminhar. Não quero seguir a rua até ao fim, é certo. Passo o largo Carlo Goldoni, a Piazza de San Lorenzo, a Piazza di San Claudio e um pouco depois de passar a Piazza Colonna viro à esquerda na Via dei Sabini. Estou perto da Fontana di Trevi, penso. E estou correta, porque depois da Via de Crociferi ali está ela. Ou melhor, ali estão uns tapumes que nos avisam que a Fontana está em restauro. Estranhei de facto não ver muitos turistas nas ruas em volta e aqui está a explicação. No entanto, a Piazza di Trevi está a abarrotar. É muito pequena, claro. A Fontana di Trevi está envolta em tapumes transparentes na parte da frente e eu, apesar da falta de água na fonte, resolvo, assim mesmo, deitar umas moedas.

Dizem que se deitarmos moedas nesta fonte será certo que regressaremos a Roma. Até ver não tenho razões para duvidar e por isso, esperançosa que a ‘profecia’ se repita, repito também o gesto. Outras pessoas fazem, naturalmente o mesmo. Ainda que sem a água que a torna incrivelmente luminosa e bonita, a fonte é bela. Detalhada. A pequena praça essa é, sim, desalinhada. Há uma pequena igreja do lado esquerdo de quem entra na praça – a igreja de Santi Vicenzo e Anastasio que também precisa de algum restauro, penso. Meto justamente pela Via di S. Vincenzo e vou dar a um dos sítios onde queria vir e já não me lembrava do caminho. Sento-me numa escadaria grande a descansar e bebo o resto da água. Continua calor e o sol brilha intensamente neste instante. Chego à Piazza della Pilotta, tranquilíssima. E recordo-me muito bem dela e do mesmo passeio que fiz há sete anos. Doiam-me menos os pés que hoje, é verdade. Percorro a Via della Pilotta sob os seus arcos de onde tombam plantas verdes que não sei identificar. Mas não me importa. No fim da rua fica a Via VI Novembre. Daqui não sei bem que direção tomar e encosto-me a um pilarete a ver o mapa. Decido que avanço para a esquerda, é natural.

Percorro assim a Via Cesare Battisti e chego à Piazza Venezia, com o seu belo Palácio e a ‘Máquina de Escrever’ ou ‘Altare della Patria’ em frente. Reparo que passam por ali autocarros e lembro-me do meu bilhete para sete dias. Resolvo utilizá-lo. Venho a andar há mais de duas horas, quase duas horas e meia. Que eu ando devagar e gosto de reparar em tudo ainda por cima. Pergunto a uns senhores que estão na paragem. Informam-me que o 40 ou o 64 me levará à Piazza della Chiesa Nuova, depois de percorrer uma boa parte do Corso Vittorio Emanuel. Todas as cidades italianas, por certo já terão reparado, têm um Corso Vittorio Emanuel. Resquícios de monarquia, portanto. A Igreja de Santa Maria in Vallicella é bem bonita e tem uma grande oliveira em frente. Ao lado um edíficio ocre velho e descascado que dá, claro, um ar desalinhado à praça. Meto à direita da igreja pelo Vicolo del Governo Vecchio e acho graça ao nome até encontrar a Via del Governo Vecchio a que acho ainda mais graça. A piada é simples. Penso Governo Vecchio va via**. E é o que desejo, genuinamente, para o meu país.

Viro na Via di Parione e vejo ao fundo a Igreja de Santa Maria della Pace, de que me recordo bem. Ali perto fica, evidentemente, a Piazza Navona, outro sítio a que queria regressar. A bela praça agitada com as suas três fontes e os seus artistas. Antes de entrar na praça contorno a igreja de Santa Maria della Pace e entro na Via dell’Anima. Gosto destes nomes, sobretudo porque em italiano… pace, anima, tudo soa incrivelmente melhor. Vejo uma osteria simpática em frente da igreja: a Osteria dell’Anima e acho igualmente graça ao nome. Hospedaria da Alma. Soa-me tão bem que resolvo almoçar. Afinal são três da tarde. Como a melhor Melanzana alla Parmegiana que me foi dado comer na vida e uma pizza quatro queijos que não corresponde à maravilhosa beringela. Empurro tudo com una birra alla spina e no fim um café espresso. como sempre, os empregados são absolutamente simpáticos e atenciosos e isto faz parte do encanto de Itália, também. Já o disse ontem.

São quatro da tarde quando entro na Piazza Navona. Ali estão as suas três fontes: a de Neptuno, a do Obelisco e a de Moro. Resolvo pedir que me tirem uma fotografia em cada uma delas. Ando por ali muito tempo. Sento-me num banco junto da última fonte que encontro (Moro) e deixo-me estar a ver as pessoas, na sua maioria turistas. Pouso a máquina fotográfica em cima do banco, ao meu lado. A senhora sentada junto a mim toca-me no braço e diz-me que é melhor não deixar ali a máquina, podem roubar-ma. Agradeço-lhe a gentileza. A senhora é local. Está com a filha, ao que parece, que, encostada aos ferros da fonte, fala demasiado alto ao telefone. Entra na praça um bando de freiras. Fazem-me lembrar gaivotas, com os seus véus esvoaçando ao vento. São muito alegres. Tiram fotografias a tudo e umas às outras. Parecem mulheres exatamente como qualquer uma das que ali estão, na praça, incluíndo uma noiva que mais tarde hei-de encontrar em frente à gelataria Tre Fontane, no outro extremo da praça. Também vestida de branco. Reconsidero no meu pensamento. É evidente que são mulheres iguais a quaisquer outras. Têm é uma opção diversa de vida. Não é a primeira vez que escrevo isto (há um postal de Pamplona, de Maio, em que penso ter escrito mais ou menos o mesmo), mas algumas vezes penso que, em sendo católica, poderia ser freira. Se houvesse silêncio e todos os livros que me apetecesse ler. Além de que estas parecem felizes e, mais a mais, os conventos são geralmente sítios bonitos, em lugares ainda mais bonitos. Talvez esteja enganada. Acontece-me frequentemente.

Deixo as freiras a passarinhar pela praça, mas continuo a achar-lhes graça enquanto a cruzo até ao outro extremo. Aqui encontro a noiva de que já falei, comendo um gelado com o seu noivo. Parecem japoneses e, sobretudo, parecem alegres como as freiras-gaivotas de há pouco. Encontro mais freiras de outra ordem, a avaliar pela roupa. Roma deve ser, e não é surpreendente que assim seja, o lugar onde vi mais freiras na vida. Padres menos, fora do Vaticano, quero dizer. Saio da Piazza Navona pela Via della Cuccagna e logo à frente encontro a Piazza de San Pantaleo. Atravesso o Corso Vittorio Emanuele, a Piazza della Cancelleria e finalmente chego à Piazza Campi de Fiore. Tinha saudades desta praça, como dela me lembrava. Porém, a bela estátua de Giordano Bruno está hoje rodeada de frutas e verduras e quinquilharia de toda a espécie. Quando aqui estive, numa tarde quente de Julho, a partilhar alguma comida com um pombo que teimava fazer-me companhia, não havia mercado e a praça parecia bastante maior. Penso que assim mesmo é bonita ou, talvez, ainda mais bonita e ando em volta dela. Acabo por me sentar numa esplanada de um café. Preciso de água. Bebo um café também enquanto observo os vendedores que começam a arrumar as suas coisas. De repente levanta-se um vento que faz debandar os pombos. Os guarda-sois agitam-se numa euforia de pássaro, também. Nada acontece, porém, o vento acalma tão de repente como nasceu. Mas recomeçam a cair as pesadas gotas da mesma chuva de há umas horas na Via del Babuino.

Gosto do cheiro que a chuva empresta à Piazza Campo de Fiore, mesmo que não haja flores à venda, pelo menos não a esta hora. Mas o cheiro da chuva quente nos restos de legumes e frutas adoça o ar. Torna-o quase sumarento. Compro um chapéu de chuva apressadamente ali mesmo a um dos vendedores de quinquilharia. Não tem ar de que vá durar mais do que umas horas, mas é vermelho. ‘Con la mia umbrella rossa’*** contra o cinzento deste fim de tarde, entro na Via del Pellegrino que vai desembocar na Piazza della Chiesa Nuova. São seis e meia da tarde e o meu plano, agora que a chuva sobre Roma me fez ter um plano, é apanhar o autocarro (40 ou 64) de volta a Termini. Apanho o 40 que vai apinhado. Há um banco vazio, de dois lugares e eu sento-me antes que alguém o apanhe. A viagem é relativamente longa, o autocarro passa em muitos sítios, desde o Coliseu, até à Piazza Venezia e desta até à Piaza della Repubblica e daqui finalmente até à estação de Termini. Nesta apanho o metropolitano para a Piazza Bologna. É de noite quando saio do metro. A praça está de novo deserta sob a chuva.

No autocarro uma senhora com cerca de 80 anos sentou-se ao meu lado e tirou um espelhinho da mala e penteou-se, observando-se com atenção. à sua frente uma mulher da minha idade – talvez um pouco mais nova, é cada vez mais difícil perceber – diz-lhe que está bonita. A senhora agradece a bondade da estranha e começam a conversar para meu prazer. Conversam em italiano, coisas de mulheres. A mais jovem elogia as jóias da senhora, as roupas, a boa pele (efetivamente, uma pele luminosa, devo dizer). A certa altura a senhora mais mais velha diz que nunca se casou e a outra exclama muito alto que está explicado o bom aspecto que tem. Nunca teve de aturar homens. Rimos-nos todos, ali à volta com a exclamação enquanto a chuva continua a cair e a senhora explica que nunca casou porque se apaixonou, há muitas décadas, por um homem dez anos mais novo. Naquele tempo, tal coisa não era bem vista. Ficamos todos tristes, de repente, com esta história de amor não consumada porque, há várias décadas, não ficava bem a uma mulher mais velha relacionar-se amorosamente com um homem dez anos mais novo. Penso que talvez ainda não fique. Quer dizer, que talvez ainda não seja bem visto. Mas nada digo, obviamente. Porque afinal é apenas uma coisa estúpida, como todas as ‘convenções’ que sobre nós pesam ou vão pesando e perdurando tempo demais. A senhora mais velha quer saber a idade da mais nova que lhe responde a cantar ‘sono a metà strada della sua’ e eu sorrio para dentro e penso que é capaz de ser a coisa mais bonita que ouvi hoje.

Mais tarde há-de chegar o Diogo. E ambos encontraremos o Stefano para jantar – pasme-se – num restaurante chinês, perto daqui. É simpático o Stefano. E falamos muito todos metade em inglês, metade em italiano. Acaba por ser divertida, tal mistura,como sempre, se bem que eu preferisse que a conversa fosse toda na língua mais bela do mundo. Nesta língua em que tudo o que se diz soa melhor, porque, na verdade, se pensa também melhor. Onde a língua empresta aos dias, se se prestar atenção, uma poesia que nenhuma outra jamais poderá emprestar. Estou a meio da sua estrada, também eu, minha senhora que não viveu a sua paixão naquele tempo. Estou a meio da sua estrada e não sei em que parte da minha. E dito isto, continua a chover em Roma.

*a chuva sobre Roma e estar a meio do caminho
** o governo velho que se vá embora
*** com o meu guarda-chuva vermelho