Primeiras letras

Uma das primeiras profissões que pensei que poderia vir a ter era a de preenchedora de impressos. Ocorreu-me isso quando me levaram ao serviço de identificação para fazer o meu primeiro bilhete de identidade e descobri que à porta vagueava um grupo de homens (confesso que não me lembro de nenhuma mulher), cada um munido de capinha e caneta, à espera do recém-chegado cliente com letra débil, caligrafia insegura, gramática titubeante, para de imediato apresentar os seus serviços e se ocupar de preencher os indigestos formulários estatais.

Para muitos, o contacto com a pesada máquina da administração pública cingia-se a renovar documentos, requisitar uma certidão, pedir um subsídio, e traduzia-se invariavelmente em impressos, formulários, requerimentos que metiam medo a quem raramente escrevia uma linha. Eram obrigados a comprar folhas que não sabiam como preencher, tinham medo de se enganar, a caneta tremia-lhes nas mãos quando se preparavam para fazer a primeira mancha, o primeiro traço de tinta no formulário impecável. Desistiam, não eram capazes. E aí estavam os solícitos preenchedores, gente calejada na tarefa e que não se atrapalhava quando se enganava numa letra e tinha de passar por cima com mais força.

– Como é se chama? Onde é que nasceu? Como se chamava a sua mãe? Assine aqui onde está a cruzinha.

Eram despachados, um nadinha paternalistas, mas sobretudo úteis. Em troca dos seus serviços, recebiam umas moedas e o agradecimento sincero de quem os achava imprescindíveis. Apanhavam sol e chuva, mau hálito e perdigotos dos fregueses, mas sempre era um serviço de escritório (para chamar-lhe de alguma maneira), limpinho, só se sujavam os dedos de tinta. Os fregueses mais agradecidos chamavam-lhes “doutores”, essa cortesia do povo português para com todo o graúdo cuja dignidade não querem beliscar.

Aos olhos de uma criança, os adultos analfabetos causam algum embaraço, baralham a ordem natural das coisas. Aparecem diminuídos, infantilizados, reduzidos a uma dependência que é indigna e vexatória, e que há que mitigar com delicadeza. Conheci, nesses anos, muitos adultos analfabetos e alguns ainda bastante jovens. À minha casa vinha regularmente uma vizinha a quem a minha mãe escrevia umas cartas para a família emigrada no Brasil e que começavam sempre assim:

“Meus queridos irmão e cunhada, espero que esta vos encontre bem.”

Semanas depois, a vizinha trazia a resposta para que a minha mãe a lesse, e soava sempre engraçada porque fora escrita para ser lida com um sotaque brasileiro que a minha mãe não tinha. Acabava invariavelmente com “Receba um abraço do tamanho do Pão-de-Açúcar”, e eu imaginava um pão-de-deus gigantesco (esse bolo coberto de açúcar e coco), que estaria no cimo de um morro, voltado para Copacabana, a despejar salpicos de açúcar no areal.

Não me recordo de um único homem que pedisse ajuda para ler o que não era capaz de decifrar, mas as mulheres faziam-no constantemente. Um rótulo no supermercado, o destino de um autocarro, a carta da segurança social… Elas não tinham vergonha de reconhecer que o mundo das letras as deixara de fora, como se sofressem de um tipo de cegueira muito particular, ou fossem estrangeiras, vindas de um mundo em que só havia gestos e vozes. E de fora significava uma forma de castração,  uma perpetuação da infância, porque sem saber ler nem escrever esses homens e mulheres não chegavam a adquirir todos os direitos que a idade adulta lhes deveria ter concedido. E a valentia que era necessária para voltarem aos bancos de escola, mulheres e homens feitos, avós, bisavós!, e teimar com os dedos que deixavam escapar o lápis, insistir até ser capaz de domá-lo, e a alegria das primeiras letras desenhadas aos setenta, oitenta anos!

Agora já não se escrevem cartas, é sabido, e o cartão de cidadão não precisa de formulários. Os analfabetos, felizmente, vão sendo cada vez menos. Já perceber e interpretar o que se lê é outra história, mas não é para aqui chamada. Extinguiram-se os preenchedores e à porta do serviço de identificação só vi uns pintas a vender óculos de sol contrafeitos. Os escrevinhadores, como eu, por vezes praticam nos blogues, onde se é incomparavelmente menos útil mas mais livre, que é como quem diz mais feliz.

Foto: Chema Madoz

Comments

  1. Fernando says:

    É sempre um prazer ler os seus textos, por tudo, mas especialmente pelas lembranças que me traz e pelo modo como observa tudo o que nos rodeia,
    Felizmente, ainda há quem esteja atento a coisas que muita gente não enxerga ou já esqueceu.
    Sem memória, não vemos nada nem existimos!


  2. Uma bela e fiel crónica de um tempo, que ainda deixa saudades a muitos.


    • Ah, mas olhe que foi ontem, Adelino. Se é que ainda não é hoje.


      • “Como se chamava a sua mãe?”
        Era uma resposta que a pessoa na sua simplicidade (sim porque essas pessoas eram simples) não tinham dificuldade em responder. Difícil e vexatório era para alguns quando lhe perguntavam o nome do “pai”…

        Os analfabetos de ontem são os info-excluídos de hoje; embora saibam ler e escrever, o sistema está montado para quem domina as novas tecnologias.

        P.S. O ler e escrever é uma força de expressão


        • Muito bem observado. Na verdade, comecei por escrever “como se chamava o seu pai?” e alterei-o. Sobre esse tema do “pai incógnito”, que tanto sofrimento e vexame provocou, como refere, hei-de escrever um dia.


  3. Gostei imenso do texto e faz-me lembrar as cartas dos meus falecidos.

  4. Jorge Pinheiro says:

    Os textos da Carla Romualdo são a principal razão porque visito frequentemente o Aventar. Deles emana uma luminosidade invulgar que, como só os grandes poetas o sabem fazer, nos reconduz ao essencial do ser.
    Muito obrigado.