Os sonsos

José Xavier Ezequiel

epa04865535 President of PSD (Social Democratic Party), Pedro Passos Coelho (R), greets the CDS-PP (Social Democratic Party) president, Paulo Portas (L), in Lisbon, Portugal, 29 July 2015, during the presentation of the coalition electoral programme for the upcoming legislative elections that will take place 04 October.  EPA/MARIO CRUZ

Os dirigentes do PAF ‘indignaram-se’ no último fim-de-semana com o facto de António Costa ter anunciado que, caso perca as eleições, não viabilizará o próximo orçamento de estado.

Segundo Passos Coelho, é inaceitável que um partido que pede estabilidade não aceite viabilizar o ‘seu’ orçamento, caso ganhe. Acrescenta Paulo Portas que, ainda por cima, se recusa a viabilizar um orçamento que não conhece.

Vamos lá por partes, como dizia o meu falecido primo Delfim, quando começava a ficar com um copito a mais. O PAF apresentou-se a este acto eleitoral sem programa. Ao contrário do que aconteceu há quatro anos, o PAF já nem sequer faz promessas. Limita-se a dar ‘garantias’. A mais importante de todas é a de que prosseguirá, caso ganhe as eleições, a mesma linha de governação.

Se assim é, e não há razões para acreditar que estejam outra vez a mentir, já todos conhecemos as linhas gerais do próximo orçamento, caso o PAF ganhe as eleições. Ora, se o PS votou contra os últimos orçamentos, porque diabo iria agora viabilizar o próximo que, mais vírgula menos vírgula, será mais do mesmo?

Façamos a pergunta ao contrário: se Pedro & Passos perderem as eleições podem desde já assegurar, em nome da estabilidade, evidentemente, que viabilizarão o orçamento de um governo PS?

Bom, a pergunta é perfeitamente ociosa. Mas apenas porque o assunto é, absolutamente, de lana caprina. Se António Costa perder as eleições, manda a tradição que se demita no dia seguinte. Alguém imagina um PS sem liderança a forçar a queda do governo e, consequentemente, novas eleições legislativas? No meio das eleições presidenciais, ainda por cima? Aliás, falta-me saber se, constitucionalmente, um PR em fim de mandato pode convocar eleições. Caso não seja possível teríamos um governo de gestão até que o novo PR as possa convocar. Em todo o caso, seria um verdadeiro suicídio político. E um partido do ‘arco da governação’, como o PS, sabe-o melhor que ninguém. Nas eleições que se seguiriam, o voto ‘flutuante’ do centro fugiria todo, irremediavelmente, para o centro-direita. Em nome da estabilidade, claro, coisa que a maioria do centro preza mais que quase tudo.

O mesmo raciocínio vale para Passos Coelho e para o PSD. Que, além do mais, não poderá hipotecar a forte possibilidade de ver um militante seu ganhar as presidenciais. Como se constatou nestes últimos dez anos, ter um amigo na presidência dá muito jeito, mesmo quando na oposição.

Resumindo e concluindo, ganhe quem ganhar, perca quem perder, o próximo orçamento será viabilizado. Os outros logo se vê, mas o primeiro está garantido. Ainda que seja apenas o CDS a ter que fazer o frete.

Por isso, proclamar num comício que não se viabilizará o próximo orçamento, em nome da luta partidária, tem o mesmo valor que pedir, em nome da estabilidade governativa, uma maioria absoluta. Ou seja, é apenas retórica eleitoral. Vale o que vale. E essa validade expira no dia 4 de Outubro. O que não vale a pena, a Passos & Portas, é fazerem-se de sonsos.

Comments

  1. JgMenos says:

    O PAF sem programa.- Está um programa em Bruxelas que o PAF diz ser o seu. Os sonsos ignoram-no sistemáticamente.
    Depois a retórica eleitoral não conta, indicia-se que só o programa é um compromisso, e tanto mais importante, escrito.
    Pergunte-se ao PS o que quer dizer cortar mil milhões em subsídios.
    Não diz, porque é sonso e só está obrigado a escrever um programa e a produzir retórica
    Nada como haver confiança….

    • António Mercês de Melo says:

      Há trinta anos que os advérbios terminados em “ente” – como somente, sistematicamente, estupidamente, sonsamente, cretinamente, etc – deixaram de ser acentuados.


  2. Democratas de pacotilha, que antes de saberem o que se vai escrever já votam contra!!
    Os eleitores vão-lhe dar a paga, se as tendências se mantiverem!! e porque será que as tendências se mantẽm?
    será arte da PaF ou banha da cobra a mais do Costa e apoiantes?