Escândalo! (ou do inadmissível… ou ainda dessa ‘integração’ chamada Praxe)

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Este papelinho foi posto a circular no ‘campus’ da Universidade de Aveiro onde, como alguns saberão, tenho o enorme gosto de desenvolver as minhas atividades profissionais de docência e investigação.

Este papelinho ilustra muito bem o que são a praxe e os ‘valores’ dos praxistas, assim como a sua elevada noção de “justiça” e de “integração”.

Os autores do papelinho usam como título a palavra ‘Escândalo’. Eu considero que é um escândalo, sim, mas não pelas razões que o papelinho expõe. O escândalo reside, entre outras coisas, no facto de alguém por isto a circular dentro do ‘campus’ universitário, utilizando o símbolo institucional da Universidade de Aveiro (de forma absolutamente indevida). O escândalo reforçar-se-á se esta instituição não responsabilizar e punir disciplinarmente estes ‘justiceiros’ do ridículo, para dizer o mínimo*. O escândalo reside ainda na promoção da discriminação de alguém com base na sua orientação sexual e nas suas escolhas pessoais. O escândalo reside na ofensa que este papelinho representa para todos os membros da comunidade académica, eu incluída.

É sabido que eu tenho uma opinião desfavorável relativamente às praxes. Papelinhos como este só reforçam essa minha opinião. É que a praxe não é, como fica demonstrado, ‘integradora’, nem ‘promotora da justiça’ e da ‘igualdade’. A praxe é apenas reprodutora. Reprodutora de valores bafientos (sexismo, homofobia, militarismo, entre outros) e de hierarquias bacocas que, paradoxalmente, os estudantes do Ensino Superior (e também na minha instituição) frequentente repudiam, noutros contextos da vida académica.

De resto, aproveito para dar as boas vindas a todos os novos alunos da Universidade de Aveiro e incentivá-los para que usem as suas capacidades, a sua inteligência e entusiasmo, no mínimo, para lutar contra os ‘valores’ transmitidos neste papelinho.

*Enviei um email aos órgãos competentes da Universidade, não apenas a repudiar esta situação, que considero insultuosa e infame, como a solicitar que sejam tomadas medidas relativamente aos autores da mesma, no mínimo por uso indevido do símbolo da instituição e ainda que futuramente o uso de tal símbolo – que é também o meu – deixe de poder ser utilizado em atividades associadas à praxe. Já tive resposta. Aquele órgão tem já conhecimento da situação e está a acompanhá-la. Agirá, seguramente, em conformidade. 

Comments

  1. Ana A. says:

    Só não entendo é como é que ainda são toleradas as praxes neste século. A sua existência nunca pode ser invocada como liberdade de expressão, pois não o é!


  2. Cambada de grunhos. No entanto não me move a consideração pelo excluído. Também faz parte da grunhice.


    • o ‘excluído’ só o é com base na sua orientação sexual, aparentemente e, portanto – independentemente de querer ou não fazer parte da praxe – tal situação só pode merecer repúdio


      • O individuo em questão já admitiu ter sido ele a escrever o tal “papelinho”, sendo que fez isso por ter sido impedido de praxar devido a atitudes indecentes.


        • Bom, se isso é verdade, não deixa de ser verdadeiro também o que escrevi. Quem quer que tenha sido responsável pela produção desta palhaçada ignóbil deve ser responsabilizado, sobretudo pelo uso indevido do símbolo da UA. Mas creio que, a seu tempo, essa responsabilidade será apurada.

  3. Konigvs says:

    As praxes estão para o ensino, como o povo está para os partidos. O povo prefere os partidos que privilegiam a defesa dos mais ricos, e que os roubam descaradamente, em vez daqueles que defenderiam a maioria dos mais fracos. Primeiro a maioria das pessoas não quer aceitar que é pobre. É-o mas não o quer parecer, e votar num partido que defenda os mais fracos faz parecer que se é pobre. Não, eu vou votar no mesmo partido de direita que me rouba, porque um dia também vou ser rico, e poderei roubar os outros.
    Depois, este tipo de comportamento baseia-se também no sonho dos mais pequenos e mais fracos, de um dia estarem no papel daqueles que hoje o agridem. É só “um pequeno esforço” para ganhar o direito a humilhar os outros.
    “Hoje eles humilham-me a mim, mas daqui por um ano já poderei humilhar os outros.”´
    Isso e a extrema necessidade de grande parte dos seres humanos em não ser diferentes dos outros.
    Alguém consegue explicar, por que é que, ainda hoje, em pleno século 21, 99,9% dos homens usam cabelo curto apesar deste crescer tanto como nas mulheres? Porque os homens nascem num mundo de homens de cabelo curto.
    E por que é que, de repente uma mulher que não faça depilação genital é olhada como como coisa aberrante? Pois é.
    E se a grande maioria dos estudantes dá o cuzinho para ser humilhado, quem chega, não quer ousar ser diferente. Pensar pela própria cabeça dá muito trabalho, é sempre muito mais fácil ser macaquinho de imitação.


  4. Percebo a indignação, pois se eu lesse este papel sem saber do que está por trás também ficava assim. O problema está no que as pessoas não sabem o que se passa, nomeadamente, no curso de LLC. Se soubessem de tudo sabiam que não há nenhuma discriminação nas praxes (ou mesmo fora das praxes) em questão à orientação sexual de cada um, logo esse papel não passa de uma ENORME MENTIRA. Sim, há praxes abusivas que eu tão pouco apoio, e por isso mesmo, estou a comentar isto, porque nunca me senti humilhada ou obrigada a fazer coisas que eu não quisesse. Posso dizer que nunca fiquei bêbada, e nunca me senti pressionada a estar bêbada, ou mesmo a beber. Mas por favor não façam da praxe um demónio, porque não é. Lá por certas praxes serem uma valente estupidez não quer dizer que sejam todas. E o indivíduo que foi mencionado no papel se se sentir tão “excluído” que fale, porque homofobia? Homofobia é repugnante, e sinto-me com nojo com as pessoas a comentarem que LLC é homofóbico, quando não o somos. Parem de generalizar. Parem de falar sem saber dos conteúdos todos. Há muito mais do que sabem por trás deste papel, pois este foi posto para causar consequências a todo o curso. Eu não vou comentar mais porque sei que por mais que escreva aqui vão continuar a achar que a praxe é horrível e que é para “grunhos”. Afinal, só por ter feito praxe, sou ignorante, “neo-nazi”, homofóbica, sectária, que descrimino, e entre outros adjectivos muito divertidos e nada humilhantes, como devem perceber. Mas sim, gostava de descobrir quem foi a besta quadrada (ou para ser mais curto, palhaço) que afixou esse papel escrito de tal maneira que assusta qualquer um (foi escrito com um português terrível para “disfarçar” quem foi que escreveu, obviamente) e que essa pessoa fosse responsabilizada pelo que fez e pela vergonha que causou a todo o curso, incluindo os que não têm nada a ver com a praxe. Obrigada por escrever este artigo, porque apesar de tudo, é um cidadão livre de escrever o que pensa, e compreendo porque escreveu pois faria o mesmo se não soubesse do contexto. Saudações, e “pela justiça na academia”.


  5. Quando estas pérolas e outras, tal como outras coisas muito graves que acontecem no âmbito das praxes pararem de acontecer, talvez paremos de falar do que alegadamente ‘não sabemos’. Lamentavelmente, sei do que falo. Preferia, de facto, não o saber. De resto não chamei neo-nazi a ninguém. Chamei homofóbico, sectário e discriminatório efetivamente. Mas o papelinho é isso tudo, ora não é? Tenho consciência de que as praxes não são todas iguais, mas independentemente disso, os princípios que menciono e que as norteiam são, basicamente, os mesmos. Seguramente haverá ‘mais’ por detrás deste papel, mas na verdade, o que ele revela é o que nós conhecemos. E o que ele revela é lamentável, seja qual for o prisma por que se olhe. Não pode continuar a valer tudo. E sobretudo, como professora da UA, sinto-me profundamente insultada pelo facto de o símbolo da instituição onde trabalho e que respeito estar associado a uma coisa destas.


    • Mas o problema é que está mesmo nisso, ninguém é homofóbico. Mas lá está, ano passado houve este mesmo problema, um papel com o título “Escândalo” e com um texto igualmente parvo, e com o mesmo tipo de letra, tudo muito parecido, que depois o sujeito “excluído” por ser homossexual admitiu que foi o “grande” criador desses papéis. Não só a professora se sente insultada, como também eu, e acho que os restantes alunos de LLC, pois para além de dar má imagem à Universidade também dá má imagem ao meu curso. É muito lamentável, muito mesmo.


      • ninguém é homofóbico… isso dava aqui pano para mangas… mas vá, dou de barato que existam poucos homofóbicos entre os estudantes de LLC. Quanto à autoria, não me pronuncio para já. E quanto ao resto, absolutamente de acordo.