Uma coligação contranatura

Não há nada que me agrade mais do que ver Passos Coelho cair. Ou mais ainda, que um futuro Governo PS esteja nas mãos do PCP e do Bloco.
Mas todos sabem – todos sabemos – que a coligação de Esquerda em preparação é completamente contranatura. O PS está muito mais próximo do PSD do que do PCP ou do Bloco. Sempre esteve e vai continuar a estar. Daí que esteja curioso para ver de que forma vai o PS compatibilizar o lobby de interesses que sempre o acompanha com os seus camaradas de circunstância.
Fui votante do Bloco e, enquanto tal, há uma série de medidas que espero que o Bloco viabilize. Estou em crer que terá de tomar a iniciativa para a maior parte delas, porque se for a esperar pelo PS, terá de esperar sentado.
Só para dar alguns exemplos, para além da reposição dos salários e das pensões, vou esperar pela taxação dos dividendos em Bolsa, pelo imposto sobre as grandes fortunas, pelo fim das rendas excessivas da EDP e, já agora, pela interrupção imediata das obras da Barragem do Tua (alô, Heloísa, estás aí?) e do Programa Nacional de Barragens, pelo fim dos imorais benefícios fiscais aos grandes grupos económicos, pela extinção dos contratos de associação nas zonas em que há oferta de Escola Pública, pelo fim dessa pouca-vergonha que é os milhões esbanjados em consultadorias e grandes escritórios de advogados e por aí fora.
Sem que medidas deste género conheçam a luz do dia, lamento muito, mas terei de bater desalmadamente no Governo de António Costa e, por consequência, nos Partidos que o suportam. O que, saliente-se, revela uma grande coerência. Afinal, o Aventar nasceu como uma espécie de contra-poder que foi albergando no seu seio todo o tipo de tendências e ideologias. Chegámos mesmo a ter um elemento da extrema-direita que, por acaso, nem se portou nada mal enquanto cá esteve. Numa palavra, a principal característica do Aventar sempre foi o pluralismo – e só os mais distraídos é que poderiam pensar que algo com o nome Aventar poderia algum dia ser diferente.
Assim sendo, para muita pena minha, o meu principal alvo vai passar a ser a Esquerda. Porque simplesmente não acredito no PS. Antes estivesse errado.

Comments


  1. Pois…

  2. Ana Moreno says:

    Creio que todos os que se vão coligar para impedir o prolongamento da governação de direita não se sentem lá muito bem nessa coligação que, é verdade, algo tem de contranatura – basta o exemplozinho dos posicionamentos em relação ao TTIP… Porém, a democracia exige compromissos e neste caso é um belo momento para Portugal que os três estejam a tentar arranjar-se como podem. A concretizar-se, não será um mar de rosas para ninguém, mas será o possível – e de facto, há muita jardinagem a fazer em matéria de justiça social. Não vale começar já a aguçar as tesouras…

    • Konigvs says:

      Política e Jardinagem… (revirar os olhos…)
      Eu como jardineiro amador nunca nos meus mais belos sonhos (na verdade até nunca me lembro deles) imaginaria tal metáfora! Mas faz todo o sentido… este governo espalhou várias invasoras, que serão muito difíceis de combater, como a junça e as azedas por exemplo!
      De resto não são três, mas quatro: PS, BE, PCP e PEV.
      De qualquer forma, qualquer bom jardineiro sabe que deve ter sempre as suas ferramentas bem afiadas. Quem quer ter um relvado perfeito, não se pode desleixar e ter uma lâmina do corta-Relvas a cortar mal.


  3. O que é que tem a Heloísa?


  4. Outro que está a ALKA – SELTZER…

    As melhoras!

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Diga lá qual é o seu problema. Se tem dificuldades cognitivas, eu explico melhor a minha opinião.

  5. Ricardo Almeida says:

    “O PS está muito mais próximo do PSD do que do PCP ou do Bloco.” É esta a beleza da coligação! Vamos ser realistas: o enquadramento filosófico da população portuguesa dita que apenas o PS ou o PSD possam tomar o poder em Portugal.
    Teoricamente, já houve outras coligações no passado a governar. Mas quando o partido coligado é só um e é a porcaria do CDS, não conta. Estes não são mais do que parasitas a tentar meter as manapulas na caixa dos biscoitos. O CDS é um partido camaleão, sem qualquer identidade ideológica que não o oportunismo politico. Tudo vale para safar mais uns boys la do burgo e eles ate se coligavam com o PNR se isso lhes desse mais um ministro.
    Mas esta coligação é completamente diferente pois agora temos dois partidos de esquerda a segurar os “tomates” do PS. Se ele se portar mal, como é costume, basta fechar o punho e ver as rosinhas todas a encolher-se de dor. Ao contrário do CDS, o BE está nisto da política a sério (espero eu). Esta coligação vai ser também para isso: provar que o BE e o PCP estão a altura de governar o país um dia (ou não…nestas coisas prefiro manter-me céptico)
    Como ainda faltam uns quantos anos até os portugueses perceberem que o PS, CDS e PSD não só não são a única alternativa governamental, como até são a pior disponível, até lá resta-nos aproveitar estas pequenas benesses.

  6. joão lopes says:

    “o meu principal alvo vai passar a ser a esquerda” se entretanto a propria direita(com as actuais direções dos respectivos partidos) nao se tornar um alvo a abater…pela propria oposiçao dentro do PSD.(já que o cds fez mesmo questão de se transformar no pp)

  7. Konigvs says:

    Bom, eu sinceramente odeio a palavra “contra-natura”. Faz-me logo lembrar dos fanáticos anti-homossexuais e doutros argumentos que tais: “Ah isso é contra-natura”. E odeio o “contra-natura” como odeio a palavra “normal”. Mas o que é ser normal? Ser normal neste país é ser corrupto, conduzir como um desvairado de preferência ao telemóvel, votar PS ou PSD, ver o galinheiro da TVI e ir à missa ao domingo, ou então dizer-se católico sem nunca ter lido a bibliazinha, apesar de a ter ganho de oferta a comprar uma qualquer banha da cobra para emagrecer, e que tão bem fica exposta na sala a apanhar pó.
    Se isso é o “normal” então eu orgulho-me de ser um anormal.

    Sobre a opinião manifestada no texto acho-a completamente descabida. Ela encarna a normalidade das pessoas de esquerda, que são sempre contra tudo e todos, mesmo contra eles mesmos, e passam a vida a medir pilinhas para ver qual é a que descai mais para a esquerda. Dizer mal sim, mas com alguma lógica ou coerência.. Estar a dizer mal de um eventual governo de esquerda, que ainda é só do domínio do imaginário,e pouco se sabendo do que possa vir a ser, parece-me ao nível do pessoal de direita que argumenta que António Costa não tem legitimidade para ser primeiro-ministro.

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  1. […] É disto que eu gosto no Aventar – nunca temos o presente como o futuro que queremos ter. […]


  2. […] dizer que estou confiante na aliança mais ou menos de esquerda que liga o PS aos outros partidos? Nem por isso, mas olho para o futuro da governação de modo muito descontraído, porque há valores que, de […]


  3. […] argumentar que estamos perante um acordo contranatura. E com certeza que estamos. É sabido que as relações entre PS, BE e CDU não têm um […]