Duas curtas histórias sobre o valor do trabalho em Portugal

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Pedro Guimarães

Um grande grupo editorial do Porto, muito conhecido pela sua dimensão económica e pela sua presença no mercado dos manuais escolares, ofereceu-me em contraproposta a orçamento uns “generosos” 50 € pelo licenciamento de imagens para uso durante seis anos nos seus manuais de 5.º e 6.º ano. Educadamente recusei, reiterando o óbvio, que em vez de esmola preferiria oferecer o uso das imagens gratuitamente, exigindo em troca da disponibilização dos manuais gratuitamente a famílias necessitadas, sendo que os livros a disponibilizar deveriam alcançar pelo menos uma fracção do valor de mercado dos direitos que estes senhores procuravam adquirir. Estamos a falar de meia dúzia de livros, ou uns poucos kgs de papel se preferirem. Troca por troca. Mas não, nada disso, esmola ou nada.

No mesmo dia, em conversa com a senhora I., mulher de armas que me ajuda nas limpezas semanais lá de casa, descubro que o seu filho de 37 anos vive ainda com ela e com o marido. Pergunto se é preguiça de ter vida ou se não encontra trabalho, diz que nada disso, que seu filho tem emprego e com contrato (por objectivos): é condutor de tuk-tuk. Trabalha muito mas aquilo não dá para viver, não dá para pagar a renda de um T0 sequer.
E eu pergunto-me, para a esmagadora maioria dos portugueses, para que serve o trabalho se os seus dividendos não garantem sequer o acesso à mais básica autonomia? A resposta é clara e não se presta a interpretações variadas: para encher os bolsos aos investidores privados. É a nova escravatura, e como todos sabemos, começou no fim da última grande guerra com a descoberta dos poderes curativos do dinheiro.

E a boa nova? Sim, há uma boa nova nisto tudo: para quem tem algum (claro está) já não é sequer preciso trabalhar, basta, eu sei lá, comprar um ou dois apartamentos perto de um centro histórico e alugar quartos ao dia no airb’n’b, a 30 € já dá. É logo dois ou três milhares de lucro, certinhos e limpinhos ao fim de cada mês. O milagre da transformação, não fazer ponta dum corno e transformar isso em rendimento. Vá-se lá perceber isto do trabalho, quanto mais diminuto mais lucrativo se torna! O liberalismo económico que nos é imposto, o das “leis do mercado”, em que vale tudo, sem um pingo de vergonha na cara, é em tudo muito bonito, lei da selva, salva-se quem pode. Nem é preciso ter muita imaginação.

Os defensores da meritocracia dirão que quem trabalha, quem se empenha, mais tarde ou mais cedo vencerá. Deixem-se de dar ouvidos a essa gente, cá para nós (que ninguém nos ouve) este país, assim como está, não passa de uma pequena máquina parideira de verdadeiros cabrões, de chupistas que só querem sacar, sacar. “Empresários”.

Até lá sejamos como os cães vadios, pelo direito a não fazer nenhum. Ou somos todos burgueses ou não há nada para ninguém, porra.

Comments

  1. Ana Moreno says:

    Concordo totalmente com a crítica de fundo ao neoliberalismo, ferida na qual Stiglitz ontem tão prominentemente pôs o dedo. Mas como em tudo, há que diferenciar ligeiramente. Apesar de haver poucos, há alguns empresários corretos. Conheço pelo menos um….

  2. Ana A. says:

    Nunca entendi, porque é que o direito constitucional à habitação não é cumprido, e não se passa nada!
    Quem são as pessoas que, efectivamente, nos dias de hoje, têm acesso a esse direito?! E já agora: com o desemprego muitas famílias ficaram sem as suas casas porque não as puderam pagar à banca. Como é que essas famílias “entram” no mercado de arrendamento, com os seus parcos ou nenhuns recursos?! Qual o artigo da constituição que lhes pode devolver a dignidade?


  3. Talvez se comparar como vivem e quanto tempo vivem os cidadãos dos tais “infernos” sem direitos e os “paraisos” onde é diferente, possam os que gostam de factos e não propaganda lirica, encontrar respostas mais certas, para as suas dúvidas.