FCP: O Complexo Basco

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(Este post foi originalmente escrito numa página de grupo privada de adeptos do FCP nas redes sociais depois da derrota com o SCP. Não era para ser publicado no Aventar mas a pedido de muitos decidi colocar aqui a minha opinião. Actualizada fruto dos últimos acontecimentos)

Para muitos este é um post sobre futebol. Para alguns é um pouco mais do que apenas um post sobre futebol.

Mesmo fazendo um enorme esforço não me lembro do momento exacto em que me tornei portista. A influência do meu pai foi fundamental. Recordo-me do velho rádio onde ouvia os relatos (o Quadrante Norte), das disputas na primária com outros miúdos que eram adeptos do Benfica. E depois, a promessa do meu pai de que aos 10 anos me faria sócio do Porto. E assim foi. Mais tarde vieram os primeiros jogos em que fui autorizado a ir sozinho para o Estádio das Antas, depois com os amigos. As alegrias, as tristezas. E 1987. O ano de Viena, do calcanhar do Madjer, as fintas intermináveis do Futre, do eterno capitão João Pinto agarrado à Taça dos Campeões, da cidade do Porto virado do avesso sem esquecer a loucura vivida em pleno cruzamento da Areosa. Os anos oitenta foram intensos. Não estávamos habituados a tantas vitórias. Já os anos noventa foram de vitórias atrás de vitórias. O início deste século foi um verdadeiro regalo: Taça UEFA, Liga dos Campeões, Liga Europa, domínio absoluto a nível nacional, Mourinho, Deco, André Villas-Boas, etc, etc, etc.

Ao longo destes anos o Porto conquistou títulos, lançou jogadores e fez milhões com receitas de todo o género e feitio. Em todo este percurso iniciado no final dos anos setenta passaram por aqui inúmeros jogadores e vários treinadores. Mas existe algo que fez a diferença: Jorge Nuno Pinto da Costa. Liderou o FCPorto e fez uma autêntica revolução. O clube e todos os seus adeptos devem-lhe muito. Ele personifica o FCP vencedor.

Foram poucos, muito poucos, os pontos onde falhou.

Em todos estes anos (mais de três décadas) de liderança ser um tremendo desafio encontrar falhas é algo verdadeiramente impressionante. Claro que existem. Todos as temos e ninguém é perfeito. Nem ninguém vive eternamente. Embora Jorge Nuno Pinto da Costa tenha conseguido com todo o mérito ficar eternamente na história do Futebol Clube do Porto. Só que o tempo é implacável. Para todos nós, sem excepção.

Nem tudo são rosas nos últimos 10 anos do FCPorto no que toca à situação financeira do clube. Em 2004 o passivo do clube rondava os 82,8 milhões de euros. Em 2013 atingia os 220 milhões. Contudo, nesse período, as vendas de jogadores e treinadores foram superiores a 320 milhões de euros. Em 2014/15 o passivo do FC Porto subia de 220 para 276 milhões.

Ao mesmo tempo, no mesmo período, o Porto batia todos os recordes de vendas de jogadores somando mais de 100 milhões em apenas uma época.

Ao longo destes 10 anos (2003/4 a 2013/14) em análise o Porto obteve mais de 500 milhões de euros só com vendas de jogadores. A estes valores temos de acrescentar as receitas com as presenças na Liga dos Campeões, receitas televisivas, de bilheteira, publicidade, entre muitas outras. Não será difícil obter um valor próximo dos mil milhões de euros na última década. Muito por causa de tudo isto, são cada vez mais os sócios que não percebem as contas apresentadas, ou seja, o que justifica um passivo que se aproxima a passos largos dos 300 milhões de euros?

Obviamente, na irracionalidade do mundo do futebol, quando as vitórias abundam ninguém (ou quase ninguém) faz perguntas.

O que interessa é vencer, é o momento, o hoje.

E agora que o Porto assinou um contrato (de 10 anos!) com a MEO no valor de 457 milhões de euros, uma pessoa olha para tanto milhão e é levada a pensar que está tudo bem em termos de contas. Mas será mesmo assim?

O facto de no mundo do “pontapé na bola” se viver o momento pode ser uma vantagem num dia mas que rapidamente se transforma em desvantagem no dia seguinte.

No caso do FC Porto bastou um Basco para as massas começarem a fazer perguntas e a colocar tudo e todos em causa. É assim no mundo do irracional.

A teimosia em manter um treinador a quem se deram condições desportivas como a nenhum outro na última década mesmo depois dele não ganhar nada, transformou a paz interna em desconforto no ano passado e a um prenúncio de “guerra civil” na presente temporada.

Claro que hoje, depois da derrota na Champions e a mais recente derrota com o Sporting, do que mais se fala (e escreve) é sobre o treinador, o Basco Lopetegui. Compreende-se mas… O futuro do nosso clube depende mais da situação financeira do que da qualidade (pouca ou nenhuma no caso) do treinador. E nada como misturar um pouco as duas para melhor se perceber a complexidade do momento actual.

Foram dadas a este treinador condições nunca antes vistas no nosso clube. Não se poupou em recursos humanos (vulgo jogadores), em massa salarial (as mais elevadas de sempre) nem em apoio dos sócios. Mesmo tendo tido, no ano passado, condições únicas para vencer e ter, mesmo assim, perdido tudo, os sócios não se revoltaram, não deixaram de apoiar a equipa (e o treinador, mesmo que a contragosto). Contudo, como penso que seria óbvio e evidente para todos, este ano não existiria margem de manobra para qualquer tipo de erros.

E se sair da CL às mãos do Chelsea (mesmo que tenha sido perante o mais fraco dos últimos anos) não era caso para um “levantamento de rancho”, já a forma como se perdeu em casa com o Kiev ou a sucessão de derrotas com o Marítimo e agora a derrota com o Sporting são graves. Sobretudo por mostrarem que Lopetegui não aprendeu nada com os erros do ano passado. Porém, não chega para tanta crispação.

O mais grave é o facto de o nosso clube continuar a somar milhões ao passivo todos os anos mesmo obtendo receitas impressionantes ao longo da última década (e então no último ano…). Pior, tendo agora feito um contrato de 457 milhões com a MEO (de quanto foi com a New Balance?) podendo, se assim o desejar e se tiver quem aceite, entregar o contrato como garantia à banca para antecipar 4/5 da verba em causa em empréstimo de longo prazo. Ou seja, estamos perante uma situação financeira complicada que se pode transformar em catastrófica. Por isso, o que está aqui em causa é o futuro do FC Porto enquanto instituição. Se desde 2004, com semelhante sucesso a nível das receitas, não conseguimos diminuir o passivo, bem pelo contrário, triplicou, quem nos garante que agora vão fazer financeiramente melhor? Ainda para mais quando estamos “agarrados” por 10 anos a um contrato que significa qualquer coisa como 50% das receitas de uma década…

Depois, perante a arrogância do treinador e da teimosia dos responsáveis, vários figuras históricas do nosso clube vieram, publicamente, chamar a atenção para o que se passa. Uma espécie de grito “o Rei vai nú” nunca antes visto. Quem de direito, em vez de tentar perceber prefere atacar aqueles cujo amor ao clube os obriga a mostrar a sua preocupação. Para piorar, os sócios responderam com a ausência ao jogo (é penoso ver as bancadas do Dragão com tão poucos adeptos). Alguns chamam aos que não foram de “pipoqueiros” ou pior. É a cegueira de quem parece que deve e teme. O quê? A quem? Porquê?

É hora de pensar. Com seriedade. Pensar no futuro desta nossa Instituição. Porque, como gritaram os adeptos que de madrugada quiseram mostrar o seu descontentamento, “O Porto é nosso!”.  Nosso. Não dos senhores das comissões, dos senhores dos milhões e muito menos dos senhores que até nem são adeptos ou sócios do nosso clube mas não se importam nadinha dele serem assalariados…

Se isto não nos faz pensar, então o que fará. Como dizia o outro: “é só fazer as contas”…

Comments

  1. ausente52 says:

    e eu a julgar que o futebol era um desporto. Afinal é um desporto de compras e vendas.
    È também um campo de violência verbal e física.

  2. Konigvs says:

    Só li ainda o título e não gostei. Tal como não gosto que titulem “homem de etnia cigana assaltou um banco” porque também nunca titulam “homem branco assalta banco” ou “banqueiro branco simpático roubou milhões aos depositantes”.
    Tal como não gostei de ver uma mensagem “Espanhol pede demissão”, porque nunca vi nenhuma massa adepta escrever “português pede demissão”. Isso é racismo, xenofobia ou então, para usar a terminologia da moda, é muito pouco Charlie.

    • Tiago Miranda says:

      LOL. Adoro ver esse tipo de comentários. Na verdade é uma característica. Ser Basco é apenas e só uma característica. Chamo pretos aos meus amigos pretos. E não sou menos amigo deles por isso. Eles devolvem-me com um “branco” que não ofende. Tal como chamo muitas vezes os meus amigos estrangeiros pela respectiva nacionalidade. Chama-se a isso complexo de inferioridade. Só alguém que não está à vontade com aquilo que é, se sente ofendido com tal coisa.


  3. A pergunta base é: como é que os clubes de futebol, em Portugal não estão falidos? Será que há fundos comuns a segurar Porto e Benfica? Será que há lavagem de dinheiro angolano e da Guiné no Sporting? Como é que é possível chegar ao norte um suplente que custou 20 milhões? Como é possível na luz, comprar uma parte de um suplente por quase dez milhões? E a massa salarial verde, cresceu com que dinheiro? Mas, em boa verdade todos sabem e todos fazemos de conta, porque, quando se ganha está tudo bem, não é Jesus?

    • Konigvs says:

      E como é que o ex-autarca “exemplar” de Gaia enterra 15 Milhões numa “Fundação”, que todos nós pagamos do nosso bolso, para fazer o centro de estágios do FCP, e o clube paga 500€/mês? Eu também gostava de ir para uma casa da Assistência Social que valesse 15 milhões de euros e pagar de renda 500. Estou disponível para me mudar para Gaia, visto que até trabalho lá.
      E os três “grandes” em Portugal estão tecnicamente falidos. Quando não se tem património para pagar as dívidas – e basta saber jogar Monopólio – para se saber que se está falido.
      Mas depois os doentes da bola, entretêm-se a discutir as pilinhas, tu-estás-mais-falido-que-eu ou eu-fiz-um-melhor-negócio-de-televisão-que-tu, como se isso interessasse para alguma coisa. Como se não tivessem de continuar a vender jogadores – não é Pinto da Costa? – para não falirem de vez.


    • Explico-te de forma muito simples o caso do Sporting:
      – com aumentos de capitais por parte dos accionistas da SAD e sucessivas trocas de direitos económicos de alguns jogadores detidos por accionistas do clube (caso da Holdimo) por acções da SAD.
      – com um processo de reestruturação financeira no clube e na SAD que abordou várias rubricas das contas da SAD desde a reestruturação dos empréstimos junto da banca (perdão de juros, estrutura da dívida à banca, alargando os prazos de reembolso), de vários fornecedores, diminuição drástica do orçamento para as temporadas 13\14 e 14\15 e 15\\16 dos 45 milhões para os 20 (13\14 e 14\15) e 30 milhões durante a presente temporada.
      – com uma diminuição de custos nas despesas extra-futebol da SAD do Sporting, denominadamente nas rubricas relacionadas com gastos relativos à manutenção do estádio, funcionamento da SAD e manutenção da Academia de Alcochete. Só ao nível energético, os gastos da SAD diminuiram em cerca de 30% dos custos que tinha em 2012.
      – com a diminuição significativa da massa salarial que Bruno de Carvalho herdou do anterior mandato da SAD, despachando jogadores que andam a chupar muito dinheiro ao Sporting casos de Pranjic, Elias, Bouhlarouz, Jeffren, Bojinov, Oneuywu, André Santos, Grimi, Rinaudo, Schaars, Santiago Aris entre outros…
      – com a venda de jogadores – não podemos ignorar que nos últimos anos, o Sporting realizou desde a tomada de posse de Bruno Carvalho enquanto presidente cerca de 75 milhões em transferências de jogadores, o que é um valor considerável para um clube como o Sporting (1\3 do seu passivo actual).
      – com o natural crescimento da quotização de associados, aumentando o número de associados do clube em 20 mil sócios.
      – com o crescimento da receita de bilheteira (+ 5 mil pessoas em média desde 2012 no Estádio)
      – com o crescimento das receitas publicitárias (a Macron por exemplo paga mais 2 milhões por temporada do que aquilo que pagava por temporada a Puma) e dos direitos televisivos e dos direitos de exploração comercial da publicidade estática e virtual do estádio, aumentando em 33 milhões esta receita de acordo com o que foi publicitado na semana passada, o valor pago pelos direitos televisivos da presente temporada.
      Quanto ao que o Fernando Moreira de Sá escreveu, só lhe dou um exemplo do que se está a passar nas finanças do Porto: Danilo custou 12 milhões ao FCP. Foi vendido ao Real Madrid por 31 milhões. Pelo meio deu, se não estou em erro, 7 milhões a empresários pelo prémio de assinatura e 8 milhões pelo preço de venda, lucrando o Porto, se não contabilizarmos os salários auferidos pelo jogador, 4 milhões de euros pela transferência. Multipliquem-se alguns valores pagos a agentes, empresários e fundos pelas vendas de Hulk, Otamendi, Cissokho, James e João Moutinho. Somem-se alguns valores pagos por prémios de assinatura e salários de alguns jogadores do actual plantel, somas principescas para jogadores que jogam muito pouco como é por exemplo o caso de Tello ou como foi por exemplo o valor pago por Adrian (13 milhões + luvas ao empresário + 3 milhões de prémio de assinatura + 2 milhões liquidos de ordenado) – com negócios assim, o dinheiro vai-se num instante. Acresce ainda o facto do Porto ter, actualmente, vários empréstimos a correr na banca junto do BIC e do Banco BMG, parceiros no aditamento de fundos para realizar certas operações…

      • cesar sousa says:

        Fiquei impressionado com o relato financeiro que fez.Esqueceu-se apenas de falar nos poços de petróleo que jorram crude com fartura por baixo dos balneários do SCP.
        Em suma : O FCP está falidíssimo e o SCP, qual fénix renascida,
        respira bem-estar financeiro e sabe-se lá que mais. Dito doutra maneira : O BdC. é esperto que nem o Mickey e inteligente que nem o Pitágoras , ao invés do PdC que é pasmado como a Maria de Belém e burrito que nem o José Rodrigues dos Santos.
        Quem acreditar nas suas tretas tambem irá jurar como o Cavaco
        que o BES é um banco sólido e confiàvel.
        Os balanços do SCP /SAD,são tão confiàveis como os do BES que o DDT apresentava aos accionistas e ao palhaço do Carlos Costa.
        Aproveito para informar o sr. de que o Pai Natal não existe.
        Cumprimentos


        • Não retiro uma única virgula do meu comentário. Ainda esta semana creio que deverá ter visto que a banca acredita no trabalho que BdC está a levar a cabo na área financeira da SAD ao anuir o alargamento do prazo de pagamento de Valores Mobiliários Obrigatoriamente convertíveis para mais 10 anos. Esta decisão por parte do Novo Banco, do BPC e de outros obrigacionistas pequenos da SAD do Sporting só realça que o trabalho do presidente está a ser credível. Ou acha que o Novo Banco, perante a situação difícil que está a passar, não queria, em caso de falta de credibilidade da SAD do ponto de vista financeiro, recuperar já algum do que foi investido, para ter em troca acções da SAD de vários accionistas (distribuídas equatativamente pelos accionistas mediante a sua participação) para talvez as tentar vender e minorar os danos? Se o fizeram é porque existem condições para serem reembolsados na íntegra, lucrando, com este aumento de prazo, mais juros e mais juros de mora.

  4. jpfigueiredo says:

    Que pungente miado de revolta! O FC Porto está desmoralizado, endividado, arrumado? Quando a medicina tradicional não resolve, o desespero costuma aconselhar as medicinas alternativas. Uma dieta à base de “fruta” costuma ter os seus efeitos em matéria de resultados “desportivos” e a força anímica que estes produzem sempre fez milagres financeiros. É a chamada cereja no topo da bola de neve ou, numa apreciação mais masculina, repor as “meláncias” no sítio.


  5. Vamos com calma, chamem já o Arménio Carlos, a embaixada de Espanha, todos em defesa do posto de trabalho do Lopetegui, tenho para mim que merecia um contrato de trabalho sem termo, se precisarem até posso enviar um donativo desde que o mantenham no banco durante as próximas épocas, eheheh…

  6. Armando says:

    Nem Porto sabe dizer. É sempre Oporto…Chega!!

  7. Rui Moringa says:

    Foi fidelizado ao mundo da bola de uma forma clássica e cedo. Quando mais cedo (se torna sócio) mais fixado com esse mundo.
    Deveria sim jogar futebol em vez de ser “sócio (!)”.
    O futebol é uma indústria que tem de fixer (pela emoções) os seus clientes, fazendo tudo para que não racionalizem.
    Fuja disso.
    Bem, cada um toma a cicuta que pode ou quer.
    A questão é que não faça mal a ninguém arregimentando clientes para a “coisa”.
    Bom proveito com o futebol.
    Eu prefiro jogar o jogo das bolas…