Carro-chefe à deriva

merkelFoi consensual que, no período em que a crise das dívidas soberanas estava no centro das atenções da UE e do público, foi Merkel, através do seu Ministro das Finanças, Schäuble, quem impôs o rumo da austeridade; a Alemanha, com a força do seu peso económico, obrigou os países cuja dívida era insustentável às eufemísticas “reformas” – algumas até necessárias (p. ex. medidas contra a fuga ao fisco), mas outras absolutamente inaceitáveis (p. ex. privatizações, cortes na saúde pública, etc.). Bem clara foi a tomada de partido em favor do capital e contra os cidadãos, aquando dos resgates bancários. O que se mostra agora também claramente, é que a posição da Alemanha só prevaleceu porque era isso mesmo que os outros membros do clube queriam, os governos europeus de maioria conservadora, que mais não fizeram do que aproveitar para se encarrilarem atrás da locomotiva que não temia assumir o papel de mazona. A Grécia, que ousou entrar no ringue para mudar esse estado de coisas, viu-se pura e simplesmente isolada e foi reduzida à sua insignificância.

Esta visão vem agora a ser confirmada em relação à grande problemática do momento, o afluxo de refugiados à Europa. Subitamente, Merkel já não consegue ter poder suficiente para impor um rumo, nomeadamente, a entrada ilimitada de refugiados fugitivos de guerra, e anda desesperada a tentar convencer os outros países – e o seu próprio – de que não é humano nem se coaduna com os valores europeus fechar as portas a quem foge do terror.

Desde a recusa em aceitar uma quota de refugiados, até ao fingimento de aceitarem meia dúzia deles que depois nunca mais se consegue colocar onde é suposto, o certo é que o problema está aí e não há meio de se chegar a uma linha comum e muito menos àquela que Merkel defende incessantemente, arriscando-se a perder o apoio da população alemã e até do seu próprio partido; a maioria da população já não apoia “o nós conseguimos!” de Merkel e no seu partido a pressão é imensa; entretanto, vai crescendo o apoio ao partido e ao movimento de extrema-direita.
Merkel não está a conseguir – ironicamente logo agora, que a sua posição é a de uma verdadeira humanista – e vai mesmo acabar por vergar ou cair. Vê-se pois que a sua força – e a da Alemanha, como é lógico – depende dos apoios que tem e não do seu poder per se – apesar da incontestável força económica do país.

Comments

  1. Fernanda Leitão says:

    Excelente trabalho este seu. Demonstra, entre outras coisas, que Merkel não soube ver longe, a exemplo de todos os dirigentes que estão à frente da UE. A Europa está sem estadistas nesta hora tão incerta e perigosa. Oxalá a História não se repita.

  2. Afonso Valverde says:

    A EU está em entropia, oxidação…
    As razões são múltiplas. Foi uma ilusão que nos venderam, congeminada no Clube Bilderberg (multinacionais europeias e americanas).
    Os refugiados são umas das vítimas da guerra cozinhada pelos mesmos na luta contra os chineses e russos.
    A tática de os enviar para a EU é parte de uma estratégia de guerra.
    Quem incendiou o mato que fique com a madeira queimada.
    A Arábia Saudita e outros países árabes têm meios para os receber. Como são parte muito interessada na bronca que façam algo de decente e abriguem os sírios.
    A Sra. Merkel é uma tonta que acha que é imperialista.


  3. A narrativa está muito bonita, mas não percebi nada, a não ser que a culpa é da Merkl, incluindo as governações maravilhosas de gregos e portugueses, as nossas dividas, os salarios baixos e o termos que pagar as dividas sozinhos, quando a culpa é da Mekl e do ranhoso Schaubel

  4. Tiago Vasconcelos says:

    Pois, o desastre grego é responsabilidade externa. A narrativa é antiga. Foi amplamente utilizada por todos os regimes socialistas. Todos fracassaram, em maior ou menor grau. Mas a responsabilidade nunca era do próprio sistema que criaram, era do “imperialismo” ou de “conspiradores” estrangeiros.

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