Contacto com a população imóvel

Há um tipo de campanha eleitoral centrada no “contacto com a população” (designação um pouco tonta que todos os candidatos utilizam), mas uma população maioritariamente constituída por velhinhos, criancinhas, paralíticos, doentes, senis, institucionalizados, gente que, por um motivo ou outro, está impedida de fugir dos candidatos. O pretexto é sempre o de manifestar a extrema preocupação desse candidato com os mais débeis, a sua sensibilidade e capacidade de empatia, a ternura com que leva a colher de maçã assada à boca da D. Felismina, o carinho com que pergunta ao Joãozinho que som é que faz a vaquinha. As pessoas, mais do que pessoas, surgem como uma massa amorfa de carência social. Têm a inegável vantagem de não protestar, não contestar políticas anteriores, não interrogar, seja porque não são fisicamente capazes de fazê-lo, seja porque se sentem coagidas a calar. E ao contrário da maioria dos outros cidadãos, que podem sempre escapar a uma arruada, dar meia volta para evitar um folheto que não se deseja receber, não têm como fugir das acções de campanha. São reféns, para todos os efeitos.

Comparo este tipo de propaganda política com o assédio que sofre o senhor Sousa.

À porta de certo café do Porto, sentado na sua cadeira de rodas, costuma estar o senhor Sousa, um homem já na casa dos sessenta. Alguém o leva pela manhã, estaciona-o à porta do café, protegido por umas amplas arcadas que o guardam da chuva, e só passa a recolhê-lo ao fim do dia. Desconheço o motivo, mas imagino que seja uma alternativa a deixá-lo sozinho em casa todo o dia. Enquanto fumei, o senhor Sousa pedia-me cigarros, agora pede a outros. Nunca o vi pedir esmola nem sequer meter conversa, apenas observa e fuma um cigarro ocasional. Recentemente começou a ser vítima das testemunhas de Jeová. De cada vez que elas passam na rua, duas a duas, com a capinha negra debaixo do braço, cheia de folhetos sobre um paraíso celestial parecido com Honolulu, é sempre com ele que vão ter e é sempre a ele que dão umas secas monumentais, porque o senhor Sousa, pobre dele, não pode fugir.

Sonho com o dia em que o senhor Sousa se revoltará contra as suas perseguidoras, tal como sonho com o dia em que um velhinho inimputável correrá com um político à bengalada para gáudio dos repórteres e desforra de todos os reféns.

Comments


  1. Que maravilha de texto certeiro, Carla.

  2. Afonso Valverde says:

    Excelente naco de prosa.
    O tema é actual e interessantíssimo.
    A metáfora é rainha…
    Grato.


  3. Agora é moda dizer-se 2 em 1.
    Prazer pelo texto e admiração pela atitude. Bem juntinhos os dois e a felicidade passou por mim. Obrigado Carla Romualdo.