A Bósnia como exemplo da Realpolitik


jugoslavia_siria

Renato Gonçalves

Em 2013 estive na Bósnia, passando a fronteira terrestre com a Croácia, e percorri ao anoitecer a estrada até Bihać, cidade de maioria muçulmana situada a Noroeste. Ficou-me na memória os vultos constantes de homens sentados à beira da estrada, como se estivessem sempre ali, e as casas degradas, ou em (re)construção, dos Bósnios na diáspora. O ambiente na cidade, com pouca luz, era desconfortável e o único local possível para aconchegar o estômago foi no maior e mais central hotel da cidade, o Hotel Park. Qualquer moeda forte, além do oficial marco-convertido, era aceite (Euro, Dólar, Kuna croata, etc…). Uma refeição completa, tudo incluído, ficou por 3 euros, cera de 6 Marcos-Convertidos.
Com o luar era possível ver as silhuetas dos minaretes. Nos cafés o contraste entre os jovens muçulmanos e os restantes era significativo. Raparigas cobertas, e com véu, caminhavam lado a lado com outras cujas mini-saias de tão curtas se assemelhavam a cintos. Havia tensão e sentia-se a existência de ‘máfias’ em cada bar e clube nocturno.Tudo parecia muito frágil. Qualquer movimento poderia desencadear situações difíceis de resolver. Entretanto ao viajar pelas restantes ex-repúblicas da Jugoslávia, e aprofundando a sua história, tenho concluído que o desmantelamento daquela federação socialista foi intencional e provocada por agentes de interesses obscuros, mergulhando até hoje os Balcãs numa espécie de caos controlado. Os EUA, a NATO, a Turquia e Arábia Saudita armaram os combatentes muçulmanos da Bósnia, que atraíram para a região outros combatentes islâmicos provenientes do Afeganistão depois da guerra com os Soviéticos. Em conversas com gente que fui conhecendo todos falam da Jugoslávia Socialista como um país onde se vivia razoavelmente bem. Havia trabalho, dinheiro, era possível viajar e enviar os filhos para estudar no estrangeiro, a propriedade e a pequena iniciativa privada eram uma realidade e todos os jugoslavos gozavam de um estado social que lhes assegurava saúde e educação gratuitas. A liberdade sobre o poder de Tito não era total mas até os movimentos oposicionistas tinham os seus jornais e eram paternalmente controlados. O passaporte Jugoslavo era o mais cobiçado do mundo.
Com a morte do eterno presidente a luta pelo poder desencadeou a série de acontecimentos que culminaram nas várias guerras dos Balcãs, com abusos e crimes de todas as partes, sendo a última a do Kosovo, cujos ‘rebeldes’ muçulmanos, de origem albanesa, foram socorridos por mercenários Bósnios e de outras paragens, e à semelhança do que aconteceu na Bósnia, armados pelos mesmos de sempre.
A 24 de Março de 1999 a NATO bombardeia a Sérvia motivada pelos massacres que ali estavam a acontecer, sendo na realidade praticados por ambas as partes. E foi assim desmantelada a Federação das Repúblicas Socialistas da Jugoslávia, perdendo a Sérvia o berço da sua nação. Os presidentes norte-americanos tornaram-se heróis na Albânia, um dos poucos países ausentes no funeral de Tito. Tudo o que a cheire a qualquer resquício de influência socialista, e que possa ser modelo funcional, onde os meios de produção e riquezas do Estado estejam ao serviço do bem-comum, é para desmantelar. Não obstante as críticas que devem ser feitas ao regime dos Al-Assad, qualquer semelhança entre os acontecimentos da ex-Jugoslávia Socialista e o incómodo Baahthismo sírio de inspiração laica e socialista é pura realidade. Chamam-lhe Realpolitik, dizem alguns…

Comments

  1. eu avento says:

    Chamar “Influência Socialista” ao legado da ditadura burocrático estalinista do Tito não lembra ao diabo.

    A sua visão facciosa pode resumir-se na sua frase: “O passaporte Jugoslavo era o mais cobiçado do mundo” …
    Era para ser uma piada, certo ?

    • Autor convidado says:

      Aconselho a um estudo mais aprofundado sobre a Jugoslávia de Tito. Tito era profundamente anti-estalinista e recebido em todas as capitais do ocidente, desde Salazar a presidentes americanos. Estaline tentou matar duas vezes Tito e os seus agentes foram sempre apanhados. Recebeu então uma carta dizendo.”Se mais algum agente soviético for capturado em Belgrado enviarei um a Moscovo que não falhará.” O seu facciosismo anti-socialista leva-o a crer que tudo o que é vermelho é estalinista.

  2. eu avento says:

    ok, Tito não foi um ditador ininterrupto de 1945 a 1980, não foi membro da policia secreta soviética, os chineses deixaram de ser estalinistas quando consideraram o PC da URSS de traidor revisionista, o regime angolano é de esquerda marxista, igualmente “bem” recebido em todo o mundo.

    E quem disser o contrário é anti socialista.

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