A mobilidade social à distância de um balido

Congresso

Tenho pouca paciência para congressos partidários. São exercícios algo hipócritas, onde tudo aparenta ser maravilhosamente belo e convergente, apesar das facas em anexo. O líder tende a surgir perante as massas como uma espécie de Deus, os notáveis fazem fila para polir o seu calçado, os aspirantes voltam para casa com as línguas inchadas e as manifestações de discordância, quando há lugar a tal atrevimento, primam pela timidez e pela contenção politicamente correcta. Salvo raras excepções. No fundo, os congressos acabam por ser um pouco o espelho daquilo que temos na Assembleia da República: elegemos deputados para nos representarem mas os seus braços votam em função daquilo que o topo da pirâmide partidária decide. Como um rebanho que segue o seu pastor.

Como não dei grande importância ao congresso do PSD no início deste mês, do qual apenas retirei o reforço da aposta de Passos Coelho no sombrio Marco António Costa, a promoção da ex-ministra dos swaps e outros embustes e fim da retórica do golpismo, apesar da rejeição da democracia representativa continuar viva entre as hostes do PSD, só quando ontem li o excelente artigo de Elísio Estanque no Público é que me deparei com as declarações de Paulo Rangel, que defendeu, na sua intervenção durante o congresso, que o PSD deve ser o partido da mobilidade social.

Apesar de em total acordo com o diagnóstico apresentado pelo sociólogo da Universidade de Coimbra, e muito já se escreveu por aqui sobre o abandono da social-democracia por este PSD, que hoje se limita a usar a terminologia como mero instrumento de propaganda, discordo na conclusão. É que o PSD tem sido, efectivamente, um partido que tem promovido a mobilidade social. O que não significa que essa mobilidade social não esteja sujeita a determinados condicionalismos, é certo, mas ela existe. Surpreendido?

Olhemos, por exemplo, para a JSD, um dos melhores exemplos de mobilidade social deste país. Por uma simples inscrição, o pagamento de uma cota que poderá eventualmente ser paga por terceiros, o talento para abanar bandeiras e não questionar lideranças e uma aptidão natural para lamber botas e, hipoteticamente, outras coisas, o jota poderá ascender meteoricamente, independentemente da sua posição social no início do percurso. Pode ser um jovem recém-licenciado que é contratado com especialista para acompanhar o programa de “resgate” da Troika. Pode ser um jovem plagiador com dificuldade na utilização de vírgulas que chega a deputado. Pode ser um jovem chico-esperto com talento para gerir homens de mão que, apesar de se ver envolvido em inúmeros esquemas com cheiro a corrupção e tráfico de influências, escapa de todos e ainda tem a confiança do líder do partido, apesar de serem conhecidos os danos causados pela sua gestão, chegando a secretário de Estado e vice-presidente do partido. Pode até ser um jovem com matrículas universitárias suficientes para tirar uns três cursos, que mais não fez na vida do que ser jota e trabalhar em empresas de barões do seu partido, onde, em articulação com outros amigos jotas, conseguiu que outro amigo e antigo jota, na altura membro de um governo, lhe entregasse milhões para inutilidades, e que acaba por chegar a primeiro-ministro.

Ficam estes quatro exemplos que poderiam ser 400. Ou quatro mil. A mobilidade social existe, e o PSD tem sabido promove-la. É certo que nem todos se conseguem mover da mesma forma mas não menos verdade que qualquer um pode entregar a alma ao partido e transformar-se num soldado-ovelha obediente, sendo devidamente recompensado para o efeito. A mobilidade social está à distância de um balido. Mé!

Comments

  1. Querias... says:

    Se não vota o que o topo da pirâmide quer, lá se vai o lugarzinho de doputedo e as suas mordomias….

    Mas este povo não aprende…!!

  2. Rui Silva says:

    É assim que funciona a Democracia.
    Para chegar a Primeiro-Ministro ou Presidente da Republica não é necessário ter curso ( que o diga o Nóvoa) .
    Pode até não saber fazer nada, basta que os concidadãos votem no individuo.

    Rui Silva

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