Voyeurs


©Rear Window

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Talvez tenham lido a história na imprensa portuguesa, há duas ou três semanas, do dono de um motel nos EUA que espiou os clientes durante quase 30 anos. A história surgiu na revista New Yorker, contada pelo veterano repórter Gay Talese, com o título “The Voyeur’s Motel”, e merece ser lida com a atenção minuciosa, ainda que um pouco inquieta, de um voyeur.

Gerald Foos comprou um motel, na década de 1960, com a intenção de montar no edifício um sistema que lhe permitisse espiar os clientes nos quartos. Entre o primeiro andar e o telhado, mandou construir um piso que lhe permitisse caminhar sobre os quartos dos hóspedes, agachar-se no chão e espreitá-los através do que parecia apenas uma grelha de ventilação. Do seu dissimulado posto de vigia, assistiu a tudo o que se passava nos quartos: discussões, sexo, orgias, consumo de drogas, violência. Interessavam-no a nudez e, sobretudo, as práticas sexuais. Sexo conjugal, adúltero, heterossexual, homossexual, em grupo, com fetiches de todo o tipo. A sua intenção, garante, era científica: observar e registar por escrito o comportamento sexual de um conjunto tão variado quanto possível de seres humanos que, sem se saber observados, se comportariam de forma espontânea, ao contrário do que acontece com os voluntários dos estudos científicos. Reconhecia que era um voyeur, que obtinha satisfação sexual com a sua actividade, mas que não se sentia um tarado, antes um cientista, que prestava um serviço à humanidade com as suas observações e registos.

Apesar de alguns erros que poderiam tê-lo denunciado, conseguiu manter a actividade em segredo. Ninguém terá desconfiado, pelo menos não o suficiente para dar o alerta, os seus detalhados registos foram-se avolumando e, tal como acontece com alguns assassinos cujos crimes, de tão perfeitamente executados, nunca são descobertos, Foos sentiu necessidade de revelar o seu segredo e de obter o reconhecimento que entendia devido pelo trabalho de décadas. Era, contudo, mais prudente do que vaidoso e nunca perdeu a capacidade de avaliar as possíveis consequências dos seus actos. Em 1980, escreveu uma carta ao repórter Gay Talese, revelando-lhe o que fazia, mas mantendo o anonimato. Talese enviou-lhe o seu contacto telefónico e propôs um encontro. Assim foi.

Foos começou por entregar-lhe um documento no qual se comprometia a manter sigilo de tudo o que lhe fosse revelado. Talese aceitou assiná-lo e Foos contou tudo. A infância solitária, a obsessão pela sua jovem e atraente tia que se passeava nua, em casa, frente à janela sem cortinados, a adolescência, o casamento com uma mulher que não só conhecia o seu segredo, mas era sua cúmplice. Levou Talese ao seu esconderijo. Ajoelharam-se ambos sobre o quarto de dois hóspedes e observaram-nos numa cena de sexo oral. Talese, inexperiente, deixou que a gravata deslizasse pela grelha e quase foram descobertos. Mas os hóspedes não repararam e a cena não teve consequências. Foos mostrou a Talese os diários com registos detalhados dos hóspedes, das suas características, do que faziam nos quartos. Mais de uma década de registos. Talese foi-se embora, com uma óptima história que prometera não contar. E não contou.

Mas manteve o contacto com Foos e, nos anos seguintes, foi recebendo fotocópias de excertos dos diários. E foi assim que soube que um traficante de droga se havia hospedado, com a namorada, no hotel de Foos. Alguns dos clientes começaram a ir comprar droga directamente ao quarto de hotel, para indignação de Foos. A situação era insuportável, mas Foos não queria ter a polícia a inspeccionar-lhe a casa. Quando viu dois adolescentes entre os clientes ficou tão furioso que aproveitou um momento em que os hóspedes estavam fora e despejou a droga pela sanita. Quando o traficante deu pela sua falta, acusou a namorada, agrediu-a até deixá-la inanimada e fugiu sem deixar rasto. Foos assistiu a tudo do seu esconderijo, mas não interveio. Garantiu depois que teve o cuidado de reparar se a rapariga respirava e só saiu depois de confirmar que sim.

No dia seguinte, a funcionária da limpeza encontrou o corpo da rapariga. Foos deu à polícia toda a informação de que dispunha sobre o traficante, mas a identificação que ele havia apresentado era falsa. Obviamente, Foos nunca disse à polícia quem tinha agredido a rapariga. Mas contou tudo no diário e escolheu essa passagem, entre outras, para enviar a Talese. Haviam passado anos sobre o crime, mas a justiça continuava por fazer.

Talese contactou a polícia, apenas para saber que o caso tinha sido arquivado por falta de provas. O assassino escapara. Amarrado à promessa que fizera, Talese não contou nada. Deveria ter contado?

Passaram-se vários anos. Foos, um octogenário, já não tem o motel. Mas tem os diários e decidiu apresentá-los ao mundo, o seu legado, o fruto de décadas de observação, agachado, de joelhos, rosto encostado ao chão, em silêncio, sempre atormentado pelo receio de ser apanhado. Um Peeping Tom nunca reconhecido, tão cuidadoso, tão timorato, que esteve próximo mas nunca atingiu o pleno clímax de um voyeur: ser apanhado.

A história parece fundir dois filmes de Hitchcock. Há o motel propriedade de um homem perturbado (embora não tanto quanto Norman Bates) e um voyeur que observa as vidas alheias e acaba por presenciar um crime. Mas Foos não é um herói nem um psicopata. É um moralista e um hipócrita, que se insurge contra a falsidade que reina nas vidas de todos e, pasme-se, contra as autoridades que recolhem dados sobre os cidadãos sem que estes  suspeitem de tal coisa. Declara-se admirador de Edward Snowden e até vê semelhanças entre ambos. Afinal, ambos denunciam que as pessoas não são de fiar, que mostram uma máscara pública que em pouco se parece com o seu rosto privado. Foos, claro está, exclui-se dessa definição porque ele, o cientista, está acima de tais contradições.

Agora que o mundo conhece a história de Foos, será de esperar que sejam apresentadas múltiplas queixas contra ele. Talvez acabe os seus dias na cadeia, amargurado com a incompreensão dos seus semelhantes, convencido de que apenas no futuro se saberá reconhecer a importância dos seus estudos.

Talvez todos os motéis venham a ser inspeccionados, a partir de agora. Talvez as grelhas de ventilação comecem a merecer-nos mais atenção. O jornalista Gay Talese, um dos nomes lendários do Novo Jornalismo, já começou a ter problemas. Tem sido recriminado por não ter denunciado o voyeurismo de Foos nem o crime que ocorreu no motel. E também há quem lhe censure o facto de ter espreitado, juntamente com Foos, um dos casais.

Pensei muitas vezes em Hitchcock enquanto lia a história. Também ele era um voyeur, e não tinha dúvidas de que a maioria de nós também o era. Nove em cada dez pessoas, especulava ele na famosa entrevista feita por François Truffaut, quando confrontadas com a visão do vizinho ou vizinha que se despe frente à janela, não corre a cortina.

E apesar de tudo, talvez nem seja o voyeurismo que parece mais perturbador nos dias que correm. Talvez o pior seja o entusiasmo com que vamos mostrando mais e mais a vagos conhecidos e a absolutos estranhos, como se precisássemos constantemente do olhar externo para nos assegurarmos de alguma coisa.

Entre as observações de Foos, há algumas passagens interessantes, sobretudo algumas considerações sobre relações de casal e a necessidade de manter uma imagem pública de felicidade e harmonia que nada tem a ver com a solidão e o desespero privados. À medida que observa, Foos vai ganhando uma consciência quase trágica da condição humana, vai deixando de acreditar nas relações humanas e na sinceridade das pessoas. Envenena-se, a cada dia, com a sua curiosidade mórbida.

Sabe-se que Gay Talese vai lançar um livro sobre a história de Foos e os seus registos. Seremos, os seus futuros leitores, também voyeurs através dos olhos de Foos?

Mas, afinal, leitor – “mon semblable, mon frère!” – não seremos todos um pouco voyeurs?

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / aportaestreita.com

Comments

  1. Penso que só não somos voyeurs, quando, em certos períodos felizes da nossa vida, estamos muito ocupados a viver totalmente a nossa vida…nessas alturas passamos nós a ser objecto de voyeurismo.

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