Carta do Canadá: Respeitinho é bonito


Charles Angelil

Charles Angelil, a dicursar no funeral do pai

Para compreenderem melhor o que vos vou contar, digo-vos que a cantora Celine Dion é para o Canadá o que Amália Rodrigues é para Portugal: um ícone.  O que se compreende porque, desde muito nova a bela voz de Celine prendeu este povo, que passou a seguir atentamente o crescer da menina que é conhecida em todos os continentes. Viu-a casar com o seu empresário, René, viu nascer-lhe os filhos, acompanhou-a na longa e tremenda luta do marido contra o cancro.

Quando René morreu e se soube que a cantora desejava sepultá-lo no Quebeque, a província que a viu nascer, o governo dessa província imediatamente a informou que oferecia um funeral de estado. Convenhamos que foi um exagero, porque não se tratava do funeral da artista mas do seu empresário e marido, ambos impecáveis, é certo, mas sem estatuto para cerimónias de estado. Os governos às vezes são assim desgovernados.  Seja como for, a cantora aceitou sensibilizada e ficou a saber que agência funerária tinha sido escolhida.

O funeral, que saiu da Catedral de Notre Dame, em Montreal, depois duma missa soleníssima, foi verdadeiramente de estadão. Imponente.

Dias depois, o governo do Quebeque recebeu da funerária uma conta de novecentos mil dólares, coisa que por pouco não chegou ao milhão. O governo deitou as mãos à cabeça e teve mesmo de explicar a Celine que nunca pagava mais de setenta mil dólares por um funeral de estado. Portanto, ela tinha de pagar a diferença.

Chama-se a isto respeito pelo povo que paga impostos. Nada justificava que a população em geral tivesse de pagar o funeral que a viúva encomendou e não aquele que o governo local ofereceu.  O Canadá é um país frugal, modesto. Às vezes há uns que resolvem não ser frugais, mas arriscam e a Real Polícia Montada trata do assunto até à barra do tribunal.

Eu não quero nem imaginar o bicho mau em que se transformaria este povo pachola se fosse obrigado a pagar milhões para segurar bancos mal administrados e empresas participadas pelo estado que fossem pasto de incompetência e corrupção. Ia tudo raso. O Canadá é um dos países mais ricos do mundo, mas não toleraria abusos desses.

Porque é um abuso obrigar o povo a pagar o que outros roubam, enquanto que ele vê cortados os seus rendimentos por governos de musseque.  Só mesmo mentalidades de sanzala angolana para imporem condições destas.

Comments

  1. manuel.m says:

    O que me admira é que esse povo que tanto admira, esse povo tão prenhe de qualidades, tenha como Chefe de Estado a muito Soberana Raínha Isabel II. É que nestas Ilhas acontece amiúde o que relata : O povo paga submisso os desmandos dos poderosos, tal como em Portugal. Bem sei que isto é a velha Europa, carcomida que está por séculos de vicios. Mas o Canadá, senhor, porque não corta tão pecaminoso cordão umbilical ?

    • Oh! Manuel,
      Qual é o problema? Qual é a diferença em ter um presidente eleito por um partido? Por acaso esta personagem irá defender os interesses de todos os eleitores? Será tão catastrófico pertencer a uma comunidade de países? Por acaso até parecem ser países ricos, por acaso não mendigam aos financiadores.

      • Nightwish says:

        Também nenhum deles tem uma moeda única idiota e, tirando os efeitos city no Reino Unido, não apostam, embora há quem o faça, na desigualdade como maneira de aumentar as estatísticas..

  2. José Salgado says:

    Achei de péssimo mau gosto e xenofobia inacreditável no séc.XXI, as referências a “sanzala Angolana” e “governos de Musseque”por parte de um cidadão dum pais pluriracial e multicultural ,que deveria ter a tolerância para tratar com decência e respeito as outras civilizações; penso que tem muito que aprender em termos de educação e civismo..

    • Parece-me que o que está em causa é racionalidade dum país que se sabe governar e não “a tolerância para tratar com decência e respeito as outras civilizações”. O que autor quis evidenciar são os governos que sabem governar e os que praticam a desbunda, que é o que há mais por aí. Basta olhares para Portugal. Deixemos-nos de sensibilidades bacocas.

      • Ricardo Santos Pinto says:

        A racionalidade de um país «que se sabe governar»?
        Como, pagando um funeral de Estado ao marido de uma cantora?

  3. Em Portugal uma personalidade pública da área da cultura que depois do desmando do governo (neste caso provincial) visse ser-lhe apresentada uma conta, com certeza que moveria toda a elite cultural para ser o Estado a pagar e teria muitos políticos aliados a defenderem a causa… diferenças entre a minha Pátria natal, o Canada, e a minha Pátria de origem familiar e de residência: Portugal.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Em Portugal, uma personalidade pública da área da cultura não veria o seu cônjuge a ser sepultado num funeral de Estado pago pelo Estado.

      • Não quis ver o que eu quis dizer, mas isso, porque isso até se deduzia do post, pelo que não precisava de informar, mas eu até o percebo a fuga.

  4. António Aires says:

    Não entendi, O governo ofereceu-se para pagar e organizar o funeral, por certo com olho na boa figura, e depois bem cobrar???? Mau! ofereceu-se ou não? organizou ou não? ou não quis saber e deixou andar. Se sim tem de arcar com as contas, os cidadãos exigirem responsabilidade aos governantes.

  5. Ana Moreno says:

    Desculpe-me a autora, mas não foi pedido previamente um orçamento à funerária??? Para despesas dessa ordem teriam aliás que ser pedidas três propostas de orçamento a diferentes funerárias. A ser como descreve, isso revela é uma enorme falta de controle financeiro por parte do governo local. Nem acredito que isso possa acontecer dessa forma, há um mínimo de normas de controle orçamental!

    • Fernando Cerdo says:

      Concordo. A narrativa apresentada cheira-me a história mal contada. Qualquer evento desta natureza requer um concurso entre os vários potenciais prestadores de serviços, aprovação orçamental prévia, etc.

  6. fleitao says:

    Vamos tentar esclarecer:
    1 – Quem for de Angola ou conhecer bem Angola, sabe que governo de musseque quer dizer governo de calcinhas ou de chicos espertos que, pelo facto de o serem, se sentem superiors aos outros, mesmo os da sua própria raça, permtindo-se roubá-los, viver da sua exploração. Logo, a mentalidade de sanzala deriva do predomínio destes calcinhas, como é o caso do governo de Angola e do anterior de Portugal;
    2 – Se o governo do Quebeque só paga um máximo de 70 mil dólares por funerais de estado. é lógico que todas as funerárias locais o sabem. Não são precisos 2 ou 3 orçamentos, seria uma burocracia inútil que só serviria para manter mais empregados inúteis. Aqui não há jobs for the boys and the girls. Não se inventam empregos para penduras partidários, o trabalho arranja-se por habilitações e competência;
    3 – Um funeral de estado pode ser mal atribuído, como foi o caso, mas não serve para “botar figura”. Isso é ridículo;
    4 – Desde o momento que ficou assente, não passou pela cabeça de ninguém que a família desse ordens directas á funerária;
    5 – Também não passaria pela cabeça de ninguém mobilizar a comunidade cultural, porque não era a artista que ia a sepultar e porque esta é arquimilionária;
    6 – A chefia do estado do Canada foi escolhida por referendo, livre e massivamente participado, quando o país pediu a independência. Não se gasta um balúrdio a sustentar um palácio presidencial e não se corre o risco de, em cada 5 anos, nos aparecer um Bush ou um Trump. Temos uma represnetação de estado digna, bem educada e com prestígio. A escolha pode merecer críticas, que não nos incomodam, mas não é susceptível de conselhos ou palpites por parte de estrangeiros. O Canada é um país soberano.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Se a Fernanda dá palpites sobre Angola e sobre outros países e tipos de regimes, tem de aceitar também que se faça o mesmo sobre o Canadá.
      Num aspecto tem razão. No Canadá, não se corre o risco de levar com alguém como Bush ou Trump durante 5 ou 10 anos, mas corre-se o risco de levar com alguém como Isabel II durante toda uma vida. Olhe, como diria o falecido Cavaco, é esperar que morra.

    • Nightwish says:

      Desculpe lá, o primeiro-ministro anterior ERA uma espécie de Bush.
      E o Trudeau também prometeu muito, mas afinal até vai assinar o TTIP.

      • Fernando Cerdo says:

        O Stephen Harper era bem pior que o George W. Bush porque pelo menos o Bush, independentemente da nossa opinião quanto à sua política, tinha a realidade concreta da supremacia militar e economica mundial dos EUA por detras dos seus actos enquanto que o Harper fazia uma autêntica figura de urso internacionalmente com as suas posturas de “homem-forte” e as suas ameaças ocas e ridículas contra a Rússia, o Irão, a Palestina, etc. Aliás, pensa-se que o Harper, e o seu Ministro de Negócios Estrangeiros estavam a ser chantageados pelo poderosíssimo lobby israelita do Canadá, lobby fortemente ligado ao crime organizado na zona de Toronto e à fortuna da família Bronfman de Montreal, com videos de actos homosexuais e demais perversões potencialmente demolidores para a carreira dum político de direita de convicção protestante-evangélica.

    • Fernando Cerdo says:

      A instituição da Monarquia Britânica nunca foi referendada no Canadá. O Canadá seguiu um processo gradual de aquisição de soberania e independentização da Grã-Bretanha por etapas. Do ponto de vista de Chefia de Estado ainda não é um país 100% independente, tal como a Austrália, Nova Zelândia, etc.

  7. Ana Moreno says:

    Acho pouco convincente esse seu ponto 2., se “é lógico que todas as funerárias locais o sabem, porque a funerária não avisou a tempo e horas de não ultrapassar o valor e depois enviou essa conta tão superior??? Além disso deve simplesmente haver regras de controlo e aqui obviamente algo correu mal, ou não???
    Mas se tudo é tão 100% aí, podia talvez explicar-me porque o governo do Canadá está a querer tanto o CETA, sendo, simultaneamente, o país que mais processos de ISDS já sofreu…será masoquismo ou interesses maiores se levantam?

  8. fleitao says:

    Sou de Angola, Ricardo.

  9. fleitao says:

    Talvez, Ana Moreno, esta aversão à burocracia, este excesso de confiança, seja o mesmo que faz com que nem cartões de segurança social, nem cartas de condução, etc., tenham tido fotografias até há pouco tempo. É provinciano? É. O país não tem glamour, limita-se a ter decência.

    • Ana Moreno says:

      fleitao, é bonito o seu carinho pelo Canadá e acredito sinceramente que tenha montes de razões para isso; conheço bem essa gratidão por vivenciar que as coisas podem funcionar bem e simplesmente. E partilho a indignação quando isso não acontece, por exemplo, quando, segundo juram alguns a pés juntos, em Portugal é preciso pagar para se conseguir serviços administrativos…
      Mas não existe a perfeição e, mesmo dando todo o valor ao bom, perder o sentido crítico é que não é nada bom.
      Só um exemplo: “na costa Este, a província da Terra-Nova-e-Lavrador tinha outrora um plano de desenvolvimento económico impondo às sociedades petrolíferas a obrigação de contribuir para a investigação sobre o petróleo. Os tribunais de arbitragem determinaram que esta obrigação era um obstáculo ao lucro, e o Canadá foi obrigado a pagar 17,3 milhões de dólares.” Há mais disto… https://www.nao-ao-ttip.pt/o-canada-carta-do-canada-a-uniao-europeia/
      Quando diz “Eu não quero nem imaginar o bicho mau em que se transformaria este povo pachola se fosse obrigado a pagar milhões”… é que pagaram mesmo, só que se calhar nem se aperceberam….
      saudações!

  10. Fernando Cerdo says:

    Quanto a este artigo o seu conteudo faz-me lembrar os discursos ridículos assentes na suposição duma “superioridade moral” dos críticos anglo-saxónicos da presença portuguesa em África ao longo do século 20. A atitude de “superioridade moral” hipócrita dos imperialistas da esfera Britânica na maior parte das vezes debitada incoscientemente.

  11. fleitao says:

    É verdade, Ana Moreno, que tenho carinho e gratidão pelo Canada. Não estou sózinha neste sentir que o é, também, da esmagadora maioria da comunidade portuguesa que aqui encontrou o respeito e a paz que desejava e merece. Os muitos anos que já levo neste país autorizam-me a afirmar que apenas uma minoria, com cerdas ou sem cerdas, teve o topete de pedir a cidadania, de jurar fidelidade à Raínha, para depois, na sombra e no anonimato, dizer mal da soberana, da Monarquia Britânica, do país de tudo. São alçapões de alma que só Freud saberá explicar.
    Eu nunca escrevi ou afirmei que o Canada é um país perfeito. Tem defeitos, tem falhas, como todos, Mas é um país decente porque também é decência acreditar na decência dos outros, mesmo que se venha a enganar. Os exemplos que aponta ficamos a devê-los ao governo conservador de Harper. Não sendo embora pior do que Bush, na medida em que não arrastou o país para guerras e jogos internacionais perigosos, Harper deixou uma pesada herança ao actual governo de Trudeau. Aassumiu compromissos que não podem agora ser desfeitos duma hora para a outra, assim como António Costa tem estado a braços com as vilanias e incompetências do governo de Passos. A Ana Moreno, que é superdotada e competente, sabe bem que, em política, estas coisas sucedem mais do que se pensa.
    Limitei-me a relatar um incidente, que começou com uma má decisão do governo do Quebeque, e terminou por uma prova de respeito pelos contribuintes.. Um exemplo a seguir. Uma história simplória que, não sei porquê, gerou uma onda preconceituosa contra o sistema de governo do país. Eu não sinto o menor constrangimento em ter jurado fidelidade à Raínha de Inglaterra porque não esqueço que, durante a 2ª Guerra Mundial, aquela família não virou as costas ao seu povo, ficou ao lado ddele com bombardeamentos e tudo o mais.. Tem sido uma boa raíniha e penso que compará-la com Cavaco é desastrado. Cavaco é tudo o que Isabel II não é: pouco inteligente, sem educação, vingativo, com amigos mais do que suspeitos, sem visão de estado nem postura de estado E que gastou balúrdios no Palácio de Belem. Os canadianos têm estado livres de tudo isto.
    O Canada continua a ser um país modesto, sem glamour, frugal, que ajuda tudo e todos. Não tem o brilho dos países europeus, mas não escorraça refugiados. Só sírios, este ano, já entraram 10 mil e vão chegar muitos mais. E é bom não esquecer, na 1ª e na 2ª Guerra Mundial, sem interesses bastardos nem moedas de troca, foi ajudar a acabar com uma daquelas loucuras que a Europa às vezes tem, e ali deixou milhares de rapazes sepultados. Um país assim, penso, merece apreço.

    • Fernando Cerdo says:

      Interessante seria também relembrar a notória simpatia pelos países do Eixo ou “Pacto Anti-Comintern” por parte da esmagadora maioria dos monárquicos portugueses durante a 2ª Guerra Mundial, herdeiros de ideários derivados da Action Française que se realizaram em termos práticos no regime de Vichy. Quanto às referências “ad hominem”, no fim do dia podemos concluir que ninguém é melhor que ninguém sobretudo aqueles que investem tempo e energia em proclamar a sua suposta santidade ou superioridade. Eis a grande tragédia do reinado de Stephen Harper quando esta atitude se alinhou com alguns dos interesses mais abjectos da política internacional. Basta pesquizar o video da Youtube “Canada’s Ruined Reputation” (/watch?v=oZhfWv6Sds4) para ver as razões que levaram o Canada a falhar na sua candidatura ao lugar no Conselho de Segurança da ONU a Portugal em 2010.

    • Ana Moreno says:

      Cara fleitao, não sou nem preciso ser superdotada para saber que “há compromissos que não podem agora ser desfeitos duma hora para a outra”. Só não aceito nem acredito que o Canadá não esteja ainda a tempo de parar o CETA, que é o que nós, os cidadãos europeus, andamos aqui a tentar conseguir com toda a energia cidadã que temos. Mas é preciso vontade política.
      Quanto ao que sente pelo Canadá, é com toda a sinceridade que digo que é bonito e considero uma riqueza podermos ter sentimentos desses para com o nosso país, desde que mantenhamos o sentido crítico (aproveito já para dizer que eu não tenho país, mas tenho experiências que me permitem entendê-la muito bem).
      Saudações e cá fico a fazer figas CONTRA o CETA!

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