Este é o meu mundo


Um dia depois de, mais uma vez, um grupo de animais ter tirado a vida a seres humanos em Istambul, pode parecer fútil elogiar adeptos de futebol. Talvez seja. Na verdade, nada apaga o facto de haver vidas ceifadas, vidas de pessoas que tinham direito, até, a ser infelizes, mas que não terão sequer a possibilidade de ser felizes, por causa da crença de alguns, justificada ou não pelo livro que lêem ou que lhes leram. É nestes momentos que desejo que haja vida para além da morte, porque quem morre por estupidez alheia merece recompensa eterna; quando penso nos assassinos, espero que o Inferno se confirme e lhes seja infinitamente insuportável.

Adoro livros, como adoro futebol, mas não lhes confio a minha vida. Sobretudo, não infernizo a vida dos outros, por adorar livros e futebol. Ainda não encontrei nenhum livro que me desse vontade matar outro ser humano. No que respeita ao futebol, confesso que há em mim um terrorista benigno que espera ser perdoado pelos amigos que, de vez em quando, se irritam com piadas clubísticas que são, por serem clubísticas, de mau gosto.

Como amante do futebol, meses como este, com Euro de um lado e Copa América do outro, seriam puro deleite, se não houvesse compromissos profissionais.

Entre os adeptos, contudo, há demasiados casos de estupidez e de violência, o que é redundante, já que a segunda implicará sempre a primeira. Em França, russos e ingleses distinguiram-se na arte de ser australopiteco.

Há uns anos, na fase de apuramento para o Campeonato da Europa de 1996, a selecção irlandesa perdeu no Estádio da Luz e foi obrigada a ir ao Play off com a Holanda, salvo erro. Alguns adeptos foram entrevistados no aeroporto e estavam sorridentes, deixando parabéns aos portugueses e antecipando a derrota da Holanda. Pensei, imediatamente, que aquele era o meu mundo.

Até há pouco tempo, os irlandeses andaram por França, a torcer pela sua equipa, a cantar, a comemorar, a alegrar os sítios por onde passavam, conciliando ruído e respeito, divertindo a própria polícia francesa, sussurrando uma canção de embalar no interior de um eléctrico, porque estava uma bebé ao colo de um pai. A humanidade é possível, portanto.

Se o mundo tivesse adeptos irlandeses no lugar de idiotas intoxicados por qualquer religião, estaríamos bem melhor. Em vez de animais que se fazem explodir, as pessoas, nos aeroportos, correriam, no máximo, o risco de ouvir “Stand up for the boys in green”. Com atentados desses, pode o mundo. Pode o mundo ser melhor.

Comments

  1. Danielle Dinis Foucaut says:

    Avó francesa residente em Portugal com netas portuguesas, torço pela França e pelo Portugal. Se chegarem os dois á final, corto-me em dois… e não sei para quem torcer… então quero ver um jogo lindo e cheio de golos dos dois lados… parabens ao autor do texto lá por cima.

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