Quando Deus é o mercado e a inspiração é o dinheiro


Santana Castilho

Carl Levin Milton, advogado e ex-senador pelo Michigan, foi curto e grosso sobre o Goldman Sachs, quando o identificou como “um ninho financeiro de cobras, repleto de ganância, conflitos de interesses e delitos”. O Libération foi fino quando opinou que Durão Barroso fez um simples manguito à Europa.
Eu parafraseio ambos para acrescentar que tudo converge. Se há talento que Durão Barroso sempre teve foi para aproveitar as oportunidades e fazer manguitos à ética e à moral. Foi assim quando desertou do Governo; foi assim quando cooperou com o crime do Iraque; é assim, agora, quando regressa aonde sempre esteve, isto é, para junto dos que promovem fortunas obscenas e calcam os mais fracos. A sua ignóbil conduta faz-me pensar nos valores que a educação instila nos jovens.
A educação é pautada pela doutrina da sociedade de consumo. Os alunos são orientados para os desejos que a orgia da publicidade fomenta. Paulatinamente, muitos professores foram-se transformando em peões de um sistema sem humanidade. Paulatinamente, aceitaram desincentivar os seus alunos de questionar e discutir causas e razões.
Teoricamente livres, usamos a nossa liberdade para permitirmos que nos condicionem. Tudo é mercadoria, educação inclusa. Preferimos estar sujeitos a mecanismos de controlo social a criar mecanismos de oposição ao sistema e de desenvolvimento de outro tipo de desejos: o desejo de visitar a vida, de cooperar com os outros.
Os sistemas de educação deixam as nossas crianças sem tempo para serem crianças. Porque lhes definimos rotinas e obrigações segundo um modelo de adestramento que ignora funções vitais de crescimento. O ritmo de vida das crianças é brutalmente acelerado segundo o figurino errado de vida que a sociedade utilitarista projecta para elas. Queremos que elas cresçam depressa. A pressa marca tudo e produz ansiedade em todos. Não lhes damos tempo para errar e aprender com os erros, quando o erro e a reflexão sobre ele é essencial para o desenvolvimento dos jovens. É a ditadura duma sociedade eminentemente competitiva e utilitária, mas pobre porque esqueceu a necessidade de formar os seus, também, pelas artes, pela estética e pela música.
Muitos dizem que temos a geração mais preparada de sempre. Mas será que temos? Ou será que temos, tão-só, uma geração com uma relação elevada entre o número dos seus elementos e os graus académicos que obtiveram? E preparada para quê? Para responder ao “mercado” ou para responder às pessoas? É que há uma diferença grande entre qualificar e certificar, preparar e diplomar.
Quantos pais e quantos políticos se preocuparão hoje com o desconhecimento dos jovens acerca de disciplinas essenciais para a compreensão da natureza humana? Refiro-me, entre outras, à filosofia, à literatura, à história, à antropologia, à religião, à arte. Obliterados que estão todos com a economia e as finanças, enviesada que é a sua forma de definir a qualidade de vida das sociedades, sempre medida pelo crescimento do PIB mas nunca pela forma como ele é dividido, dão um contributo fortíssimo para apagar a visão personalista da educação e promover a visão utilitarista e imediatista, que acaba comprometendo a própria democracia. Porque troca o pensamento questionante pela aceitação obediente, de que os mercados carecem. Este minguar do conceito de educação vem transformando a sua natureza pluridimensional numa via única, autoritária, geradora do homem mercantil e do jovem tecnológico, de exigências curtas. E não se conclua daqui que desvalorizo o progresso tecnológico, mas tão-só que rejeito o enfoque único nessa via, para que tendemos mais e mais, como referência dominante da decisão política. Provavelmente porque é bem mais fácil manipular o tecnólogo que o artista, o tecnocrata que o livre-pensador.
A universidade é talvez o mais evidente espelho do que afirmo. Tem a sua natureza cada vez mais corrompida por conceitos de mercado, que vão condicionando o conhecimento gerado pelos seus investigadores. Com efeito, os programas de financiamento da investigação estão marcados pela natureza dos resultados previstos. Hoje procura-se mais a utilidade do conhecimento. Antes partia-se para a procura da verdade, mesmo que essa verdade não tivesse utilização mercantil ou não gerasse lucro imediato. O professor universitário, como intelectual puro, passou de moda. Antes, a missão dos universitários era pensar. Agora é produzir.
A valorização da cultura universal cedeu passo a múltiplos nichos de cultura utilitarista. Houve, por parte dos interesses económicos e empresariais como que uma expropriação do trabalho académico de outros tempos. A utilização da inteligência está canalizada, preferencialmente, para a inovação que interessa às empresas e que elas vão, depois, utilizar, tendo lucros. A universidade, que oferecia conhecimento, vai virando universidade que oferece serviços. A pressão para que os docentes produzam e sejam avaliados por rankings é o reflexo desta nova filosofia, onde Deus é o mercado e a religião é o dinheiro.
* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

Comments

  1. democracia says:

    bravo, professor.

  2. Thief says:

    Excelente texto, andamos com as nossas prioridades trocadas hoje o que mais importa é o dinheiro, por isso vamos por tudo a trabalhar para isso, desde a educação à religião ninguém escapa ao deus mercado. Seremos cada vez mais uma sociedade vazia e futil, medida em cifrões.

  3. joão lopes says:

    o durão foi “educado” para ficar com o dinheiro todo do mundo na sua conta pessoal.é apenas isto que o homem quer.isto e ter poder,muito poder-este é o lema de parte da geração mais bem preparada de sempre.

  4. Tópico que mereceria estudo e que Santana Castilho aflora: até que ponto os professores despertos para a realidade que descreve, e concordantes com a sua análise, consentem, na sua própria prática pedagógica, transmitir esta visão do mundo aos alunos ou, pelo contrário, abdicam de o fazer, por prurido de “isenção” e de “profissionalismo”?

  5. anónimo says:

    No meu tempo, a Grécia era o referencial da cultura e civilização europeia. Era a origem do Estado e da Democracia.
    Nas escolas ensinava-se a mitologia grega, nomeadamente a tragédia do Rei Midas. O ouro e a riqueza eram devidamente avaliados no contexto dos valores vitais para a humanidade.
    Hoje em dia a Alemanha apresenta a Grécia como o paradigma dos países endividados, corruptos e desleixados.

    Para a finança, a história do Rei Midas é uma ofensa ao Deus Dinheiro. Portanto, a história grega foi omitida da educação das crianças e da cultura europeia. Tal como o povo grego foi vilipendiado e espezinhado, como se fosse um inimigo da Europa.
    Hoje, é-nos imposto o ouro de Nibelungo, para consumirmos e adorarmos.
    Hoje, assistimos à vitória do Rei Merdas, alemão. Tudo o que toca fica irrevogavelmente corrompido.
    Hoje, voltamos 70 anos atrás quando a Alemanha arrasava a Europa.

  6. Agostinho Miguel says:

    Obrigado Senhor Professor…

  7. Joam Roiz says:

    Senhor Professor, muito obrigado por continuar a remar contra a corrente.

  8. Maria José Santos says:

    Ao contrário do que se possa pensar, são as minorias que fazem e podem fazer a diferença, mesmo que seja contra a maré… Obrigada!

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