Conhecer o outro lado, numa reportagem sobre os condutores da Uber em LA 


As empresas da “economia da partilha” como a Uber transferem o risco do negócio das empresas para os trabalhadores, destroem os direitos do trabalho e afundam os salários.

Num artigo traduzido por Ricardo Moreira têm voz diversos condutores da Uber. Relatam as condições de trabalho num ambiente onde a empresa decide unilateralmente o custo das viagens, para impedir a concorrência, reduzindo drasticamente a margem de lucro do condutor. A este sobra-lhe fazer mais horas e mais quilómetros para pagar o investimento no carro, numa opção sem escolha que leva, também, ao desgaste mais rápido desse carro e da saúde do condutor.

Nem tudo são rosas neste modelo de negócio onde os trabalhadores são designados por “motoristas-parceiros”. A empresa pode a qualquer momento despedir o trabalhador (desactivá-lo, na gíria da Uber), o que acontece se este tiver uma avaliação inferior a 4.7 em 5. Por isso, os trabalhadores sorrirem e dizem bem da empresa aos clientes, em vez de serem honestos quando lhes perguntam como é trabalhar para a Uber.


Os trabalhadores da Uber, que são na verdade quem investe e detém a infraestrutura de transporte da empresa, não têm voz na empresa. Suportam o risco do negócio e não têm horário de trabalho. São eles que adquirem o próprio carro, seguros e formação. Se o carro avaria, cabe-lhes a eles o custo da reparação e de ficarem sem trabalho. O seu plano de negócio pode ir por água a baixo a qualquer momento, bastando que a empresa corte nas tarifas. A empresa tem risco quase nulo e, ainda assim, fica com 20% da facturação do motorista.

É uma realidade a ter em conta quando se fale desta “economia de partilha”. Hoje são os taxistas, mas o conceito é expansível a muitas profissões. Saúde, limpezas, jornalismo, alugueres, etc. Não é preciso uma imaginação pródiga para olhar para um sector de serviços e ver como o transformar num modelo uberizado. Quem hoje apoia a Uber, amanhã poderá estar a sentir na pele as mesmas maleitas dos taxistas. A sociedade está em permanente evolução, mas devemos olhar para a mudança com sentido crítico, procurando perceber se o mundo que construímos a cada momento é o lugar onde queremos amanhã viver. Evolução e regulamentação não podem ser conceitos antagónicos.

Comments

  1. isto da uber é tão importante que até o henrique raposo conseguiu escrever um texto respeitável. vá, só com uma frase alucinada lá no meio.

  2. Luís Lavoura says:

    A empresa pode a qualquer momento despedir o trabalhador

    Em compensação, também pode (julgo eu) a qualquer momento contratá-lo. A vantagem da Uber é que qualquer pessoa que tenha um carro pode a qualquer momento começar a trabalhar para ela. Ou seja, as pessoas podem fazer-se contratar pela Uber a qualquer momento.
    Penso que esta vantagem de se poder ser contratado compensa em parte a desvantagem de se poder ser despedido…

    • Carlos Furtado says:

      são os novos recibos verdes, um sonho não é uma maravilha para quem vive do seu trabalho

    • antero seguro says:

      Não haja dúvida que existe a sempre a vantagem de ser contratado só que pelos vistos o futuro de ser rapidamente descartado é bem maior. Neste modelo de negócio dá para perceber que a UBER nada arrisca, limita-se a viver à custa do investimento do trabalhador que investe no carro, suporta as avarias e ainda tem direito a 20% da receita. Isto é tão só o verdadeiro empreendedorismo.

  3. Ana A. says:

    Penso que as empresas de recrutamento de trabalhadores são isso mesmo: a “uberização” do trabalho. Ainda há bem pouco tempo, se falava dos enfermeiros recrutados por essas empresas a quem pagavam a 3€/hora. E, se o futuro passar por aí, como muita gente parece defender, aconselho já a uma grande contenção da natalidade, pois o mundo vai ser cada vez mais um lugar pouco recomendável!

    • Rui Silva says:

      Evidentemente que a relação Uber/Parceiro não é mais que uma parceria. O taxista vê na Uber o parceiro que lhe “arranja” o cliente. O taxista é “uma empresa” constituída por mão de obra e equipamento que fornece um serviço.
      A Uber não trouxe apenas um aumento de qualidade de serviço e preço mais baixo. Trouxe também a liberdade de se exercer uma profissão que de outro modo lhe estava vedada pelo fortíssimo lobby dos taxistas .
      Nada impede um aspirante a taxista de mudar para outra empresa concorrente da Uber, ou até adquirir uma App própria para gerir o seu trabalho.
      À medida que a legislação vai criando mais compromissos das empresas com os seus funcionários maior a tendência para a EMPRESA UNIPESSOAL. Chegar-se-á ao ponto em que ter um funcionário representa um compromisso muito maior que um filho, ou um casamento. E aí um grande numero de pessoas se quem quiser trabalho terá que o criar.
      Também gostaria de dizer que se tenta dar uma imagem da Uber como uma empresa “predadora”, que ganha milhões, como convém, mas a referida empresa ainda não deu um dólar de lucro aos seus investidores.

      cps

      Rui Silva

      • Carlos Rodrigues says:

        Sr Rui não conhece a verdade a profissão de taxista não é nenhum loby nem está vedada é livre para quem quiser trabalhar só precisa de ir tirar o CAP que obrigatório por lei que foi o governo que nos obriga para pudermos ser transportadores de passageiros ligeiros, lucros para investidores??diga me qual o património da Uber uma App,e os táxis já têm APP,s á muito tempo tudo o que se faz com a uber faz se nos táxis.

    • Rui Silva says:

      Cara Ana A.
      este comentário não lhe era especialmente dirido. Foi lapso aqui no “teclado”.
      Mas aproveitando e este sim pode ser um comentário ao seu comentário :

      O problema que aborda é o resultado dum monopsónio, que por aqui tanto se defende…

  4. Derli says:

    Amanhã alguém vai encontrar uma forma de ti explorar, o governo deveria usar a mesma forma de contratar e demitir da uber, o salário dos funcionários públicos seria reduzidos e nos poderíamos avaliar e aquele que não atingirem 4.7, seria demitido kkkkkkk. Quando vc for votar pense na pontuação mínima do seu candidato.

  5. Jose Martins says:

    A situação pode, no futuro, tornar-se bem pior do que o acima descrito. Por isso, é oportuno deixar aqui um comentário que já escrevi num blogue concorrente. É que, muito em breve, os motoristas da Uber vão sair para a rua, como hoje fazem os taxistas, para protestar porque foram substituídos por carros autónomos sem motorista. Isto não é ficção, é já uma realidade em alguns países. Os actuais motoristas estão só a ser usados pela Uber para se instalarem no mercado. Depois descartam-se como Kleenex usados!
    E o mesmo vai acontecer com os “parceiros” da AirBnB quando estes tiverem pronta a sua rede de casas modulares próprias. De facto, ninguém vai conseguir parar o progresso! Ou vai?

  6. Marco Hott says:

    Nossos governantes e autenticidades estão deixando essa empresa ir muito longe…
    O estrago que ela vai deixar será irrecuperável por nós trabalhadores legalizados.
    Com certeza o dia que ela for obrigada a pagar impostos que está sonegando ela vai dar um adeus e ir embora com uma fortuna que nunca vai revelar….

  7. Mas que pieguice de artigo visando os condutores da Über.
    Primeiro, este tipo de trabalho é decidido livremente pelo condutor, ele torna-se empresário de si mesmo, define o seu próprio horário. Como tal deve ponderar os prós e os contras, a isto chama-se livre iniciativa.
    Quanto ao controlo de qualidade, se os taxistas tivessem sujeitos à mesma regra, não estariam hoje em apuros como é ultimamente demonstrado.

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