Portugal, Soares e os outros


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Não é o momento para fazer julgamentos. Tivemos e usamos décadas para o fazer, continuaremos a fazê-lo dentro de alguns dias, mas a quantidade de ódio que se tem visto por aí, num país onde um tirano foi eleito, por esmagadora maioria, como o grande português da nossa história, soa-me algo bizarro. Temos sido salteados por diferentes actores políticos ao longo dos anos, incessantemente, e poucas são as personagens que granjeiam tamanha aversão, a ponto de haver quem celebre a sua morte em paragens supostamente democratas e honradas. Não obstante, devemos-lhe muito. Não acho que Mário Soares seja o maior, como tenho lido por aí, mas será, não tenho dúvidas, um deles.

Ao longo de séculos, Portugal conheceu diferentes dirigentes. Reis, espanhóis, mais reis, uma primeira experiência republicana de curta duração, um ditador e meio, uma microexperiência comunista, uns quantos governantes provisórios ou a prazo e Mário Soares. Dai para a frente tem sido um fartote: Francisco Pinto Balsemão, o tal que certa história (e, por motivos óbvios, a imprensa) insiste em não referir quando o tema é o resgate de 83, Cavaco, Guterres (recentemente canonizado), Durão e meio, Sócrates, Passos Coelho e a actual e imprevisível Geringonça, que a meu ver ainda não entra nas contas, pela sua curta duração. Eu sei que a escolha não é grande coisa, mas nenhum deu tanto à democracia. A este respeito, sugiro que sigam o conselho do insuspeito Fernando Moreira de Sá e que leiam a crónica do ainda mais insuspeito Miguel Esteves Cardoso.

Mas o legado de Soares não se resume nem começa com a democracia, que ajudou a fundar. Soares não sucedeu hierarquicamente nem chegou ao poder pela via do autoritarismo ou do carreirismo do abanamento de bandeira. Esteve ao lado de Humberto Delgado e de Álvaro Cunhal durante a ditadura. Conviveu com os grandes pensadores e obreiros da oposição antifascista. Foi preso, deportado e exilado, sem nunca deixar de cessar a sua actividade política e revolucionária. Foi um resistente e um motor contra a ditadura. Não existe sequer termo de comparação para o equiparar aos outros, os seus sucessores, que, importa referir, só o foram porque homens como Soares lutaram para que tal fosse possível. E já pouco sobra da safra que deu ao país políticos como Soares, Cunhal ou Sá Carneiro. Está tudo entregue a jotas.

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Desceu em Santa Apolónia quatro dias após a revolução. Abraçou, combateu e derrotou Álvaro Cunhal. Há quem defenda, mesmo nos sectores mais à direita, que terá sido fundamental para evitar uma ditadura de esquerda. Nunca o saberemos. Chegou ao poder pela via democrática e teve a complicada missão de colocar um ponto final na colonização, apesar dos erros num processo que chegou com 15 a 20 anos de atraso, devido ao orgulho solitário do canalha fascista. Abriu-nos a porta da CEE, antes dos oligarcas de Bruxelas e da ditadura dos mercados, e, como qualquer estadista que teve que tomar grandes decisões, cometeu erros. Pergunto-me: quem tivemos melhor que ele? O Balsemão, que três semanas após entregar a pasta a Soares, assistiu da redacção do Expresso à intervenção de 83 do FMI? O Cavaco que se afirmava “integrado” no antigo regime? O Guterres que fugiu do pântano? O Durão da invasão do Iraque, que rescindiu com Portugal para ir jogar para Bruxelas? O Santana que não aqueceu o lugar? Os fabulosos Sócrates e Passos Coelho? Diga-me lá, caro leitor, sem ódios sectários ou dramas ideológicos: terá algum destes concorrentes feito mais por Portugal?

Já nasci em liberdade e não me importo de repetir que também a devo a ele, apesar de nunca ter sequer simpatizado com Mário Soares. Ao contrário de outros, tenho motivos pessoais, não dogmáticos, para o odiar com substância, o que não me impede de reconhecer a importância do seu papel na história do meu país. Não acho que lhe deva mais do que devo a Salgueiro Maia, Humberto Delgado, Álvaro Cunhal, Sá Carneiro, Ramalho Eanes ou a tantos revolucionários anónimos que lutaram pela liberdade e contra a opressão, que ao contrário de Soares perderam a vida ao invés de rumar a um confortável exílio, mas é também por causa das lutas de Soares que podemos hoje falar da sua ligação à CIA e a Kissinger, dos diamantes e da Emaudio, do financiamento da sua fundação e dos erros da descolonização. Que lhe podemos dedicar ensaios sobre a sua lucidez. Que podemos, aqui no Aventar, disponibilizar o polémico livro do Rui Mateus para que qualquer português o possa ler, e não falta quem o faça, sem que um PIDE nos faça uma visita e nos enfie no Aljube, em Caxias ou no Tarrafal. Os outros, os que vieram depois dele, não fizeram mais nem melhor. Pelo contrário. A esses devo zero.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Caro João Mendes.
    Ainda há pouco escrevi no mesmo Aventar sobre Mário Soares algumas ideias que, no fundo, tentarei transcrever para este comentário.
    Eu não nasci em Liberdade. Quando nasci, vivi os dias do fascismo e tinha 25 anos quando o 25 de Abril se deu.
    Convivi com muitos democratas que não foram exilados, mas perderam o seu emprego, foram presos e torturados às mãos da PIDE. Meu irmão, militar, foi cobardemente assassinado por ser considerado e cito “Um elemento perigoso”. Morreu completamente abandonado nos confins de África. Convivi com José Afonso, um homem também perseguido pelas suas ideias e com muitos outros, alguns dos quais, felizmente ainda por cá andam e se admiram – tal como eu – do eudeusamento que os papagaios do Sistema e as galinhas chocas da comunicação dita social, fazem de Soares. Claramente lhes convém e terão, eles sim, de estar gratos a Soares.
    Sobre Mário Soares e o seu legado, penso que algo de muito mais positivo e independente será dito, quando a situação serenar.
    Para já, fala o coração dos portugueses e os tradicionais “opinion makers” que colam qualquer falecido no patamar de deuses e bem ao lado do sistema que eles tentam perpetuar (e vão conseguindo).

    Para mim, Soares teve o valor que teve.
    Foi importante no aspecto da consolidação da democracia, mas não foi o político fundamental (no sentido de único) cuja imagem se pretende, agora, passar.
    Soares não deixa de ser um político (à partida esta actividade profissional já me merece todo o desconforto e suspeição pelas tristes experiências que vamos tendo) que no exílio viveu em gaiolas douradas gritando pela liberdade de um povo oprimido, em contraponto com os muitos Portugueses contestatários do Sistema e que foram presos, torturados e conheceram a morte às mãos da PIDE, quando lutavam pelos mesmos princípios.
    Esses, passaram completamente à parte da luta pela Liberdade e hoje são quase tratados ao nível de párias da democracia.
    Portanto, o legado de Soares na clandestinidade – coisa de que tanto se fala e escreve – deverá ser olhado do modo que tem que ser olhado: respeitado pelos portugueses, sem dúvida, não esquecendo contudo que a posição de Soares sempre foi protegido pela política vigente na altura. Dito de outra forma, até na luta pela Liberdade, há os portugueses de primeira e de segunda, independentemente das vozes de julgamento sejam o fascismo ou a actual democracia.
    E por isso chamar a Soares o “pai da liberdade e da democracia” é quase obsceno. Devem-lhe muito os portugueses, é um facto, pois foi um lutador pelo conceito de liberdade, mas nunca foi o pai dessa mesma Democracia e Liberdade.
    Colar a liberdade e a democracia a uma figura política que foi revolucionariamente passando entre as águas da chuva sem se molhar, é maltratar todos aqueles que deram a vida pela mesma Liberdade e Democracia.

    E no barco de Soares, meto Sá Carneiro e Ramalho Eanes.
    Foi este trio que, ao combater o que insistentemente foi propalado como o perigo da “comunização de Portugal” (ainda hoje não sei se justificadamente ou não), abriram as portas aos vindouros, permitindo a “reconversão” e a quase “santificação” de um antigo ministro de Salazar (e para mais do Ultramar) e pasme-se, permitindo que um afilhado de Marcelo Caetano e seguidor de Salazar, possa ser hoje um militante socialista.
    Fantástico…
    Isto para além daquelas figuras negras fascizantes como o são Cavaco ou Portas, associados ao chavão da social democracia que era, de facto, a política de Soares..
    Estamos perante um claro conviver em “democracia sem vergonha e sem coluna vertebral”.
    Declaro que não advogo a ostracização daquelas “pérolas” de políticos “democratas”, mas advogo colocá-los no seu devido lugar, lembrando-lhe as responsabilidades que se branqueiam, exactamente como se endeusam quem os protegeu.

    O seu post lembra coisas que muita gente tudo faz para “esquecer” ou mesmo, branquear no momento do elogio fúnebre.
    Mas não deixa de ser o lado negro que todo o humano tem e que deve ser lembrado, ta como o bem que produziram.
    Esta opinião formulei-a, vezes sem conta, era Soares vivo. Nada mudo só porque morreu.
    Cumprimentos.

  2. Paulo Só says:

    No capítulo das ignomínias deste evento da morte de Mário Soares registre-se a presença em Lisboa de dois destacados golpistas brasileiros, Michel Temer e Gilmar Mendes, responsáveis maiores do atentado contra a democracia brasileira que foi a vexaminosa destituição da Presidente Dilma Rousseff. Ao tentarem branquear as suas tristes figuras, num enterro que é também uma celebração da democracia, expõem o Brasil à chacota universal. Infelizmente não há no Itamaraty sucateado, mais uma voz que tenha autoridade para evitar esses desaires.

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