Não, não há vergonha na cara


Francois Fillon, former French prime minister, member of The Republicans political party and 2017 presidential candidate of the French centre-right, attends a political rally as he campaigns in Charleville-Mezieres, France, February 2, 2017. REUTERS/Christian Hartmann

Admitir um erro destes não o apaga, assusta. Assusta porque um dia a coisa banaliza-se e forrobodó instala-se definitivamente. E parece que já faltou mais.

– Pá, eu sei que dei uns tachos a minha mulher e aos meus filhos, tachitos bons, tachitos que eram para uma coisa e serviram para outra, tudo isto à conta do contribuinte, mas estou muito arrependido e gostaria de agradecer a vossa compreensão tornando-me no vosso próximo presidente. Mas não se preocupem que a minha credibilidade não está em causa. Foi tudo legal e transparente. Tão transparente como me apresento hoje aqui perante vós, cidadãs e cidadãos (colocar nacionalidade), colocando a nu todos os meus podres.

Desculpas destas não se pedem, evitam-se. 

E desculpa, Bruno, mas isto não é muito melhor do que a cara de pau com que alguns distribuem tachos e assobiam para o lado. Dar empregos à mulher e aos filhos, ainda por cima, no caso dos filhos, pagos pelo Estado para fazer biscates para o papá, é um acto deliberado que devia ser exemplarmente punido. E foi preciso ser apanhado para vir a público fazer o seu acto de contrição. Durante quantos anos durou esta situação, sem que a “personificação do político rigoroso e sério que os novos tempos pareciam ter posto de parte“, como lhe chamou André Abrantes Amaral no Insurgente, desse um pio sobre o assunto?

Da Trofa a Lisboa, de Paris a Washington, nunca é nada com eles. Tudo legal e (mais ou menos) transparente. As nódoas éticas que o virtuoso candidato da direita francesa apresenta no seu currículo ilustram bem o estado PPE, por onde andam senhores tão respeitáveis como Durão Barroso ou Viktor Orbán. Le Pen chama-lhe um figo mas o amigo (e financiador?) Trump também lá enfiou o genro. Que de resto deve ser de maior utilidade que o POTUS.

O político tuga nega sempre, cala-se, acobarda-se e rasteja na sua própria gosma de compadrio crónico. É nojento. Mas enveredar pelo exacto mesmo tipo de comportamento e manter-se quieto e calado até que a iminência de uma eleição, cuja principal opositora é uma populista apostada no discurso mais demagogo e fanático de que há memória, o obriga a fazer o teatro do arrependimento fingido vale muito pouco. Precisamos de gente rigorosa e séria, não de chicos-espertos dissimulados e oportunistas. Por enquanto, com as excepções do norte da Europa, continua a não haver vergonha na cara. E nós, em França como em Portugal, continuamos fáceis. Muito fáceis.

Comments

  1. Bruno Santos says:

    É claro que tens razão, João.

  2. Pedro says:

    ok, então segue-se, como consequência lógica, que, para não nos assustarmos, os políticos não devem admitir os seus erros…

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Não Pedro.
      Os políticos NÃO PODEM COMETER ESTES ERROS, o que é muito diferente.

  3. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Tem toda a razão João Mendes.
    Estes seres rastejantes da política, pretendem apagar com um pedido de desculpas toda a ilegalidade que cometem.
    É claramente passar um atestado de menoridade a quem o pode elege.
    O tráfico de influências é uma figura punível como crime, mas nunca é julgado. E estes corruptos sabem-no, arquitectando um hipócrita “desculpem” para prosseguir na sua teia de influências. Temos cá desta gentalha, aos molhos e, uma vez mais, a dita justiça se cala e o responsável pelo bom funcionamento das instituições democráticas, continua a assobiar para o lado, a tirar selfies e a dançar com alunos…
    Fillon, é o que a França tem. Por cá… tudo bem.

  4. Este caso tem um mérito desde já, ao que parece os franceses começam a aperceber-se desta prática que pelos vistos é legal e comum em França. Da esquerda à direita, no governo ou oposição a coisa é mais ou menos transversal. Não deveria, mas é. A questão da ilegalidade não se coloca na nomeação de familiares, mas no facto de existirem suspeitas que receberam salário sem trabalhar. Isso sim e apenas isso é que está sob investigação. Ou receber salário pago pelo Estado e trabalhar no Partido, existe a suspeita de terem trabalhado na campanha de Sarkozy, o que configura financiamento ilegal da campanha por um lado e corrupção por outro…
    O problema de base é outro. Quando Donald Trump quis nomear o genro, não faltou na Europa quem rasgasse vestes, mas nos EUA é muito claro que um titular de cargo não pode nomear um familiar. EM França é um regabofe. E valha-nos que aqui a F.N. não está livre da prática, em França é mesmo caso para dizer que é tudo farinha do mesmo saco…
    E em Portugal como será?…

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Respondo-lhe em francês: “Vous avez la question … vous avez la réponse” 🙂

  5. Helder P. says:

    Traduzindo bem o que Fillon disse é que lamenta profundamente ter sido apanhado, não lamenta tê-lo feito.
    Também temos cá artistas assim.
    Neste momento apenas Macron pode salvar a França e o continente da cavalgada da extrema-direita. É um candidato “nem carne nem peixe” do qual estou longe ideologicamente, mas é o que temos para uma 2a volta.

  6. Rui Naldinho says:

    O problema destes casos na política europeia e norte americana, é que eles começam a ser recorrentes, e minam de tal maneira a confiança das pessoas mais racionais e moderadas nos políticos, acabando muitas delas por se abster de ir às urnas, ou, pior ainda, também vão votar em Le Pen, como quem quer dar uma pedrada no charco.
    Em tempos afirmei que há um eleitorado na esquerda e direita que vota de forma canina. Não lhes interessa rigorosamente nada o percurso de vida do seu candidato, seja no plano ético, social e político, porque “cegos de paixão”, só vêm aquilo. Uma espécie de síndrome do aficionado, muito comum nas touradas e no futebol.
    Mas há outro eleitorado. O flutuante. Sem posição ideológica definida. Aquele que em termos práticos faz mudar governos e presidentes.
    Com as crises sociais e económicas sem fim à vista, este discurso redentor da salvação dos desafortunados do regime, da Le Pen, Trump, tende a crescer em irá, revanchismo e revolta, e o número de aficionados tende a aumentar, muito por causa destas situações pouco claras, e se uma parte dos indecisos vai na onda, nada nos diz que não saia outra “Trump(a)”!

    • Rui Naldinho says:

      …tende a crescer em ira, revanchismo e revolta…

      Desculpem-me os erros, mas isto de escrever textos em telemóveis e tablet’s, é como andar a correr sem sapatilhas…

  7. Eu mesma says:

    Cada vez mais a política me mete nojo. E não admira nada que a (des) União Europeia esteja no estado em que está, com tantos e tão bons exemplos espalhados como uma peste. Pouco percebo destas coisas mas a revolta mesmo assim persiste. Na Roménia fizeram manifestações valentes nos últimos dias. Em França quanto a este “senhor” fazem o quê? E em Espanha quando é que veremos uma manifestação a exigir a cabeça do infame Rajoy? Já nem falo de Portugal…

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