O escritor apressado que baniu um Prémio Nobel da Literatura


Rui Naldinho

Presidenciais: Cavaco, o genial feiticeiro

Escrever livros é coisa normal em políticos, mesmo “amadores”. Depois de abandonarem os cargos para os quais foram eleitos, após um período de nojo, alguns escrevem as suas memórias biográficas. Outros escrevem ensaios sobre o seu pensamento político e filosófico. Mas em ambos os casos há uma vida para contar, um conjunto de experiências ao serviço da comunidade para transmitir aos mais novos, um estudo para debater e criticar, algo que possamos considerar uma marca cultural do exercício do poder.

O que não é normal em democracia, é vermos um ex-presidente com um passado político no mínimo duvidoso, a escrever um livro que mais parece uma vingança pessoal ou um ajuste de contas com um ex-primeiro-ministro.

Este ex-presidente é o mesmo que não se coibiu de banir um escritor português, não propondo deliberadamente a obra ” Evangelho segundo Jesus Cristo”, a uma candidatura a Premio Literário Europeu, apenas por questões ideológicas, tendo em conta que ele era a pessoa mais importante à época no governo. A História encarregou-se de escrever direito por linhas tortas, e José Saramago acabou por receber o Prémio Nobel da Academia Sueca, mesmo contra a vontade de Cavaco.

Portugal teve cinco Presidentes da República eleitos no regime democrático, dos quais quatro deles já cumpriram todos os mandatos possíveis.

Quase todos eles escreveram obras ligadas ao exercício do cargo presidencial. Com exceção de Cavaco Silva, nenhum dos outros deu demasiada importância aos conflitos institucionais, muito menos fazendo revelações sobre assuntos abordados em reuniões com os chefes do executivo com o qual trabalharam. Cavaco foi o único presidente que, de uma forma apressada, escreveu um livro revelando conversas privadas entre si e José Sócrates no exercício de funções institucionais, num tom ressabiado e cheio de insinuações de duvidosa credibilidade.

Escreveu “Quinta Feira e Outros Dias”, após estar mais de vinte e dois anos na política ativa, exercendo cargos de poder. Ou seja, mandando. Para além de ter sido Ministro das Finanças durante dois anos, esteve dez anos em cada uma das mais altas funções do Estado. A Chefia do Executivo e a Presidência da República. Para quem se considera um político não profissional, é obra! É como aquele artista amador que depois de tantos anos seguidos a representar, a Academia se sente obrigada a conferi-lhe a carteira profissional, pela larga experiência nas artes cénicas.

Será que Cavaco quer reescrever a sua própria História política, atirando as culpas dos seus erros e das suas contradições para cima de terceiros? Talvez!

Cavaco Silva deixou a Presidência da República há cerca de um ano, completamente descredibilizado na opinião pública, fruto de vários episódios por si protagonizados durante a sua magistratura, cujo “ponto alto” foram os vários Orçamentos de Estado aprovados e executados pelo anterior governo, da sua área política, todos eles recheados de inconstitucionalidades, aos quais fez vista grossa. Como mais alto magistrado da nação devia ser o primeiro a garantir o cumprimento da Constituição da República, mas inibiu-se de o fazer com os governos do PSD. Foi parcial nas suas decisões políticas, tendo dois pesos e duas medidas em função dos partidos que sustentavam o governo. Acabou o seu mandato de forma desastrosa, chantageando os partidos políticos à esquerda, com ameaças veladas, em especial ao PS, cujo epílogo foi a comunicação ao país feita nas vésperas da eleição do Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, ainda antes do chumbo do Governo de Passos Coelho.

No plano ético, Cavaco nem sequer teve a noção do ridículo quando, optando por receber cumulativamente as reformas a que tinha direito, em vez do vencimento de Presidente da República, se veio queixar dos cortes na sua pensão. Quando se sentiu beliscado nos seus interesses, precisamente por esse facto, aí sim, insurgiu-se contra o governo, aparentemente por também estar a ser “vitima da austeridade”, borrando ainda mais a pintura, já de si estragada, perante um país a agoniar em dificuldades.

Abandonou o Poder com a mais baixa taxa de popularidade de que há memória no exercício do cargo de Presidente da República. Pior do que isto na vida de um chefe de estado, deve ser difícil!

Então, perguntar-se-á:

Qual a razão para Cavaco Silva se querer expurgar, agora, das inúmeras fragilidades de comportamento que foi corporizando no exercício dos cargos que ocupou, se é dele a frase: “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”?

O que leva Cavaco Silva a escrever um livro, divulgando conversas em privado entre si e os seus interlocutores políticos, onze meses depois de abandonar o cargo de mais alto magistrado da nação?

Será que o seu único intuito é defender-se perante a opinião pública da enorme impopularidade granjeada durante o seu último mandato?

Não podemos olhar para este livro, pensando que ele é apenas uma revanche contra José Sócrates e o PS. Não duvido que isso esteja latente no livro, mas Sócrates e o Partido Socialista, aqui, são apenas os bodes expiatórios, perante aquilo que foi a desastrosa Presidência de Cavaco Silva. E ele sabe isso mesmo.

Para mim, parece-me óbvio que o anterior Presidente está revoltado com a maioria dos Portugueses, por achar que estes não o mereceram. Porque foram injustos com ele. Mas não se fica por aí. Também está zangado com a História e o retrato que ela faz de si, tanto no plano ético como no político. Mas só se pode queixar dele próprio e de mais ninguém. Esta foi a fotografia que ele ajudou a construir através dos tempos com as suas acções, inacções, omissões e,  acima de tudo, as certezas do nada.

Apesar de se ter rodeado durante vários anos de um naipe de ministros e secretários de estado, que, saídos da atividade política, se tornaram os maiores trafulhas dos últimos vinte anos, Cavaco acha-se imaculado. Não percebe as razões para a ocorrência desses factos. Mas fez aplicações financeiras nas instituições por eles lideradas. Ganhou dinheiro de forma pouco clara à conta deles. Disso ele nunca falará, nem revelará qualquer pormenor.

Apesar de se ter envolvido como Presidente da República numa intriga palaciana de escutas telefónicas, arrastando com isso o seu assessor para a comunicação social, a culpa foi sempre dos outros.

Cavaco é assim mesmo. Alguém sem dilemas. Alguém que se acha inatacável. Desprovido de pecado. Porque não necessitando de nascer duas vezes como a maioria de nós, merece ser aclamado.

Desenganem-se os que pensam que isto ficará por aqui. Enquanto ele não alcançar esse desiderato, continuará a escrever, umas vezes num auto elogio bafiento, outras destilando os seus azedumes contra os adversários.

Resta saber se nós estamos dispostos a aturar o senhor, mais um minuto que seja!

Comments

  1. Ferpin says:

    Aqui anda confusão.
    O cavaco recusou propor o evangelho do saramago para representar Portugal num premio europeu de literatura qualquer.
    O nobel felizmente não depende de propostas de autores por snalfabrutos como o cavaco.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Choca-me a sua afirmação
    “…Um passado político no mínimo duvidoso…”
    E choca-me acima de tudo, o termo “mínimo”, aplicado isso sim a um personagem menor.
    Refere o que fez a um Prémio Nobel Português. Verdade.
    Mas não refere o que ele fez a um personagem como Salgueiro Maia
    Tão pouco as condecorações aos Pides que ele concedeu.
    E ainda, as condecorações a gestores fraudulentos.
    E que dizer da protecção a essas figuras tenebrosas de banqueiros que nos deixaram a pedir?
    E depois de tudo isto refere um passado no mínimo duvidoso?
    Meu caro Rui Naldinho: embora aprecie imenso os seus escritos, tolhe-me a sua contemporização com um personagem rude, vingativo, rancoroso, pouco frontal, cobarde e ignorante.
    Dá mesmo vontade de procurar num dicionários todos os termos pejorativos, pois todos lhe assentarim bem.
    Não pode haver meios termos relativamente a um personagem que, com as suas politicas, hipotecou Portugal no mínimo, para os próximos 50 anos.
    Distribuiu benesses pelos amigos, fez declarações que deveriam ser configuradas como um crime (caso do BES) e ainda por cima, tem tempo para vir gozar com o mundo, dizendo que é mais honesto que qualquer pessoa que só tenha nascido uma vez.
    Esse homem, não passa de um delator igual a qualquer Pide e por isso, os protegeu.
    Pessoa sem nível e sem qualquer postura de Estado, excepto o silêncio e a cara de pau, pois nem falar sabe. Fica-lhe bem fazer os “discurso das vaquinhas” para os muitos “vacões” que ele apadrinhou.
    É extraordinário – e esse deveria ser um caso de estudo – como um personagem nulo como este, tem quatro maiorias absolutas. Isto diz bem do estado mental da maioria dos portugueses. Deixemos de falar neste abutres inúteis e falemos em quem os elege.
    Cumprimentos.

    • Rui Naldinho says:

      Caro Ernesto.
      Eu até concordo 100% consigo. Mas se eu fosse escrever isso tudo, não me chegavam as páginas do Aventar.
      Eu apenas quis analisar um facto. E esse facto é para mim claro. Cavaco vai continuar a escrever livros, tentando limpar a sua imagem, queimando outros. Ele sabe que este povo, que já lhe deu várias maiorias absolutas, hoje despreza-o!

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Tem toda a razão
        .Mas olhe que Cavaco mostra desprezar hoje aqueles com quem convivia ontem (excepto os seus amigos e corruptos banqueiros). Tal como Cavaco, a maioria do povo não me merece qualquer credibilidade. Foi um gosto. Cumprimemtos

      • Limpar a imagem? Não há lixívia que lhe valha…

  3. Casimiro Curado says:

    Tornou-se por demais nauseabundo continuar a falar dum famigerado Silva, que muito contribuiu para pôr Portugal na cauda da Europa. O que fez este cavalheiro com os milhoes do fundo europeu ? Que fizeram os seus governos ? Auto-estradas, destruiçao das pescas portuguesas, dos texteis e da agricultura.
    Permitiu enriquecimentos ilícitos aos seus apaniguados, deu muitas vezes o dito por nao dito, induziu os portugueses em erro
    declarando publicamente que o BES tinha uma excelente almofada financeira quando este já se encontrava na falência, beneficiou o genro com as suas abominais jogadas e foi cúmplice da falência do BPN porque perfeitamente ao corrente do que por lá se passava, seguramente informado pelo Sr Dias Loureiro, Conselheiro de Estado nomeado por si.Quantos escândalos houve durante as suas governaçoes ? Porque nao demitiu Dias Loureiro quando este foi acusado pelos jornais de cumplicidade na falência do dito Banco. Um Presidente da República, o homem mais bem informado do País, ter a coragem de dizer que nada sabia acerca do BPN para justificar a sua boa fé no levantamento dos seus depósitos e os da filha ? Que foi informador da PIDE segundo artigos publicados na internet ? Que escreve apressadamente um livro revelando conversas privadas entre si e José Sócrates ? E porque se nao opôs a este aquando da nacionalizaçao do BNP, Banco onde prosperaram as suas economias,transferindo para o povo, fazendo-o pagar ao Povo os grandes roubos que por lá se fizeram ? O que tem a dizer do Sr. Sócrates, quando este seguiu o exemplo dado pelos Ministros do PSD, seu partido político ? E porque é que o Povo nunca reagiu, ao ponto de lhe dar quatro maiorias absolutas ?
    Qual foi a sua reacçao face ao energúmeno deputado do PSD, CARLOS PEIXOTO de seu nome que,num artigo de opiniao, publicado a 10 de Janeiro de 2013 no Jornal I, escrevia que Portugal tinha sido * CONTAMINADO * PELA *PESTE GRISALHA * em referência ao aumento da populaçao idosa ? Teve coragem para pedir a demissao de tal deputado da Assembleia da República, como teria acontecido nos países civilizados ? Rasgue o livro e desapareça Sr. Silva.

  4. Depois dos MISERÁVEIS e revanchistas discursos das tomadas de posse, entre outras alarvidades, não existe como classificar este personagem minimo da portuguesinha não politica, a menos que, alegadamente ; MISERÁVEL!
    .

  5. Premiar um salafrário da PIDE e ignorar o único Nobel da Literatura define o carácter o Cavaco Silva um divisionista primário, um autêntico zero à esquerda. Um dos maiores oportunistas pós 25 de Abril tendo sido sempre um homem de mão daqueles que o montaram no cavalo que o levou ao congresso do PSD à Figueira da Foz.

  6. Paulo Só says:

    Cavaco é uma caricatura da direita: não assume o passado, nada a propõe no presente, despreza o futuro. E tenta transformar vendettas pessoais em causas públicas.

  7. Janela Carvalho says:

    Excelente texto que resume bem a figura de um político que contribui para nos tornarmos mais pobres como país e mais tristes como povo.
    Quanto ao livro só lê quem quer…tal como a revista da Cristina Ferreira 😊

  8. Rui Lima says:

    Bravo! Inteiramente de acordo.

  9. ZE LOPES says:

    Quando li na capa do livro “Quintas-feiras e outros dias” sempre pensei que se referia às quintas do Oliveira e Costa e a outros dias de lusos negócios. Mas parece que não.
    Depois ouvi o autor dizer que se tratava de uma prestação de contas. Pensei que vinha lá qualqer coisa sobre a astronómica valorização de umas ações das lusas negociatas. Parece que também não.

  10. cportuga says:

    Até acho que sei por que é que o Cavaco escreveu este livro, é que pelos vistos as reformas não lhe chegam para viver!

  11. Excelente comentário embora incompleto. O cavaco é a imagem da direita portuguesa, sem ideias nem memória.

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