Elegia a Stefan Zweig


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No final do Grand Budapest Hotel, o narrador diz a propósito do protagonista, Monsieur Gustave, o concierge do hotel: I think his world had vanished long before he ever entered it. But I will say, he certainly sustained the illusion with a marvelous grace.

Stefan Zweig, cujos livros inspiraram o filme de Wes Anderson, também sustentou diversas ilusões com uma extraordinária graciosidade. O filme de Maria Schrader Vor der Morgenröte ou em Francês, Adieu l’Europe, pretende mostrar isso. Vemos Zweig com uma educação e polidez de outra época, uma luzinha de civilização num mundo cada vez menos civilizado. O filme escolhe sublinhar este aspecto – a forma como Zweig se relacionava com os outros – em detrimento de uma reflexão mais profunda sobre o pathos que guiou os últimos anos da sua vida. Infelizmente, é precisamente por isso que o filme se torna uma banalidade.

Eu tinha expectativas, é verdade. Zweig era um escritor extraordinário. Era uma personalidade fascinante. Era um Europeu, no verdadeiro sentido da palavra. Um filme sobre Stefan Zweig devia ser, forçosamente, uma reflexão sobre a Europa. Devia ser uma reflexão sobre a civilização e a barbárie, sobre a legitimidade desses termos, sobre o que eles significam hoje em dia. O filme de Schrader tenta ser de tudo um pouco e acaba por ser nada. Dizer que o filme não tem qualidade seria injusto. Josef Hader e Barbara Sukowa (já brilhante há uns anos como Hannah Arendt) são excelentes nos respectivos papéis. A última cena, a cena do pós suicídio – o filme tem o bom gosto de não o mostrar – é extraordinária e vale pelo filme todo.

Mas é imperativo perguntar por que razão é que Zweig fala mais sobre o Brasil do que sobre a Europa? Como é possível que não se discuta a autobiografia que ele escreve e faz publicar no exílio, intitulada O Mundo de Ontem – traduzido magistralmente para português com o subtítulo Memórias de um Europeu? Zweig suicida-se pela Europa. Suicida-se por esse mundo de outrora, o mundo dele, tão dele e dos cafés vieneses que ele frequentava, o mundo que se estilhaçou nos campos de concentração. E no entanto as referências a essa vivência são escassas. O momento onde se fala mais abertamente sobre o passado do Zweig é quando ele se encontra com a ex-mulher – justamente um dos melhores diálogos de todo o filme.

O filme perdeu uma oportunidade extraordinária para fazer uma reflexão sobre a Europa em que vivemos e sobre o que é ser Europeu. O título francês e inglês esse Adieu l’Europe bem tenta fazer a ponte. Mas é um esforço vão pois a verdade é que o filme não é sobre isso. O título em alemão, Vor der Morgenröte, Antes da Madrugada – frase que se encontra no bilhete de suícidio de Zweig – indica apenas que Zweig não conseguia esperar mais pelo fim da guerra. Não conseguia esperar até ter uma Europa unida. Esta é uma das razões que ele oferece quando se despede. Mas é igualmente uma consequência do apreço que Zweig tinha por uma cultura e identidade específicas. Infelizmente, essa cultura e identidade não são exploradas. E o espectador que não conhece Zweig é forçado a perguntar-se por que razão é que, afinal de contas, ele se mata?

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