Os milagres e os vendilhões do santuário


Os milagres acontecem todos os dias. A criança que é salva por um bombeiro, o emprego que aquele pai desesperado consegue encontrar, o grupo de jovens que vai a lares visitar idosos, solitários, acamados e sem família, uma mãe solteira com três filhos e dois empregos, que consegue ter tempo assistir à peça de teatro na escola e não falha um jogo dos filhos ao Domingo, um voluntário que deixa tudo para ajudar refugiados num país distante. Todos os dias, sem dogmas ou literatura ficcional.

Respeito todas as religiões, o que é diferente de aceitar abusos, radicalismos ou interpretações fanáticas para fins de opressão ou violência. Ou seitas maradas, que fazem lavagens cerebrais e que, para todos os efeitos, contam como religião para muito boa gente. Tudo garbage and I’m only happy when it rains enough to wash all that shit away. E confesso a minha admiração pelo Papa Francisco, que sendo oriundo de uma espécie de monarquia, onde apenas uma percentagem muito restrita dos súbditos decide quem é o Chefe de Estado do Vaticano, tem sido uma lufada de ar fresco na Igreja Católica e no panorama político internacional. Mas os seus milagres são mais difíceis de compreender. Ou porque aconteceram num tempo em que não foi possível documentar de forma objectiva, ou porque apenas três crianças o conseguiram ver. É altamente provável que não tenham sequer acontecido, o que não invalida que haja que opte por acreditar neles, com toda a legitimidade que um indivíduo tem de acreditar naquilo que quiser, nos lugares onde essa opção está disponível.

A vinda de Francisco ao nosso país, para participar no centenário de um alegado milagre, permitiu ao governo em funções fazer uma jogada comum a todas as vindas de Papas a Portugal: dar um dia de tolerância de ponto. É eleitoralista? Claro que é. É a dádiva mais generosa dada por um governo em igual contexto? Não. Salazar, o austero hard-working guy, decretou feriado nacional. Segundo o Expresso, este é mesmo o governo menos generoso com a visita de um Papa a território nacional. E logo com o Papa mais fixe! Mas não admira: este é um governo controlado pelas forças sinistras da extrema-esquerda, só pode ter sido culpa deles, que aquilo é malta que não acredita em aparições em cima de azinheiras. So they say.

Mas a conversa da laicidade é sempre muito interessante. Somos todos muito laicos até ao dia em que um governo radicalmente laico decreta a extinção de todos os feriados religiosos. Havia de ser bonito. Costa deu um mimo aos seus funcionários, os públicos, em linha com o que fizeram todos os que o antecederam perante tal visita de Estado. Um mimo tardio, dada a taxa de ocupação hoteleira de uma extensa área em torno de Fátima, esgotada há vários meses. Quem lá quer ir, já o decidiu há muito tempo. Ou vai dormir no carro, ou numa tenda nas imediações do santuário, no caso de ainda haver espaço. Que para algumas coisas não há milagres.

No entanto, para lá do tema da laicidade, e de questões simples que poderiam ser colocadas, como se teria havido tanto chinfrim caso a tolerância de ponto fosse dada no Carnaval, a questão eleitoralista, que é óbvia e não suscita grande discussão, está longe de se resumir à decisão do governo. Falo nos autarcas e presidentes de junta, que, em ano de eleições, estão a oferecer excursões a Fátima, regra geral suportadas pela autarquia (leia-se: pelos nossos impostos) e não apenas para pessoas de poucas posses. Um trunfo valioso, num país de estruturas autárquicas conservadoras, onde a esmagadora maioria da população de alguma forma pratica ou se identifica com a religião católica. Um milagre eleitoral que poderá render bons votos, nesta era de memória curta.

Bem vistas as coisas, a visita do Papa e o centenário das alegadas aparições de Fátima são um excelente negócio para o governo, para boa parte do sector privado e para políticos-espertos, de Lisboa até à Trofa, que de alguma forma instrumentalizam a ocasião para a prossecução de objectivos exclusivamente políticos. E mantém a malta entretida, oportunidade de ouro para anúncios de medidas polémicas e prescrições de processos contra os impolutos do costume, que “roubam mas fazem” e que, Deus os tenha, tanto emprego deram à comunidade e tão generosas doações fizeram à paróquia. Não foi à toa que Cristo se tentou ver livre dos vendilhões. Lixou-os uma vez, não viveu para os lixar mais nenhuma. E não houve milagre que lhe valesse.

Foto: Tiziana Fabi/Reuters@Vanity Fair

Comments

  1. Konigvs says:

    “Nem me fale em Fátima que o meu avô esteve lá no dia do “milagre do sol”… Foi de propósito e não viu nada! Ainda na semana passada me convidaram a ir a Fátima a um colóquio do Centro Nacional de Cultura e eu contei isto. “Sou maçon e não acredito em Fátima.” Mas vamos proibir Fátima? Claro que não! A República inventou o busto da República e chamou-lhe “Marianne” e o que fizeram os católicos? Roubaram-na e, em 1917, inventaram a “marianolatria”, nascida em cima de um culto popular céltico. Só um parvo diria que não deveria haver culto de Fátima. É óptimo para o turismo, para a república e para o País. É excelente que António Costa receba Francisco!”

    (Adelino Maltez, em entrevista ao Jornal de Leiria)

    • Sábias palavras do maçon 🙂

    • Adelino Maltez é uma pessoa a quem admiro a inteligência e cultura, mas dizer que foi em 1917 que se inventou a marianolatria é um profundo disparate que assume proporções escandalosas quando dito por alguém que é monárquico e que devia saber que o nome do reino de Portugal foi frequentemente associado na Idade Média a Terra de Santa Maria, e que Afonso Henriques celebrou a conquista de Lisboa a 8 de dezembro de 1147. Adelino Maltez devia abster-se de afirmações disparatadas.
      Se acham que há falta de laicidade, retirem da constituição o ideal da igualdade entre os homens porque se trata de um legado cristão e não grego.

  2. Rui Naldinho says:

    Quando Marx disse em 1844, que as religiões eram o ópio do povo, não disse asneira nenhuma, vista com olhos da época, ainda que uma incomensurável comunidade de virgens ofendidas tivesse feito um coro de protesto enorme. Ele só não foi chamuscado em lume brando, porque vivia em Paris, se não me falha a memória. Caso vivesse na sua pátria Natal, na Alemanha prussiana, não sei o que lhe teria acontecido.
    Não há milagres, mas sim uma persistência endémica das populações em acreditar neste tipo ilusões, uma forma de alienação, que numa situação de dolorosa os alivia da dor e da angústia. Até aí, eu ainda compreendo. Quem sou eu para os criticar, mesmo não acreditando?
    Agora, repugna-me sim a forma como os políticos ousam aproveitar-se do fenómeno, numa atitude populista e demagoga, para tirar dividendos políticos. Na prática, eles recusam ignorar o fenómeno, porque acreditam no Poder político e psicológico da Igreja como instrumento de manipulação de massas, ainda que hoje esteja algo diminuído.
    Eu pergunto-me, se António Costa acredita mesmo que vai ter mais algum voto para si ou para o PS, por ter dado tolerância de ponto?
    Claro que ele não acredita. Mas como esta medida é como o “Melhoral”, nem faz bem, nem faz mal, nada melhor que colar-se ao evento para não ser acusado pela direita de intolerância religiosa.
    E como este Papa até é um “cara bacano”, que diz umas verdades, e passa melhor por defensor da social democracia do que alguns socialistas, bora lá colarmo-nos ao Francisco, o defensor dos oprimidos.

  3. João Mendes,

    Gostei do seu texto porque:
    1 – Situa bem o tempo e modo dos milagres, ou seja, eles acontecem no dia-a-dia, nomeadamente nas circunstâncias que apontou;
    – Essa perspectiva é a de Jesus Cristo (JC) e das igrejas Cristãs;
    – Critica bem algumas ideias e acções oportunistas à volta de Fátima que devem “ferir” mesmo algumas devotos “fervorosos”:
    – É verdade que JC se insurgiu contra os vendilhões do templo. Agora há também vendilhões de Fátima.
    Há sempre alguém disposto a descortinar uma forma de “mais valia” mesmo em algo que é espiritual e de crença.
    A política sempre precisou de fenómenos de massas e sempre se aproveitou deles.
    É a propósito de Fátima e de outros eventos onde se juntam multidões.
    Claro, parte da Igreja Católica está comprometida nisto.
    João, o “problema” não é JC. mas o Saulo, o judeu, militar romano tornado Paulo que deu às comunidades de crentes e de seguidores de JC uma estrutura organizativa próxima da que conhecia, a militar.
    Na tropa também não há eleições. Às vezes é um Aqui-del-Rei com as promoções. Quando a coisa não corre como lhes agrada fazem o seu “golpe”. Afinal têm as armas. A Fé é uma “arma”. Vender “terrenos” no Céu é um bom negócio.
    As pessoas parecem precisar disso. Por medo? Não sei…
    Declaração de Fé: sou Cristão e Católico.
    Mas não sou estúpido.

  4. Amilcar Dias says:

    Há vida para além da função pública.
    Nesse aspecto Salazar ter decretado feriado nacional foi muito mais justo do que dar a tolerância apenas ao seu eleitorado e pago pelos trabalhadores que vão trabalhar na véspera do 13 de maio.

    • Rui Naldinho says:

      É óbvio que se o governo decretasse feriado, o argumento seria outro, que não a juzteza Salazarista.
      Aí seria uma injustiça o governo querer interferir na economia real, decretando um feriado, num país cada vez mais descristianizado, a precisar de trabalho e não de peregrinações. Ainda que pró consumo, turismo e comércio, até nem seja assim tão mau.
      Para mim, a tolerância é má, porque é oportunista, eleitoralista, e se o Estado é laico, não tem que dar feriados ou tolerâncias de ponto por motivos de fé.
      E o Papa sendo uma pessoa respeitavel, mas não deixa de ser um líder religioso.

  5. anti pafioso. says:

    Não percebo porque tanta polémica sobre os governos em relação á igreja . Não são os governos com o dinheiro dos contribuintes que sustentam a igreja ? portanto acho bem que tiram proveito do negócio.

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