Um “ensino orientado para a vida”


É assim há muitos anos: entre alternâncias aparentes e reais continuidades, o Ministério da Educação é uma mina de veios já demasiado explorados. Ao longo dos anos, esquerda e direita (também sempre mais aparentes do que reais) limitam-se a povoar a Educação com os respectivos tiques, dificultando, de modo contumaz, a vida das escolas. Na realidade, o que lhes interessa é diminuir a massa salarial, desiderato alcançado por Sócrates e Passos Coelho, graças a alterações de carreira, modificações nos horários e congelamentos.

João Costa, secretário de Estado da Educação, debita, numa entrevista recente, lugares-comuns, disfarçando mal o complexo de superioridade de quem julga ter descoberto o fogo ou inventado a pólvora.

É evidente que não é possível nem desejável rebater a maior parte das afirmações de João Costa, exactamente por serem lugares-comuns. A maioria dos professores, por incrível que pareça aos iluminados de gabinete, já descobriu a importância das pedagogias alternativas, das novas tecnologias ou da realização de projectos (essa mesma maioria de professores tem-se confrontado, também, com crescentes bloqueios no que se refere a condições de trabalho).

Como muitos antes dele, João Costa também fala de uma autonomia que tem vindo, de modo consistente, a ser retirada aos professores e às escolas. A próxima machadada no que resta da pouca autonomia das escolas corresponderá à municipalização, processo cujo objectivo é aprofundar a desresponsabilização e a desorçamentação do Ministério da Educação. Num futuro demasiado próximo, as escolas ficarão entregues às centenas de pequenos caciques que mandam nas autarquias e que regem a sua actividade recorrendo à cunha e ao compadrio. Será lindo!

Mas isso são outras contas do mesmo rosário.

João Costa, como muitos antes dele e ao lado dele e de muitos quadrantes, defende que a escola deve preparar para a vida, o que nos pode levar, por graçola, a deduzir que a escola só tem preparado para a morte ou que a escola que João Costa frequentou não o terá preparado para a vida.

Preparar “para a vida” é preparar para o “mercado de trabalho”, porque a vida é trabalho (a escola, pelos vistos, não pode preparar para o ócio, que o mundo é só negócio). A propósito, e também na senda dos lugares-comuns, João Costa fala em várias “competências” (outro chavão) que devem ser cultivadas na escola e “que hoje são consideradas fundamentais e que são aquilo que as empresas procuram.” Ah, as sacrossantas empresas, as únicas entidades que servem de referência a todos os discursos sobre Educação ou sobre a sociedade, dando origem a um caminho único e culturalmente empobrecedor.

Flexibilização, competências, projectos, tecnologias não são palavras feias, mas já todos os professores as ouviram. Para que tudo isso exista verdadeiramente, por muitas voltas que se dêem, há outras palavras que não se ouvem: descongelamento, crédito horário e muitas outras. Sem isso, não há política, a não ser que a política seja só marketing.

Comments

  1. JgMenos says:

    Saberão os sacrificados professores a quanto monta o salário/hora médio de quem trabalha nas ‘sacrossantas empresas’ e que em final lhes pagam os ordenados?
    Quanto à autonomia lutem por ela em vez de se acoitarem em sindicatos que só vos arrebanham para sacar salários e promoções automáticas ao ritmo de agendas políticas.

    • António Fernando Nabais says:

      Ó menos, um dia havemos de fazer um jogo: o menos diz-me que quer comentar e eu escrevo por si. É tão previsível que seria fácil. Cumprimentos.

      • JgMenos says:

        Presunção sua com uma evidência associada: contrariar mantras enfadonhamente repetidos acaba se assemelhando a mantra.

        • António Fernando Nabais says:

          Acredito que a humanidade pode sempre melhorar: um dia, o menos será um homenzinho e assinará com o seu nome, para além de que será capaz de argumentar. Um dia, menos será mais. Vamos, menos.

    • ZE LOPES says:

      Menos…um comentário!

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