O regresso do cavaco-vivo


A universidade de Verão de Castelo de Vide está para o Ensino Superior como as notas do Monopólio estão para o dinheiro, o que quer dizer que as aulas que ali decorrem não são, portanto, aulas, concluindo-se, portanto, que os docentes não são professores e que os alunos, portanto, os alunos, dizia eu, não estão ali para aprender. Pronto, confesso: é um rodízio de comícios.

Cavaco Silva foi um dos “professores” convidados e, de modo coerente, confirmou aquilo que de pior tem em si, que é, afinal, o melhor que pode dar ao mundo. O político que fingiu, durante anos, não ser político deu mais uma lição de vacuidade, o que, afinal, faz sentido na universidade de Verão de Castelo de Vide.

Cavaco regozijou-se com a perda de pio do socialismo e criticou, mais uma vez, um alegado anti-europeísmo , o que confirma o primarismo clubístico que está no cerne na sua visão do mundo, feita de ódios e nunca de análises, por muito que ponha um ar professoral.

Interessa-me, apesar de tudo, realçar, no cavacal discurso, a oposição entre realidade e ideologia. Para Cavaco, a ideologia é uma coisa má, insensata, especialmente se socialista (fica-se, até, com a impressão de que a ideologia só existe à esquerda, porque a direita é tão virtuosa que só pode ser realista). A esquerda, intoxicada de ideologia, acaba, segundo Cavaco, por ser contrariada pela realidade e a realidade só pode ser governada à direita, levando a que o socialismo perca, assim, o pio.

No entanto, é a ideologia defendida por Cavaco que dá cabo da realidade, da realidade dos cidadãos, dos trabalhadores, dos desfavorecidos. No fundo, a ideologia de Cavaco resume-se de maneira muito simples: o mundo, os países ou o Estado existem para servir as multinacionais e os grandes grupos financeiros, o que deve levar a que, entre outros aspectos, os direitos laborais ou os salários sejam sacrificados em nome de outros deuses. Cavaco é, naturalmente, um entre muitos, como Luís Montenegro ou Pires de Lima: as pessoas são preocupações menores das ideologias; a realidade dispensa pessoas.

Saúdo e saudarei sempre os reaparecimentos de Cavaco, porque é importante não esquecer quem contribuiu para a ruína dos portugueses, o que, de resto, lhe é indiferente, porque está convencido de que salvou o país. Não deixa de ser ridículo, mesmo que o riso seja amargo.

 

Imagem copiada de http://fundoazul.blogspot.pt/2013/07/no-cavaquistao-quem-nao-manda-e-o.html

Comments

  1. Ali ensinou bem mais que os famosos quarenta.

  2. JgMenos says:

    Os coirões socialistas são sempre inocentes, tadinhos, e há gente a trata-los tão mal. Que maldade!!!!

  3. Rui Naldinho says:

    Pedro Marques Lopes
    “Esta aparição de Cavaco Silva foi óptima, serviu para mostrar que o país está muito melhor sem ele”

    António Costa esforça-se por isolar José Sócrates do atual contexto político, fazendo com que o país e o próprio PS se esqueçam do ex primeiro ministro.
    Pedro Passos Coelho faz precisamente o contrário. Tenta trazer para a arena política, o que ainda resta de Cavaco Silva, ele que foi o principal responsável pela criação da Geringonça.
    Para quem vive obcecado com “esta aliança contra natura” à esquerda, as palavras são deles, tentando destrui-la a todo o custo, nada melhor para reforçar a unidade das quatro forças políticas que assinaram a Posição Conjunta, do que pôr o ex Presidente Cavaco, a falar das políticas da Geringonça. E melhor ainda, se meter também Marcelo Rebelo de Sousa ao barulho!
    Haverá um dia em que o PSD profundo acordará, e perceberá que os fantasmas são eles próprios. A começar por Aníbal Cavaco Silva.

    • JgMenos says:

      «Cavaco Silva, ele que foi o principal responsável pela criação da Geringonça»!
      Então não foi o Costa que perdeu as eleições?
      Grande novidade!

  4. Ana A. says:

    A nossa triste realidade é ainda termos que levar com esta figura e o seu bafio!

  5. universidade de verão? havia de ser em Albufeira, que lhe ficava mais pertinho de casa. ou nas Berlengas.

  6. ZE LOPES says:

    Berlengas? Seria curioso! Será que as gaivotas perderam o pio?

    Mas não.O homem já só sai da Coelha a pedido do Coelho e volta logo para a Coelha. Enquanto houver Coelha e Coelho o tipo não vai a mais lado nenhum. Não vale a pena tenter, que o gajo não dá cavaco.

    • Saiu do sarcófago e logo piou. says:

      Não vai a lado nenhum porque tem de pagar e não ganha para isso.
      Mas quando fomos todos nós a pagar, até levou a Maria à muralha da China.

  7. Paulo Marques says:

    “a ideologia defendida por Cavaco que dá cabo da realidade”

    Não vá por aí que está a legitimá-los na defesa dos amanhãs que cantam.
    Não, o problema é que a ideologia não bate certo com a realidade. Por muito que martelem o excel, há sempre erros de matemática.

  8. JgMenos says:

    Deixem-se de tretas e ponham-se lá a caminho do socialismo.
    Em frente, marche!

  9. António Melo says:

    Nada de estranhar: aproximam-se as autárquicas, o coelho pede uma ajudinha ao patrão. Este, cansado da quinta da coelha e de aturar a cavaca, mata dois coelhos de uma cajadada (tanto coelho e coelha…enfim): aparece a fingir que está vivo, faz o favor ao láparo de Massamá (consegui não repetir coelho…), almoça à borla e, pensa ele, aproveita para ajustar contas com a esquerda e com o actual presidente. Como se vê, desígnios próprios da personalidade mesquinha, medíocre e azeiteira que sempre foi. Podemos atribuir este afã de zurrar e grunhir a uma senilidade precoce (ou não tão precoce como isso…) e lamentar que esta figura, tendo passado dez anos a degradar a presidência da República, não consiga remeter-se à sua insignificância, resguardando-se e conservando um mínimo de dignidade e decência. É triste, é o que temos.

    P.S. – A única grande novidade é a de que Emmanuel Macron se inspirou nesta grande figura da política mundial.

  10. Arnaldo Mesquita says:

    Acolitado e assessorado pelos Drs. Fonseca Galhão e Jacinto Leite Capêlo Rego, o Prof. Cavácuo foi dar uma aula. Escolheu a escola do crime, eufemisticamente baptizada “Universidade de Verão” da JSD, um local pouco frequentável por pessoas de bem, dado que quem por ali pulula não se recomenda. A magistral aula foi composta pelas habituais bacoradas e vacuidades, a quem nem o actual PR escapou. Com o seu jeito habitual (cara de pau, dicção deficiente, espuma aos cantos da boca e ressabiamento q.b.) não acrescentou nem retirou nada à personagem medíocre que sempre foi; falta apenas dizer que apurou o estilo. Não sei qual a linguagem que empregava nas aulas da Católica (às da Nova nunca foi, embora continuasse a receber os salários), mas deve ter pensado que para os indigentes mentais com quem se confrontava (incluindo o parvajola de Massamá), a linguagem soez e pobre do “eles piam” e “eles deixam de piar” servia suficientemente. Enfim, como diz o nosso povo, e com toda a razão, “quem tem bons mestres, sai bom aprendiz”. Pela qualidade do professor se avalia, então, a qualidade dos alunos.

  11. Ricardo Almeida says:

    Mas que grande palhaçada…
    Sempre pensei que quando o Cavaco saísse da gruta que fosse para ajudar a apagar a pilha de “ouro verde” que ainda não parou de deitar fumo este Verão.
    Ouvi dizer que na verdade a múmia mandou mudar as loiças da casa de banho lá em Boliqueime e só foi a Castelo de Vide para não ter de largar as poias no quintal

Trackbacks

  1. […] Ontem foi dia de festa na “universidade” (não uso minúscula mais pequena porque não há). Aníbal, o Cavaco, falava. E do que disse escorreu bílis, sobrou mediocridade, soprou vacuidade. Há nele um certo sarro de tempos longínquos, uma desconformidade com o que de mais nobre tem a democracia. Há nele aquele ódio que gela o espírito dos que pensam ser médium de uma qualquer verdade absoluta que paira no ar e, ao fim de muitos anos, começam penosamente a suspeitar de que talvez se enganem e, pior, que talvez tenham perdido a capacidade de enganar os outros. Em nós há a náusea, a incontível náusea. […]

  2. […] O regresso do Cavaco-vivo, para fechar a silly season com chave de ouro, é sempre de saudar. Para que nunca nos esqueçamos do que a casa gasta. E assenta-lhe, que nem uma luva, ser cabeça-de-cartaz na universidade de brincar do PSD. Vá lá que agora não temos que o ouvir na TV, a apelar aos portugueses para confiar num banco falido, para uns dias depois se desmentir e fazer figura de parvo. Pena que ainda vamos pagar durante muitos anos a porcaria que este indivíduo e respectiva entourage andaram a fazer, com o alto patrocínio dos mais fraudulentos bancos deste país, que tanto contribuíram para a dívida que não pára de crescer, e que hoje gozam dos proveitos das suas aventuras no cavaquistão da Coelha. Por falar em cavaquistão da Coelha, será que Cavaco já pagou o que deve ao fisco? Ou continuará a viver a realidade ideológica de um caloteiro? […]

  3. […] Por muito que me custe, apetece-me repetir uma frase já antiga: deixem-nos trabalhar. […]

  4. […] fiquei insensível ao conceito de crescimento que povoa a mente desta gentinha alimentada a doses de cavaquismo e a restos da universidade de Verão e para quem as pessoas são abstracções, objectos puramente […]

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