Professores, os que menos sabem de Educação


Pode ter passado despercebido a muita gente, mas os professores são efectivamente seres humanos, logo imperfeitos, falíveis por isso mesmo, dotados de imprescindíveis insuficiências sem as quais seriam divindades. Alguns são, até, redundantes, de tão preocupados em confirmar a humanidade da classe a que pertencem. Professores são, portanto, pessoas.

Em Portugal, há cerca de 140 000, contando com uns 30 000 que foram afastados das escolas graças a desculpas esfarrapadas proferidas em nome de uma dívida pública que continua a ser uma história tão mal contada como as que inventam cônjuges apanhados em flagrante delito de delírios carnais: no fundo, os sucessivos governos apanhados a entregar dinheiros nossos a privados desvairados também dizem coisas como isto não é o que parece ou eu posso explicar. Claro que há sempre quem goste de ser enganado, o que explica tanto voto nos do costume.

Entre esquerda e direita, em Educação, há umas alternâncias de discurso, mas um dos pontos comuns (espalhado, aliás, pela opinião pública) pode resumir-se na seguinte proposição: os professores não percebem nada de Educação e/ou estão completamente desactualizados. Esta crença é tão forte que leva ignorantes a pensar que dominam o assunto, chegando mesmo ao ponto de escreverem coisas.

Neste momento, está em curso mais uma revolução na Educação. Revolução, entenda-se, do ponto de vista de quem se julga revolucionário, ou seja, e estranhamente, do ponto de vista de quem está no poder (ou nos poderes, o que inclui departamentos universitários), que as revoluções, em Educação, pelo menos em Portugal, vêm de cima para baixo.

A revolução actualmente em curso, como o Paulo Guinote tem demonstrado, reclama-se de uma série de novidades que, na realidade, já têm muitos anos e são feitas de palavras e expressões como “interdisciplinaridade”, “projectos”, “ensino centrado no aluno”, entre muitas outras. No meio disto tudo, quem são os únicos que não pescam nada do assunto? Os professores, claro.

Os professores, segundo os iluminados, não sabem que os jovens de hoje em dia já não são os alunos do século XX, porque os professores são pessoas com um grande défice de atenção aliado a um incompreensível conservadorismo, verdadeiras palas que os impedem de reconhecer a realidade.

De acordo com os iluminados, os professores desconhecem que os alunos de hoje são nativos digitais, seres biónicos do século XXI, os professores desprezam, inclusivamente, as novas tecnologias, as novas pedagogias, a importância da motivação. No fundo, não há como os professores para não saber o que se passa nas escolas. Convém, portanto, que todos os que não trabalham nas escolas expliquem as escolas aos pobres docentes.

Os professores, curiosamente, lidam, muitas vezes, há duas e três décadas, com jovens. Deveriam ser considerados, em princípio, o grupo de adultos que melhor conhece os alunos, e as várias linguagens, modas, tecnologias. É o contrário: os professores não sabem nada e é preciso explicar-lhes, ou melhor, impor-lhes sempre os sucessivos evangelhos, mostrar-lhes a luz, obrigá-los a caminhar na Estrada de Damasco.

E a que propósito aludi eu, num parágrafo tão inicial quanto pleonástico, à humanidade dos professores? Para lembrar os mais distraídos que, no meio de tanta imperfeição, os professores é que são especialistas em Educação, da teoria à prática e vice-versa, que é um caminho com dois sentidos.

Por outro lado, um dos defeitos dos professores consiste em maravilharem-se com o que o não é maravilhoso, como é o caso de Filinto Lima.

Por muito que me custe, apetece-me repetir uma frase já antiga: deixem-nos trabalhar.

Comments

  1. são 140 mil votos muito disputados pelos partidos. enquanto isso os próprios vão dando conta do recado, como bons lacaios do poder

  2. Os professores ensinam, primeiro, e também educam.
    A educação é uma tarefa dos mais velhos daqueles que têm mais experiências vividas e de várias instâncias sociais (família, associações com missões diversas…
    Claro que a tarefa principal de educar está acometida aos pais e professores.
    De todas as verdades os métodos são as maiores verdades. Frase de um filosofo tido como anticristo

  3. Tem graça este artigo, pois na escola do 1.ª CEB da minha filha, os recursos tecnológicos disponíveis nas salas serviam somente como elementos decorativos.

  4. Nefertiti says:

    Um pormenor de somenos. Escreva-se antes que os professores são os que menos sabem de educação. “Os que menos sabem sobre educação” foge ao português. É um about.

  5. JgMenos says:

    Reproduzo o que escrevi em ‘ao ponto de escreverem coisas’:
    Nem vou comentar o que é ou deva ser um professor.
    Mas da sua actividade resulta um produto que todos têm o direito de avaliar.
    Em particular os gestores-economistas-empreendedores-consultores sabem muito bem avaliar o que lhes aparece pela porta dentro dados como aptos para terem alguma utilidade.
    E o que se tem visto é muito lamentável!

  6. À semelhança do que aconteceu no tempo de Maria de Lurdes Rodrigues, que foi a maior promotora do desprestígio social dos professores, os “cientistas da educação” estão a tomar conta dos destinos de uma área em que muito poucos têm um mínimo de experiência – lidar com alunos adolescentes numa sala de aula.

    • Os professores não são cientistas da educação. São professores, ensinam.
      No ensino (Ensinar-Aprender), os educadores, cientistas ou não, ficam à porta.
      Na sala de aula o professor ensina e deve educar o necessário para manter uma relação de comunicação que permita ensinar-aprender.
      Em casa é que se deve educar.

  7. A escola pública é um “nicho de mercado” (ele há outros, claro) muito apetecível para muito entrepreneur que da escola só se lembra quando passou por ela. Daí muitos chamarem-lhe ainda liceus. Depois há os restantes experts, sábios, comissões que insistem que se tem de avançar a toda a força para o séc XXI. O problema é que não revogam nada, pelo que as camadas de legislação, metas, perfis anteriores do séc XX se mantêm cobertas com o tal verniz de legislação, metas e perfis do séc XXI. É como varrer a casa jogando o lixo para debaixo do tapete.

    Avançemos, pois, em direção ao séc XXII e esperemos que algo de higiénico apareça.

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