O cronómetro dos professores


Imaginai um maratonista a cumprir o seu dever, que é correr. A dada altura, alguém decide, talvez por falta de tempo (que é uma coisa que se gasta muito), desligar o cronómetro no momento em que o maratonista completa 10 quilómetros, voltando a ligá-lo quanto o atleta passa o vigésimo quilómetro. Acrescente-se que o maratonista chega à meta. Pergunto: tendo em conta que o cronómetro esteve desligado, o tempo deixou de existir ou a distância não foi percorrida?

Se uma situação destas ocorresse, seria natural que o corredor se revoltasse, porque cumpriu o seu dever, ficando sem saber quanto tempo efectivamente gastou. Por outro lado, não podendo a culpa ser-lhe imputada, poderia exigir que o tempo marcado no cronómetro fosse oficializado, o que lhe conferiria o recorde mundial da modalidade.

Os professores que, durante os últimos dez anos, cumpriram os seus deveres (haverá comentadores a garantir que eram uma minoria ou que muitos são esquerdalhos que merecem a forca) tiveram direito a carreiras congeladas e a cortes salariais. Entretanto, relembre-se, continuaram a correr, que é o seu dever. Inteiramente justo seria que o dinheiro desviado (assim mesmo: desviado) e o tempo de serviço fossem inteiramente repostos. Contudo, não se pede inteira justiça: pede-se, apenas, que se reponha o tempo de serviço, o que faria com que os professores fossem colocados no escalão em que deveriam estar, tendo em conta que – isso mesmo! – não deixaram de correr durante dez anos. Neste interim, as televisões aproveitam para mentir.

António Costa alega que o impacto orçamental seria incomportável. Apesar de tudo, tem a aparente honestidade de usar isso mesmo como argumento principal, ao contrário de outros, que alegavam a ausência de falsas avaliações para justificar a extinção das progressões. Ainda assim, nós sabemos que os dinheiros de Estado continuam a salvar bancos e a pagar parcerias público-privadas. No fundo, são diferentes formas de enganar os mesmos. É o centrão a empobrecer a Educação há, pelo menos, 12 anos.

É natural que os professores fiquem como o maratonista: sem fôlego.

Comments

  1. A MANADA que se vá é preparando para a 2ª Festa, cortesia dos DONOS DO SISTEMA MONETÁRIO!

    É que isto de andar a destruir capital (emprestam a Portróical 1000 e no final recebem 996!) não pode – teoricamente – durar muito tempo!

    Excepto se declararem oficialmente que o CAPITALISMO capitulou!

    Assim sendo, Portróical e a MANADA de escravos boçais que o materializam só têm de escolher: Manter a ILUSÃO, ou MUDAR e enfrentar a REALIDADE!

  2. Paulo Marques says:

    A redistribuição baseada em coisa nenhuma continua, e só há-de parar à força ou à ameaça dela. Até lá, é ir lendo como é que o dinheiro e a moeda funcionam para perceber que não estamos loucos, só manipulados.

    Dêm-lhes, funcionários públicos.

    • Acho que estás a exagerar!

      Os escravos boçais não querem saber como é que o “dinheiro e a moeda” funcionam… Basta contemplar o espectáculo que eles dão, por exemplo, no caso do BES e do BANIF!

      Não admira que a REALIDADE seja esta!

      • Paulo Marques says:

        Eu sei que não querem, depois engolem coisas como a relevância do défice, a importância das benesses fiscais, o conto do empreendedorismo e outras coisas que nada têm a ver com a realidade, é pura ideologia política.

  3. www.ruptura vizela.blogs.sapo.pt says:

    O PCP e o BE têm a responsabilidade de obrigar o governo a ceder aos professores,

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