Postcards from Greece #16 (Thessaloniki)


Remember that the revolution is what is important, and each one of us, alone, is worth nothing’

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traduziu-me a miúda, do grego, a partir de um cartaz feito à mão por cima da banca da KNE (Juventude do KKE) no átrio de entrada da Faculdade de Agronomia da Aristotle University of Thessaloniki (AUTH). Do outro lado da banca do KKE (Partido Comunista da Grécia) estava a banca do EAAK (Movimento Independente Unido de Esquerda), um movimento que representa a união de organizações estudantis (universitárias) de esquerda. Quando hoje entrei na faculdade deparei-me com estas duas bancas, uma de cada lado cheias de cartazes. Identifiquei, naturalmente bem o KKE, mas o EAAK nem por isso e presumi que se tratava de eleições para a associação de estudantes ou coisa assim.
 

Fui pousar as coisas no meu gabinete, que por acaso é, basicamente, a sala da biblioteca da faculdade, cheia de livros antigos em grego, alemão, inglês, entre outras e voltei para o átrio para ir buscar um café ao bar onde estudantes fumavam cigarros carregados de revolução. O próprio ato de fumar no bar, à entrada da faculdade é, de certo modo, um gesto de rebeldia. Aliás, já o disse, aqui fuma-se em toda a parte, faculdades, bares, restaurantes e, pasme-se, até em farmácias. Perguntei à Maria e à Roula se é legal, que não, não é legal mas, dizem elas, ‘é a Grécia’. Não sei exatamente o que pensar, embora fume. Hesito entre a apreciação desta rebeldia(zinha) e o espanto perante o facto de ninguém – repito ninguém – reclamar.
 
Mas estava no átrio, a comprar café e água e dirige-me à banca do KKE onde duas jovens estavam sentadas. Perguntei o que estavam a fazer, se era para as eleições da associação de estudantes. Não era. Na Grécia não há associações de estudantes nas Universidades. Há representantes dos estudantes nos órgãos de gestão universitária. Perguntei então, já muito desabituada de ver bancas de divulgação política nas universidades (ou onde quer que seja, fora dos períodos eleitorais) no meu país, o que estavam ali a fazer. A miúda olha-me espantada, como se fosse uma evidência, com aquele ar de ‘duuh’, e responde: ‘estamos a divulgar as nossas ideias’. Disse-lhe: ‘que maravilha’ e perguntei se me traduzia o cartaz por cima da banca, feito à mão. Traduziu, com paciência, começando por dizer que era uma citação de Che Guevara. ”Lembrem-se que o importante é a revolução, e que cada um de nós, sozinho, de nada vale”. Ora aí está. Belas ideias, naturalmente, que merecem, como outras defendidas pelo KKE, ser divulgadas.
 
Passei pela banca do EAAK sem perguntar nada aos moços que lá estavam. Pesquisei depois no Google e descobri o seu importantíssimo papel no movimento estudantil, particularmente em 2006/2007, quando mais de 400 faculdades foram fechadas pelos estudantes como forma de demonstração contra o governo. Mas antes da pesquisa levei o meu café para o gabinete-biblioteca, onde estou sozinha, a pensar que – como já escrevi noutro postal – os estudantes universitários na Grécia são absolutamente ativos na reinvindicação dos seus direitos, no apoio à luta social, na divulgação de ideias. Há quanto tempo não vejo isto acontecer em Portugal? Há tempo demais, penso eu. E aqui, como já referi igualmente, o ensino é gratuito, as refeições nas cantinas são também gratuitas, assim como o alojamento para muitos estudantes. Os estudantes gregos são muito mais politizados que os portugueses. Mais envolvidos cívica e politicamente. Uns dias antes do 17 de novembro, de que também falei num postal, assisti a duas manifestações de estudantes cipriotas e gregos pelo Enosis (união do Chipre com a Grécia). No dia 17 de novembro as instruções que tive eram para não passar nas imediações da universidade, já que os estudantes assinalavam este dia, especialmente os anarquistas, de forma muito intensa, incluindo com cocktails molotov. A polícia não entra nos campus das universidades. E é isto.
 
Da janela do gabinete vejo algumas salas de aula e observo os estudantes que falam, participam. Não oiço o que dizem, naturalmente (e também não entenderia se ouvisse, dado que presumo que falem em grego), mas vejo-os intervir com aquilo que me parece ser (e posso estar evidentemente enganada) convicção. Resigno-me à realidade nacional quando, mentalmente, faço a comparação e meto-me para dentro, para a paz dos livros que me rodeiam. Além dos livros há duas imagens de santos no gabinete. Não me atrevo a pedir-lhes a graça de transformar os estudantes universitários portugueses em pessoas altamente politizadas, até porque, enfim, seria um paradoxo. Em vez disso dou uma vista de olhos nas lombadas dos livros. Vejo alguns que li há muitas décadas quando era estudante de Sociologia, no ISCTE e quando ser estudante universitário – especialmente da área das ciências sociais – representava também alguma politização. Também eu divulgava as ideias políticas do meu partido, o PSR (Partido Socialista Revolucionário), em bancas e em distribuições e não apenas nos momentos eleitorais. Mas isso foi há muitas décadas, constato com alguma tristeza, no tempo em que acreditava piamente na revolução permanente, isso que é o mais importante, e que o mundo podia ser transformado. Hoje, no meio dos meus colegas e dos meus alunos e até de pessoas que teoricamente são meus camaradas, sinto-me muitas vezes (muitas mais do que as que gostaria) ideologicamente sozinha. E, já se sabe, uma pessoa sozinha, para fazer a revolução (se ainda acreditasse piamente nela) vale pouco ou nada.

Comments

  1. Rita Pinto says:

    Ainda há comunas deste calibre em Portugal!
    Se quando eras miúda podes ter sido enganada , agora com o conhecimento das atrocidades cometidas pelo comunismo, ainda tanta fé, quer dizer que és uma “beata” do comunismo.
    Uma ave rara destas com poder na mão , metia-nos em Gulags na hora, na caminhada para a sociedade justa e igualitária.

    Rita Pinto

    • ZE LOPES says:

      Olha! O JgMenos mudou de sexo! Ou terá sido o SIlva?

    • ZE LOPES says:

      Agora a sério, Rita! A Elisbete não conhece isto, com certeza.

      Lembro aqui um desses massacres: foi quando o governo dos EUA, infiltrado de comunistas, mandou duas bombas de larga potência algures no Japão, matando um largos milhares de civis. É um massacre pouco conhecido, mas o meu avôzinho contou-me que existiu.

      E outro: foi na Indonésia, em 1965. Um golpe comunista chefiado por um general comunistoide chamado Suharto matou mais de meio milhão de membros de um partido que estava quase a ganhar as eleições.

      Ainda bem que Putin acabou definitivamente com este flagelo, instaurando uma democracia exemplar e só usando o seu poder militar para ajudar os povos que ainda são vítimas das ideias da Revolução, como por exemplo os oprimidos ucranianos.

    • ZE LOPES says:

      V. Exa. tem de refinar ugentemente a comunicação! O seu comentário dirige-se a quem?. Vamos lá a ver:
      “Se quando eras miúda podes ter sido enganada (…), será á Elisabete?
      “Uma ave rara destas com poder na mão , metia-nos em Gulags” será quem?

      A propósito de “Gulags”: talvez V. Exa não saiba que um tal Carneiro, de apelido Sá, uma espécie de “santo” laranja, apoiou um outro Carneiro como candiato à presidência da República, sabendo que se tratava de um responsável por um campo de concentração – vulgo “goulag” – em São Nicolau (não se canse a procurar, ficava em Cabo-Verde)?

    • Rita, estou atónita… então não há tantos comunas de mais calibre que eu em Portugal? Anda desatenta, certamente. E pode ficar descansada que eu não sou do tipo de pessoa, mesmo chegando a ter poder, de mandar gente para o gulag. Sou mais do tipo que seria mandada para o gulag.

  2. ZE LOPES says:

    Aliás, Rita, sabe-se hoje que foram os comunistas a provocar a Primeira Guerra Mundial. Documentos secretos, recentemente descobertos provam que Lenine estava em Sarajevo quando o Arquiduque foi assassinado. Foi ele quem terá roubado a caixa de velocidades do carro, impossibilitando-o de andar de marcha-atrás! Depois veio um comuna disfarçado de sérvio e matou Francisco Fernando a tiro. O facto de ter utilizado a mão esquerda indica que era comunista, e nunca sérvio!

    O resto já se sabe. Uma guerra devastadora, milhões de mortos, fome e miséria! O que deu pretexto aos comunas para chegar ao poder e armarem-se em salvadores! Um horror!

  3. ZE LOPES says:

    Mas há mais! A Segunda Guerra Mundial também, como todos sabemos, provocada pela ação concertada dos comunistas!
    O que se passou foi que uma data de comunas alemães resolveram dar de frosques para a Austria porque não concordavam com o clima, incomodando os austríacos, particularmente quando dançavam a valsa, o que, como sabem, pode ser fatal!

    O resto já se sabe. Uma guerra devastadora, milhões de mortos, fome e miséria! O que deu pretexto aos comunas para chegar ao poder e armarem-se em salvadores! Um horror!

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