Zeus


Às vezes encontrava-o no restaurante, ele vendia a «Cais» e quase ninguém a comprava, mas o pior nem era isso, era o ar de nojo com que lhe diziam que não, não fosse a sua presença ao lado da mesa contaminar a batata assada e a costela mendinha, diziam-lhe que não com um gesto enfastiado da mão mas não olhavam para ele, e ele agradecia e afastava-se devagar, com aquele corpo lento e cerimonioso, mas havia uma tensão nos seus lábios, rápida, logo afastada, que denunciava uma violência que ele tinha de conter a cada instante, uma luta nunca vencida.

Depois deixou de ter a «Cais», não sei que aconteceu, porque apareceu com uma revista gratuita, uma publicação dos lojistas de uma rua qualquer, e eu disse que não precisava da revista, que o ajudava na mesma, mas foi um gesto indigno, o meu, e arrependi-me logo porque ele insistiu em dar-me a revista. Aceitei-a, ele agradeceu de novo com aquela vénia solene que eu já lhe conhecia, mas desta vez demorou mais tempo a erguer a cabeça, vi-o sonolento, pesado, ferido e percebi que o grande deus caído em desgraça estava cansado da sua penitência.

Mostrara-se humilde, benévolo, submisso. Passara despercebido entre os homens. Ocultara o seu terrível poder, deambulara até os pés se cobrirem de feridas, dormira na rua, mendigara para comer. A tudo tivera de submeter-se por ser um deus descrido, esquecido pelos homens. Mas o orgulho, esse prodígio, renascera. Vi-o relancear a sala com desprezo e pesadume e sair, imenso, radioso, colossal, em chamas, e soube que nunca mais o veria.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / pestreita.wordpress.com

Comments

  1. A vida é uma sucessão de desgraças que, pontualmente, sublimamos.
    As desgraças têm vária facetas, apenas isso.

  2. Gostei muito do seu texto, Carla, de um humanismo comovedor e muito bem escrito e elaborado feito de significado e quase poesia que dói, e que nos fere os egoísmos quotidianos que nos tolhem a sensibilidade .
    Zeus, que não vemos, nem reparamos nem sentimos !
    Excelente, Carla, continue assim .

  3. De boas intenções says:

    Deixei de os ver,aos da Cais.Comprava,sabia o que era.
    Só encontro arrumadores.

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