A pocilga do caciquismo e as directas do PSD


Pedro Marques Lopes assina um artigo de opinião no DN, Quotas, caciques e eleições internas, que no mínimo merece a reflexão daqueles que se preocupam com a saúde da nossa democracia. O fenómeno do caciquismo, e em particular dos pagamentos em massa de cotas, que antecedem actos eleitorais internos nos partidos do costume, representam uma subversão dos processos democráticos, que devia corar de vergonha todos aqueles que recorrem a estes procedimentos, se tivessem vergonha na cara, que não têm. Nas palavras de Pedro Marques Lopes:

É que este tipo de comportamentos, em larga medida, decide a eleição do presidente de um partido. E a conclusão que tem de se tirar é muito simples: o futuro líder do PSD e potencial primeiro-ministro vai ser eleito, em alguma medida, através de aldrabices. No mínimo, será alguém que conseguiu aldrabar mais do que o seu adversário. Repete-se, é isto novo? Claro que não. Tem-se repetido sistematicamente no PSD e, claro, no PS. É feito com a complacência ou, sejamos justos, com o elevado patrocínio dos candidatos que têm a falta de vergonha de olhar para isto tudo e nada dizer, que compactuam e nada fazem, antes ou depois de chegarem ao poder, para pôr um travão a isto.

Pedro Marques Lopes refere ainda um caso, noticiado pelo Expresso, que dá conta de uma ocorrência recente, na concelhia de Lousada do PSD, onde no espaço de um fim-de-semana, os militantes com direito de voto passaram de 60 para 670. Segundo o jornal Público, em meados de Novembro, apenas 28.739 militantes do PSD tinham a situação regularizada. Falamos de apenas 13,6% de um total de mais de 210 mil militantes. No entanto, no espaço de um mês, mais de 5 mil social-democratas pagaram as cotas em atraso. Ou alguém pagou por eles, que é o que normalmente acontece nestes contextos.

Quem será que se chega à frente, quando a contagem de espingardas começa? Serão os militantes mais abastados dos partidos? Serão empresários preocupados em garantir favores futuros? Serão os sacos azuis que se agigantam com as trocas de favores e ajustes directos nebulosos, que crescem e se multiplicam nas autarquias? Qual será a forma de corrupção subjacente a este esquema, digno de uma qualquer rede mafiosa?

E o mais grave é que o caso de Lousada é apenas um entre muitos, que contribuem normalizar estas práticas nada dignas, extremamente desonestas e potencialmente criminosas. Práticas que incluem situações em que dezenas de militantes estão registados com a mesma morada, ou avultadas somas de dinheiro, provenientes sabe-se lá de onde, que surgem do nada e que, de uma assentada, regularizam o pagamento de cotas a milhares de militantes que, em muitos casos, nem se lembravam que o eram. Um nojo. Um nojo que é prática comum entre a hierarquia da boyada, que comanda este país na sombra, despida de escrúpulos, ética e decência. Um nojo que se perpetua, indefinidamente, com a bênção e o alto patrocínio de actuais e futuros governantes e representantes eleitos deste país. Como podemos confiar em partidos e pessoas que se apoiam nestes esquemas para subir a escada do poder? Não podemos. Como não poderemos exigir uma sociedade mais madura, civilizada e igualitária enquanto nos deixarmos governar por esta escumalha.

Comments

  1. JgMenos says:

    O variedade de especialistas em ‘processos democráticos’ é um dos maiores problemas da democracia.

  2. manuel.m says:

    A solução é simples e não é original :
    Que tal só terem direito a voto os militantes que tenham as quotas em dia nos ultimos 6 meses que antecedem o acto eleitoral ? Podiam continuar as aldrabices, mas pelo menos saíam mais caras…E essa do PSD ter 210.000 militantes,(talvez, entre vivos e falecidos, e desde 1974), é do mais fino humor.

    • José Peralta says:

      manuel.m

      Concordo consigo, mas…e as cliques dirigentes ? No caso em apreço, os santana flops e os rios, concordariam com isso ?

  3. ZE LOPES says:

    Eu até podia estar a marimbar-me para o que acontece nos dois principais partidos.Dizer que é tudo igual, chamar salafrário a toda a gente e coisas assim, mas não. Não sou indiferente ao
    populismo cada vez mais reinante. Porque terá consequências para todos. Não é um mero assunto interno desses partidos..

    Quando começou a moda das “diretas” escrevi que adivinhava que o “pessoal político” iria baixar de nível. E não me enganei! Basta ver a corte de Passos Coelho, eleito pelo aparelho comandado por Relvas. Mas antes já tinha sido eleito Luis Filipe Meneses da mesma forma.

    Alguns perguntarão: e no PS? Pois, Sócrates, Seguro…Ah! mas numas diretas abertas a simpatizantes venceu Costa. E foi uma “lição de democracia”…

    Os resultados foram aceites porque Costa ganhou por larga margem. De outro modo ainda hoje andariam a apanhar os cacos. Em muitas secções apareceram simpatizantes de última hora, vindos não se sabe de onde. Aliás, qualquer um poderia votar já que uma declaração em abstrato em como “concordavam com os princípios do PS” é demasiado vaga. Os princípios são sempre lindos, o pior é o resto…

    Ah! Mas houve um partido que fez verdadeiras “primárias”, 0 “Livre”. Bem, quem seguiu o processo certamente notou o perfil de alguns “candidatos a candidatos” – alguns deles recusados, era gente de direita a mandar o barro à parede. E depois o vencedor das primárias no Porto foi destituído porque, supostamente, teriam aparecido votos por correspondência enviados todos da mesma estação de correios…

    Tudo se agravará se se cair, em futuras leis eleitorais, na tentação da personalização do voto. As pessoas têm duas ilusões ao defenderem o voto preferencial ou uninominal: a que vão escolher o deputado “da sua cidade” (quando não do seu bairro…); e a de que poderão escolher os mais competentes, quiçá independentemente do partido a cuja lista pertençam.

    Ora, os círculos uninominais, a existirem, serão de dimensão bastante alargada. Num dos projetos de divisão que uma vez vi, quase todo o alentejo era um único círculo uninominal…
    Quanto ao voto preferencial as pessoas pensam estar a votar numa pessoa cujas qualidades conhecem quando, na prática o estão a fazer na sua imagem mediática.

    Aliás, o voto preferencial é utilizado no Brasil, com as consequências que se conhecem…E foi usado na Itália. Foi assim que foi eleita a célebre Cicciolina…

  4. manuel.m says:

    Os eleitores que votam em circulos uninominais podem enganar-se e eleger quem não merece, mas reeleger o mesmo acredite que não o farão. E esse poder, o de escrutinar o comportamento do eleito, faz toda a diferença pois põe a decisão nas mãos de quem vota e não na dos Directórios partidários.Mas espere sentado pois estes jamais concordarão em limitar o seu poder.

  5. Luís Lavoura says:

    Eu não vejo o que haja de anormal em os militantes irem em massa pagar as quotas quando se aproxima uma eleição interna.

    Em todas as associações portuguesas há montes de associados que passam anos sem pagar as quotas. É natural que um dia decidam regularizá-las para ter direito a votar numa eleição interna.

    Somente por si, este procedimento não significa que haja caciquismo.

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