Cartão de Natal ao Presidente da República


Querido Presidente da República,

este ano trouxeste-nos o presente de Natal muito cedo. Recebêmo-lo no dia 09.12.2017, com uma mensagem dizendo: „Embora suscitando algumas dúvidas específicas, a coerência com uma linha fundamental da política externa portuguesa explica que, após longa ponderação, o Presidente da República tenha assinado a ratificação do Acordo Económico e Comercial Global entre o Canadá, por um lado, e a União Europeia e os seus Estados Membros, por outro, assinado em Bruxelas em 30 de outubro de 2016 e aprovado pela Assembleia da República em 20 de setembro de 2017”.

Apesar de saberes que não queríamos receber este presente envenenado, já estávamos preparados para que o pusesses junto à árvore de Natal. Tínhamos-te pedido repetidamente para nos receberes, para falarmos sobre esse acordo que vai roubar-nos soberania e embrulhar-nos mais ainda nos liames das multinacionais, que adquirem direitos especiais para processarem estados. Uma vez, foi-nos respondido que a agenda não permitia. Continuámos a tentar, mas parece que aquela resposta era para sempre, pois nunca recebemos mais nenhuma. Para nós, nunca há agenda. Na última carta, éramos quinze organizações da sociedade civil – e sabemos que em Portugal não é fácil que as pessoas se empenhem voluntariamente por causas comuns de advocacia – solicitando uma audiência sobre o CETA; mas somos pouco mediáticos e o que queríamos não era compaixão, mas sim a defesa dos direitos dos portugueses.

Lembrámos que, a pedido da Bélgica, o Tribunal Europeu ainda está a analisar a compatibilidade do ICS com o direito europeu e que o mesmo acontece na Alemanha, onde o tribunal constitucional está a analisar o CETA. E Portugal, não precisa?

Lembrámos que os portugueses não sabem – não foram informados – do que lhes está a acontecer, apesar de a Assembleia da República, aonde levámos uma petição pedindo essa prestação de informação aos portugueses, ter prometido realizar um debate alargado, real, para informar a sociedade civil sobre o CETA.

Enquanto íamos informando à nossa dimensão por todo o país, andámos anos a pedir à comunicação social informação substancial sobre o CETA aos cidadãos. Mas não conseguimos, foram muito poucochinhas as notícias – porque não é tema que interesse, é complicado, não suscita uma história, não, não, não.

Pedimos a mais de 80 personalidades deste país publicamente reconhecidas e com conhecimento sobre o acordo para, ao menos eles, falarem sobre o CETA: nem 10% o fizeram.

Pedimos a cada um dos deputados do parlamento, repetidamente, resposta a questões concretas que o CETA levanta – mais uma vez, nem 10% reponderam. E na votação, o PS aconchegou-se à oposição, para o fazer passar na AR.

E no entanto, as preocupações de que falamos consubstanciaram-se em abalizados pareceres negativos sobre o CETA por parte de associações profissionais portuguesas, como a Ordem dos Médicos, o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, a Associação Sindical dos Juízes Portugueses, a Confederação Nacional de Agricultura (CNA) e muitas organizações da sociedade civil.

Querido Presidente, “dúvidas específicas” e “longa ponderação” mostram que te preocupas e são um indício claro de que este presente é pouco recomendável e que vem pela mão de valores mais altos que se levantam e que não são os dos cidadãos.

Agora, vamos ter de nos habituar, porque vêm aí mais uma série deles, é com o Japão, o México, Austrália e Nova Zelândia, dezenas. Vamos ter de passar aos nossos filhos um Portugal mais vergado, mais frágil.

Talvez não houvesse outra alternativa, nós, pequeno grupo de cidadãos que conhece melhor o articulado desse acordo e as suas implicações do que a maioria dos deputados da AR, nem sabemos de tudo o que pesou… Se foste obrigado a oferecer-nos este presente doloroso neste Natal, vamos todos aguentar.

Mas, por favor, nem beijinhos, nem abraços, nem autógrafos, nem fotos, nem palavras, nem compungimento.

Uma serena noite de Natal, apenas.

Para o ano, por favor oferece uma verdadeira prenda aos portugueses.

Esta afinal, querido Presidente, foi para os tubarões.

Comments

  1. Atento/sempre says:

    Eu ia mais longe, deveria ser comido, alguns deputados(as), e políticos encartados pelos tubarões… E porque não alguns jornalistas… Esta foi forte!!!
    Boas Festas, e cuidos com os Tubarões!!!

  2. Graça Horta says:

    Obrigada Ana, por teres desejado as Boas Festas ao Presidente em nosso nome. Afinal ele não nos deu Boas Festas…

  3. Anasir says:

    Triste…

  4. Ana, eu própria já o esperava, tantas vezes o afirmei convicta ou não fosse essa a ideia que faço desde sempre de ” l´oiseau marcelô qui petit à petit fait son nid ” e vai mostrando ao que veio, esse presidente que eu não escolhi assim como muitos de nós, creio.
    Vai celebrar todo convencido e com todo o seu staff reunido o natal hipócrita e cantar as janeiras com abraços e beijinhos, sim, sem verdadeira consciência da gravidade do mal que nos causou a todos e ao futuro das gerações vindouras, colando-se a interesses internos e externos que não são os de um país do qual é LAMENTAVELMENTE o representante máximo .
    Hipocrisias e desnível político dos responsáveis de um povo
    arrebanhado que igualmente não se apercebe destas questões prementes .
    “Querido Presidente” ? nem por ironia ! Atraiçoou-nos, isso sim, irreversivelmente !

    …tanto que apetece enviar-lhe efectivamente este seu postal de natal, Ana, que é nosso também ! …quem dera que por quaisquer via lhe chegasse ás mãos e á consciência (de tubarão que seja…) que as minhas estão já a sentir um
    ” formigueiro” de vontades que nem lhe digo nada. Claro que não vou fazê-lo, mas quanto me apetece oferecer agora a ele este presente nosso embrulhado na nossa indignação e com laçarote negro ( e vermelho ? ) da nossa revolta e desolação.
    Mais uma vez, e desta pelas razões piores que denuncia tão bem, obrigada, Ana.
    Subscrevo as suas palavras tanto quanto seria de minha vontade que fosse possível elas chegarem ao Gabinete desse “querido Presidente” ……

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