Postcards from Greece #34 (Thessaloniki)


‘Thessaloniki: many stories, one heart’

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vi escrito ontem num camião que recolhia o lixo. Gostei da frase, porque é isso mesmo. Uma cidade múltipla, com mil histórias, ou 2300 anos de história(s), mas um só coração. Pesquisei e trata-se de um projeto (http://manystoriesoneheart.gr) desenvolvido por um habitante da cidade – Theodoros Ploumis – em 2016 para o concurso Apps4Thessaloniki – Tourism edition. A ideia era ser uma app de tourism, um guia, com informações úteis, às quais Theodoros resolveu juntar histórias dos habitantes e dos visitantes da cidade. Um projeto bonito, portanto, feito de histórias e coração.

É fácil perceber a multiculturalidade de Salónica, as suas mil faces, andando nas ruas, nos monumentos. É também fácil perceber o seu coração na simpatia e amabilidade e generosidade das pessoas. É fácil perceber a sua descontração. Tudo isto sempre,mas especialmente quando faz sol, como hoje e um céu muito azul nos convida a passear pelos lugares onde ainda não fomos e nos contam mil histórias, mais de mil, na verdade, muitas mais, dos 2300 anos da cidade.
 
A ideia para hoje era visitar Kavala, uma cidade a este de Salónica, a duas horas de autocarro. Mas o cansaço impediu-me de acordar cedo para apanhar o autocarro e, assim, fui visitar partes ou monumentos de Salónica que ainda não tinha visto. Kavala ficará para outro dia. Apanhei então, era meio dia e meia o autocarro 23 para Eptapirgiou, lá em cima, bem no alto de Salónica de onde se avista a cidade inteira e se advinham as suas mil estórias e se sente o seu coração antigo. Construída no século XIV como uma fortaleza de defesa da cidade, pelos Otomanos, foi no século XIX convertida numa prisão que funcionou como tal até 1990. Durante a ditadura de Metaxas (1936-41), a segunda guerra mundial e a guerra civil (1946-49) e ainda no tempo da ditadura dos coronéis (1967-74) foi sobretudo uma prisão política. Atualmente encontra-se sob alçada do Ministério da Cultura grego, um tanto descuidada. Nela abundam, como em toda a parte – e já o escrevi tantas vezes, os gatos. Um deles aninha-se no meu colo, quando me sento num banco a fumar um cigarro. Tem uma coleirinha azul celeste e um sininho e é macio como são os gatos. Afasto-o e volta a subir-me para o colo. Não há dúvida que também os gatos têm uma grande simpatia pelos estranhos.
 
Volto a apanhar o autocarro 23 para descer do Eptapirgiou até Agia Mina. Daí caminho um bocadinho até à Praça da liberdade (Elefhterias) e apanho o autocarro 5. Gosto de andar de autocarro nas cidades. É uma bela maneira, quando se tem más pernas e maus pés, de conhecer as ruas e as pessoas – pelo menos as que andam de autocarro. O autocarro 5 deixa-me na Torre Branca, onde já tinha estado no primeiro dia que aqui cheguei, mas onde ainda não tinha subido. A Torre Branca é o símbolo maior de Salónica. Ergue-se junto ao Golfo termaico ou Golfo de Salónica, onde o mar Egeu é como um lago, tranquilo e (hoje) brilhante sob o sol. O bilhete para visitar a Torre Branca custa 2 euros, mas eu não pago nada. Subo os 96 degraus, largos e inclinados. A Torre tem 6 andares e em cada um, à exceção do último que é um terraço com a vista mais fabulosa que se pode ter da cidade, podem ler-se pedaços das estórias de Salónica e das pessoas que nela habitaram e habitam. Foi em tempos, a Torre, parte das muralhas da cidade. Construída no final do século XV depois da conquista de Salónica pelos turcos, substituindo uma torre bizantina . No século XIX também esta torre serviu como prisão para aqueles que cumpriam penas perpétuas. Também se torturavam e assassinavam pessoas aqui e isso fez com que a Torre também ficasse conhecida como Torre do Sangue (ou Blood Tower. Em 1890 um prisioneiro pintou-a de branco para ganhar a liberdade e este nome – Torre Branca (ou White Tower) ficou desde então.
 
A vista, como já disse, vale bem a visita e a subida (e sobretudo a descida, mais difícil, pela inclinação dos degraus). Quando chegamos lá acima e avistamos os barcos no golfo e o sol que o deixa de prata, compreendemos melhor o coração da cidade. E a sua beleza, de que tantas vezes tenho desdenhado. Está um dia tão bonito que é impossível que haja alguma coisa feia sobre a terra neste instante. Porque está – precisamente – um dia bonito, penso ir até Kalamaria, ver o por do sol. É um subúrbio de Salónica, a 5 quilómetros de distância e o autocarro 5 fá-los quase sempre junto ao mar. Nos anos 20 acolheu parte dos 100 mil refugiados da Ásia Menor (ou do que atualmente conhecemos como Turquia) devido à guerra grego-turca que Salónica recebeu. É uma área muito agradável, como uma longa avenida junto ao mar – Plastira – e a marina de Aretsou cheia de iates e gaivotas. Gosto mais das estórias que contam as segundas, naturalmente. O por do sol dali é uma coisa digna de ser vista. Hoje principalmente. A cor laranja invade tudo, céu e água, numa união familiar mas sempre inesperada. Há uns 10 gatos junto ao restaurante de peixe acima da marina, à espera dos restos de comida, contentes e macios, cheios de miados amáveis. Cheira muito bem a peixe grelhado, há que compreender os gatos. No entanto, são apenas cinco e meia da tarde pelo que jantar está ainda longe nos meus planos. Regresso a Salónica com o autocarro 5. Observo o mesmo ritual de sempre nas pessoas, jovens e menos jovens, que se benzem frequentemente ao passar pelas igrejas – e há muitas igrejas. Chego a casa um bocado depois, cheia de estórias que não sei contar, mas a sentir que o coração bate agora ao mesmo ritmo que a cidade.

Comments

  1. Pedro says:

    Salónica tem uma história muita antiga e impressionante. São camadas de História. Falta falar da história trágica dos judeus de Salónica, quase todos deportados pelos nazis para campos de concentração. O actual presidente da câmara, o Boutaris (um produtor de bom e afamado vinho a sério, por sinal) está a resgatar agora essa história, com a construção de um museu.
    Muito bom esse site, ainda por cima desenvolvido por um simples cidadão. É uma fantástica declaração de amor à cidade. Não conheço por cá igual.
    Ainda bem que se vai reconciliando com a cidade, Elisabete. Tenho aprendido muito com as suas crónicas.

  2. Olá Pedro
    Já falei um bocadinho da história dos judeus de Salónica, ou melhor, do modo como foram concentrados na Prça (hoje) da Liberdade, para serem deportados e depois exterminados. A comunidade judaica de Salónica era a maior da Europa nessa época, com muitos judeus sefarditas. Até lhe chamavam ‘La madre de Israel. Escrevi sobre isso aqui: https://aventar.eu/2017/11/15/postcards-from-greece-6-thessaloniki/#more-1285240
    Por acaso fui na terça feira passada ao museu judaico e hoje à sinagoga Monastirioton, que está fechada e só se pode visitar por marcação (coisa que não fiz)… estou atrasada nos postais. O novo museu está previsto para 2020. Pode ler mais aqui: https://www.timesofisrael.com/thessalonikis-new-holocaust-museum-a-sign-of-a-city-finally-embracing-its-jewish-past/
    Obrigada por ler
    🙂

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