Postcards from Greece #35 to #37 (Thessaloniki)

אמא של ישראל

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ou ‘mãe de Israel’ ou ainda ‘madre de Israel’, em ladino, como era chamada até à II Guerra Mundial a cidade de Salónica. Desde finais do século XV Salónica recebeu milhares de judeus sefarditas, ou seja, oriundos da Península Ibérica, e especialmente espanhóis, em consequência da sua expulsão pelos ‘reis católicos’ Fernando e Isabel. Trouxeram com eles a língua, o ladino, e diversos saberes e ofícios, como a cartografia, impressão, medicina, entre outros. O seu conhecimento de armamento constituiu à época uma mais valia para os otomanos. Rapidamente se multiplicaram em Salónica, agrupando-se em comunidades e fundando sinagogas que tomaram o nome dos seus países de origem: Espanha, Portugal e Itália, ou das suas cidades principais. Salónica foi durante muitos séculos a cidade com maior número de judeus na Europa.

Com a integração de Salónica no Estado grego, em 1912, a comunidade judaica enfrentou alguns desafios associados ao crescimento do nacionalismo, mas obteve o apoio governamental para prosseguir com as suas tradições. O governo apoiou igualmente o desenvolvimento do Sionismo e o estabelecimento dos judeus na Palestina, o que era aliás coincidente com o desejo dos gregos em desmembrar o Império Otomano. Ao mesmo tempo, diz-se, crescia o antisemitismo entre a população da cidade.
Em 1917, o grande incêndio ocorrido na área central da cidade, destruiu a maior parte dos bairros judeus. O fogo destruiu 32 sinagogas, 10 bibliotecas rabínicas, 8 escolas judaicas e o arquivo comunitário. Das 70 000 pessoas que ficaram sem casa, 52 000 eram judeus. O plano de reconstrução implicou a expropriação dos terrenos e a relocalização em outras áreas da cidade. Muitos judeus escolheram os novos subúrbios de Salónica. A vinda de dezenas de milhares de refugiados gregos da Ásia Menor e a saída de muçulmanos da cidade, na sequência da guerra Grego-Turca (1919-1922), alterou a composição étnica de Salónica, deixando os judeus de constituirem a larga maioria, igualmente porque muitos deles começaram a emigrar em maior número para a Palestina, os países da Europa central e a América do Sul. Na véspera da II Guerra Mundial, a comunidade judaica representava, ainda assim, cerca de 40% da população de Salónica.
Em outubro de 1940 Mussolini invadiu a Grécia, sem sucesso, mas em abril de 1941 a Macedónia Central, incluindo obviamente Salónica, foi ocupada por forças alemãs e medidas anti-semitas foram sendo gradualmente introduzidas. Já contei noutro postal ( https://aventar.eu/2017/11/15/postcards-from-greece-6-thessaloniki/#more-1285240) que sob o pretexto de um recenseamento, os nazis concentraram em julho de 1942 naquela que é hoje a Praça da Liberdade (Plateia Elefhterias) 9000 judeus que depois deportaram para os campos de concentração, sobretudo Birkenau e Auschwitz e Treblinka. No total, 50 000 judeus de Salónica (mais de 96% da população judaica, à época) pereceram nos campos de concentração nazis. A comunidade, nesta cidade, era tão grande que foram precisos vários meses para executar todas as deportações. O último comboio partiu em 18 de agosto de 1943 da velha estação dos caminho de ferro de Salónica.
Hoje existem em Salónica cerca de 1000 judeus, alguns dos quais descendentes de sobreviventes do Holocausto que regressaram à cidade após o fim da II Guerra Mundial. Muitos deles tiveram de lutar para retomar a posse das suas casas e outras propriedades. O passado judaico-sefardita da cidade é quase invisível hoje. Restam poucos vestígios desse passado na cidade. A velha estação ferroviária, a sinagoga Monastirioton, na rua Siggrou, 35, não muito longe do sítio onde vivo aqui, a Sinagoga de Yad Lezikaron, na rua Vasileos Irakleiou 26, o mesmo endereço da sede da Comunidade Judaica de Salónica, e alguns edifícios e equipamentos (como o Modiano Market). O antigo cemitério judaico, de antes da II Guerra Mundial, é hoje o local onde se ergue a Aristotle University of Thessaloniki. Muitas das pedras dos túmulos serviram na reconstrução de vários edifícios da cidade (com a igreja de Agios Dimitrios aqui em frente). Há no campus da AUTH um pequeno memorial que nos recorda o passado.
Há igualmente um Museu Judaico em Salónica* (fica na Agiou Minas, 11) que visitei por estes dias, depois de visitar uma antiga mesquita (a Alaca Imaret) e onde, mesmo sem poder tirar fotografias para mais tarde me lembrar, aprendi estas coisas e outras mais sobre os judeus de Salónica, a ‘mãe de Israel’. E onde me ponho a pensar, diante do horror do holocausto, diante de todo o horror do sofrimento do povo judeu, e diante da beleza inquietante da escultura que se ergue na Plateia Elefhterias, em forma de ‘menorah’, cheia de figuras humanas entrelaçadas, como pode um povo que sofreu tanto, que foi também capaz de se reconstruir e afirmar depois desse grande sofrimento, fazer sofrer outro povo, usurpando-lhe a terra e a pátria. Infelizmente não há nenhum museu a esse povo, em Salónica, nem que me lembre em nenhum dos países e cidades que já visitei, a não ser, leio depois, na própria Palestina, em Birzeit, a poucos quilómetros de Jerusalém. Se sair agora demoro 29 horas a chegar lá, sem parar. Se calhar era lá que devia ir, nestes tempos inquietantes. Se calhar era lá que devia ir, antes que desapareça o Estado Palestiniano.
*Em 2020 será inaugurado um novo (e maior) Museu Judaico em Salónica

Comments


  1. Nunca se meta na cabeça de ninguém que alguém ou algum povo se torna bom pelo facto de lhe terem feito mal. Acontece frequentemente que se torna igual ou ainda pior do que aqueles que lhe provocaram o mal. Também, porque, de uma forma geral, libertos do mal que lhes fizeram, vem à superfície a sua verdadeira natureza. Tal como o mostraram os judeus após a II GM, quando colocados na Palestina.

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Penso que confunde a política ou os políticos com o povo.
      Ando pelo mundo e faço sempre a distinção entre o povo e essa miserável classe política que, a certa altura, coordena toda a sua actividade no sentido de privilegiar alguns em detrimento da maioria. Isto é válido em qualquer regime.
      Pessoalmente distingo o Judeu – com o qual uma grande parte dos portugueses tem um laço familiar mais ou menos distante – dos Nathaniaus e quejandos que não passam de uns ditadorzecos de meia tigela que só deixam mal um povo.


      • Ernesto, penso que tem razão, o povo não deve ser confundido com a classe política… e, neste caso concreto, certamente que há muitos judeus que não concordam com aquilo que está a ser feito relativamente à Palestina. No entanto, ou por outro lado, é o povo que elege essa classe política que toma estas decisões… de onde, não é fácil distinguir muitas vezes os políticos do resto do povo 🙁

        • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

          Sim Elisabete.
          Mas o povo também escolheu Hitler, Trump, Cavaco, Sócrates, Durão Barroso, Rajoy, Orban e quejandos.
          O problema não será o povo nesse domínio. É a cultura da opinião, a cultura do debate aberto e franco numa palavra, a democratização da vida política.
          Isto não é democracia nenhuma.


    • Bento, pois, mas que passa pela cabeça, passa… ainda assim.

  2. joão lopes says:

    isto é tudo uma sucessão de futilidades e parvoices e tambem o sinal que a humanidade irá ter um final muito,mas mesmo muito infeliz:isto é,os reis “catolicos” expulsam os judeus,entretanto agora os judeus expulsam os palestianos,daqui a um tempo devido ao problema da falta de agua,todos se comem uns aos outros,e no entanto parece que é isto que a humanidade do lado ocidental adora,a guerra,as discussões,as parvoices,as futilidades.pois bom proveito,.

  3. Pedro says:

    Excelente, Elisabete. Li, já não sei onde, que existem ainda em Salónica judeus com apelidos portugueses mas que, infelizmente, pouco sabem das suas origens, porque se perderam entretanto muitos registos da comunidade.

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