Postcards from Greece #38 to #39 (Thessaloniki)


‘T’as dejá tout vu’

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disse-me a minha colega (que fala comigo sobretudo em francês, respondendo-lhe eu numa misturada de inglês e francês, formando uma língua bastante original, devo dizer) há três dias, enquanto nos dirigíamos para o instituto onde eu fui dar outro seminário sobre turismo rural, o ATEI, a uns poucos quilómetros de Salónica. Já íamos atrasadas, o Seminário estava marcado para as quatro da tarde e ela tinha-me vindo buscar aqui em baixo, perto de casa. O que ela não sabia, nem eu até ter descido à Agios Dimitrios, era que o trânsito estava um caos. Mal cheguei ali abaixo apercebi-me da estranha calma e da ausência de carros, olhando lá para o fundo, dois quarteirões à frente, vi duas grandes carrinhas azuis, da polícia, que bloqueavam a rua. Estavam junto ao edifício – muito bonito por sinal – do Ministério da Macedónia e Trácia. O que se passava não sabia ainda, mas a calma da rua devia-se então ao bloqueio da polícia. Ainda assim, esperei no sítio combinado. Passaram muitos minutos e liguei à minha colega que me disse que estava a chegar. Passaram mais uns minutos e nada. Ligou-me. Que não podia passar e que fosse ter com ela depois do Ministério. Fui andando depressa, ou tão depressa quanto podia. À porta do ministério muita polícia e muitas carrinhas grandes, quase autocarros, a bloquear pelo menos dois quarteirões. Muitos elementos do corpo de intervenção, armados até aos dentes, e uns cinquenta (se tanto) manifestantes (vim depois a saber, desempregados) que protestavam. Passei por eles e mais à frente, metida numa confusão de carros, lá encontrei a minha colega.

 
O trânsito estava, então, caótico. Perguntei-lhe o que era aquilo. Disse-me que Tsipras estava em Salónica e naquele edifício. Já no dia anterior, tinha lido, eu, que membros do PAME (Frente Militante de Todos os Trabalhadores) tinham invadido, nas barbas da polícia, o ministério e colocaram uma faixa na varanda a apelar à greve geral de ontem, 14 de dezembro. Pelo caminho ela disse-me, então, que eu já tinha visto tudo, no que a protestos diz respeito. De facto, a 17 de novembro a Universidade esteve fechada (e fui muito aconselhada a não me aproximar do campus) devido às celebrações do dia da revolta do Politécnico de Atenas (1973). Muitas lojas e serviços também estiveram fechadas nesse dia. Vi duas manifestações a favor do Enosis, de estudantes cipriotas e gregos. No dia 6 de dezembro, estando descansada no meu gabinete, outra colega veio avisar-me que antes das cinco da tarde devia deixar o campus. Assinalava-se o nono aniversário da morte (pela polícia) do jovem estudante (de 15 anos) de Atenas Alexandros Grigoropoulos. Nesse dia vi outra manifestação, aqui da varanda e pouco depois ouvi disparos e explosões que, posteriormente, ao ver as notícias, percebi serem dos confrontos entre os anarquistas e a polícia, no campus da AUTH. Há 3 dias, então, a manifestação de desempregados contra Tsipras e ontem, a greve geral, convocada pelo PAME, à qual aderiram também a GSEE (Confederação Geral dos Trabalhadores Gregos, do setor privado) e a ADEDY (Confederação dos Trabalhadores da Administração Pública), portanto, as três maiores centrais sindicais da Grécia, por assim dizer.
 
A greve de ontem foi a 45ª greve geral desde 2010. A ela aderiram muitos milhares de trabalhadores, tendo fechado escolas e serviços públicos em todo o país, paralisado completamente a circulação ferroviária, marítima e de autocarros de longo curso. Nos hospitais asseguraram-se os serviços mais urgentes, apenas e também os jornalistas aderiram (em alguns casos fazendo greve um dia antes, para poderem cobrir os acontecimentos de ontem). Em Salónica, muitas lojas estavam abertas, mas havia pouco trânsito nas ruas e não circulavam quase nenhuns autocarros. Às 10h da manhã houve concentrações em vários pontos da cidade e depois manifestações. E, portanto, agora sim, parece que já vi tudo, ou quase tudo (que certamente há muitas outras formas de protesto e muitos outros protestos) no que se refere a manifestações, concentrações, comemorações e greves. Fiquei em impressionada sobretudo com o número de greves gerais em sete anos. 45. Não sei quantas houve em Portugal em igual período (umas 3?). Mesmo sem a comparação, convenhamos que 45 greves gerais em sete anos é um número francamente impressionante! A minha colega, quando regressamos do Seminário – que correu bem – diz-me que fará greve, como fez sempre ou quase sempre. Apesar disso acha que o homem contra quem todos protestam hoje é ‘o mal menor’. Que poderiam estar muito piores, com um governo maioritário de direita e que, apesar de tudo o que aconteceu e vai acontecer ainda com novas medidas de austeridade, aprovadas pelo Parlamento no Orçamento de 2018 discutido e ratificado ontem mesmo, este governo melhorou um pouco a vida das pessoas. Acredito nela, evidentemente. Conhece melhor a situação – porque a vive todos os dias, desde há muitos anos – do que eu.
 
Conheço outros gregos, no entanto, que consideram que Tsipras deveria ter feito muito mais, que o Syriza devia ter feito aquilo que prometeu ao povo aquando da sua primeira eleição. Que não deveria ter retirado a esperança de que nos alimentou a todos, eu incluída, de que outro rumo era possível e de que havia alternativas à narrativa austeritária. Também acredito neles, evidentemente. Alguns deles fizeram greve ontem, outros não. Há muitas maneiras de ver e há muitas maneiras de manifestar desagrado outras tantas de protestar. Nem todas assentam na esperança. Na mesma esperança, pelo menos.

Comments

  1. Continua com esses bonitos postais tão raros hoje de encontrar nos media tradicionais portugueses, sobretudo os pagos.

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