Não é a acusação, senhor ex-ministro investigado por tráfico de influências: é mesmo a comunicação social

MM

A ver se nos entendemos, senhor ex-ministro e homem forte do profissional da abertura de portas: a acusação é o que é e chegará o momento da justiça se pronunciar sobre ela. E não se preocupe, que pessoas do seu estrato social tendem a ser imunes ao encarceramento, mesmo quando o crime é feito nas nossas barbas. Veja o caso dos seus companheiros de partido que rebentaram com o BPN e com a economia nacional. Terá algum deles sido preso? Claro que não. Não só não são como ainda correm o risco de ser elogiados por um primeiro-ministro em funções, como foi o caso do seu grande amigo Pedro.

Posto isto, a única bipolaridade que marca este caso diz respeito à imprensa nacional. Repare bem que o senhor é um ex-ministro de Passos Coelho, ex-secretário de Estado de Cavaco Silva e de Durão Barroso, eleito deputado em todas as Legislaturas desde 1987, com excepção desta última, por motivos óbvios, e apesar de ter estado em todas desde a década de 80, fica no ar a sensação de que qualquer peido é mais importante para a comunicação social portuguesa do que o seu caso, que envolve somas de dinheiro avultadas e suspeitas de tráfico de influências e prevaricação. Por muito menos se cozinham políticos neste país. Em lume brando.

Já o senhor corporiza um caso verdadeiramente fascinante. Um homem poderoso, íntimo de vários homens e mulheres poderosas, ocupou os mais altos cargos da nação e do seu partido, tendo sido apanhado em esquemas pouco próprios para pessoas de bem, e, por algum motivo, mantém a habilidade de se movimentar entre os pingos da chuva, sem que uma só gota lhe acerte. Dois anos e meio após ter sido constituído arguido, o silêncio ensurdecedor da imprensa portuguesa sobre o caso, e sobre a sua ligação ao mesmo em particular, só não me surpreende por saber o que a casa gasta. E bipolar talvez seja pouco, quando consideramos o destaque dado pelos nossos jornais e televisões a alguns temas da treta, tipo reality shows e telenovelas futebolísticas. É o que vale ter bons amigos e viver num país onde a imprensa é, regra geral, controlada por militantes, simpatizantes e financiadores dos partidos de direita. Facilita, não facilita?

*****

Relacionados:

Vistos Gold: o favor de Miguel Macedo ao ex-patrão de Sócrates que não fez manchete

Aperta-se o cerco em torno de Miguel Macedo

Grandes temas caídos em esquecimento

Prevaricação e tráfico de influências: Miguel Macedo vai mesmo a julgamento

Que é feito de Miguel Macedo?

Deixem o Miguel Macedo em paz!

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “É o que vale ter bons amigos e viver num país onde a imprensa é, regra geral, controlada por militantes, simpatizantes e financiadores dos partidos de direita. Facilita, não facilita?”

    E de que maneira, João!
    E há uma cambada de néscios que ainda acredita na jornaleira cá da terra, quando toda a gente já percebeu que estes só hajem a mando dos poderes instituídos.
    A liberdade de imprensa neste país, é a liberdade do capital convencer uma infinidade de incautos, que a sua condição de vida é fruto do destino, porventura traçado pela sua falta de ambição.

  2. “…agem…”
    Depois de (“… neste país…”) não há vírgula.

    • Rui Naldinho says:

      Obrigado, pela correção.
      Sim escreve-se agem, de agir. Erro grosseiro.
      O predicado a seguir ao sujeito não leva virgula, por norma.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.