Prevaricação e tráfico de influências: Miguel Macedo formalmente acusado pelo MP

MMPPC

Convido o caro leitor a descer comigo até ao submundo da imbecilidade, onde a propaganda política é lei e o debate sério foi substituído pelo fundamentalismo político-partidário. Preparado? Então vamos lá: Miguel Macedo foi hoje formalmente acusado pelo Ministério Público pela prática de três crimes de prevaricação e um de tráfico de influências, o que o coloca acima de José Sócrates, contra quem nunca foi deduzida acusação, na cadeia alimentar do crime de colarinho branco. Quer isto dizer que Macedo é pior que Sócrates, o que me leva a concluir que, se Costa era colado a José Sócrates durante a campanha eleitoral, e estando o PàF ainda em campanha eleitoral, é igualmente legítimo colar Passos Coelho a Miguel Macedo, o que faz de Passos Coelho pior que António Costa no que a trafulhice diz respeito. Até porque não temos conhecimento de qualquer Tecnoforma associada ao líder do PS.

Regressando ao plano mentalmente são, falemos de coisas sérias: a justiça raramente consegue pôr a mão nas elites políticas e Miguel Macedo, presunção de inocência à parte, está numa situação extremamente delicada. Fez ontem exactamente um ano que o homem forte de Pedro Passos Coelho apresentou a sua demissão da chefia do Ministério da Administração Interna e, um ano volvido, vê-se agora sujeito à medida de Termo de Identidade e Residência e está proibido de contactar os restantes arguidos.

Mas este caso não se resume a Miguel Macedo. Para além dos restantes envolvidos num caso que, vá-se lá saber porquê, não captou grande atenção da imprensa nacional durante a recente campanha eleitoral, mais interessada no estafeta da Telepizza do que nesta rede criminosa, existe gente graúda com o seu nome associado ao escândalo:

O universo de cunhas paralelo ao caso dos Vistos Gold parece não ter fim. Até Miguel Relvas pediu favores ao antigo director do IRN. Mas verdadeiramente singular é o caso de Bruno Anes, filho de Maria Antónia Anes, também acusada pelo MP pela prática de 1 crime de corrupção activa, 1 crime de corrupção passiva e 1 crime de tráfico de influências, que recebia, desde 2008, uma avença mensal de 1544 euros mais ajudas de custo e transporte, suportadas pelo IRN. Maria Antónia Anes era, quando o escândalo rebentou, Secretária-Geral de Justiça.

A ver vamos onde isto vai parar. Apesar de ter perdido grande parte da minha fé – sim, da maneira que isto está só com fé é que a coisa vai – na justiça portuguesa, desconfio que alguém vai receber um Visto Gold para Évora. Estou em pulgas para ver os fanáticos que sonham com Sócrates dia e noite fazerem de conta que isto não está a acontecer.

Foto: Lusa@Público

Comments

  1. Ferpin says:

    Só acredito quando vir. Dá-me a ideia que a justiça tem dois pesos e duas medidas consoante esquerda e direita.

    Tenho ainda a ideia que a própria população é mais exigente com a honestidade dos políticos de esquerda que com os da direita.
    É como se um defensor da livre iniciativa e do capitalismo selvagem seja considerado coerente quando rouba, mesmo que muito, e um apoiante da liberdade igualdade e fraternidade seja severamente condenado a nível moral quando rouba nem que seja poucochinho.

    Daí que seja mais eficaz colar o Costa ao socras quando o Costa desde 2009 que está fora dos governos do que colar o passos ao Macedo embora tenham sido amigalhaços (e sejam).

    O exemplo mor disto é o Marco António ter desaparecido na campanha porque a sua imagem é o que se sabe, mas tenha aparecido a comentar como porta-voz logo no próprio dia das eleições, sem isso suscitar qualquer incómodo aos eleitores de direita (que provavelmente até ficaram satisfeitos com a blague tipo “vejam como o nosso passos é um traficante competente”.

  2. Gibraltar Maciel says:

    Só espero que o autor deste texto tenha isenção no que escreve. Na comunicação social já não exíste isenção. Ou são esquerda, e falam mal direíta, ou são da direita, e falam mal da esquerda. Eu hein? Haja paciência! Portugalete em que estamos???

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  2. […] Indignado, Duarte Marques acusa Pacheco Pereira de uma vida de incoerências políticas – no mínimo irónico vindo de um discípulo de Passos Coelho – e de ser contra o PSD, aproximando-se mais das ideias de Marisa Matias do que das ideias do partido, algo natural numa fase em que o PSD mantêm a social-democracia reclusa numa gaveta enquanto o BE luta pelo Estado Social que o governo PSD/CDS-PP se encarregou de esmagar. O “social-democrata” vai mais longe e presta-se mesmo ao absoluto ridículo de afirmar que o facto de ser militante do PSD valoriza o “passe” de comentador de Pacheco Pereira, como se este tivesse que provar o que quer que fosse ou tivesse falta de “mercado”, acrescentando que o PSD tem sido uma “bengala útil” para Pacheco Pereira ganhar a vida.  O PSD tem sido efectivamente uma “bengala útil“, não para Pacheco Pereira mas para muitos boys amigos do deputado Marques, a julgar pelos milhares de “especialistas” vindos directamente das fileiras da JSD que o anterior governo nomeou. Duarte Marques concluiu, uma vez mais de forma genial, afirmando que o cartão de militante de Pacheco Pereira é uma espécie de “visa gold”. Estaria ele a pensar em Miguel Macedo? […]


  3. […] o cerco em torno de Miguel Macedo ameaça asfixiar este “distinto” social-democrata, acusado recentemente de três crimes de prevaricação e um de tráfico de influências. Alguém viu por aí a direita moralista […]


  4. […] Notícias até chegou a censurar uma notícia sua que envolvia o pequeno grande barão do PSD e as ligações ao caso dos Vistos Gold, mais que muitas, eram já do conhecimento […]


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  7. […] julgamento desde Fevereiro, acusado de três crimes de prevaricação e de um de tráfico de influências, a imprensa tem sido cruel e implacável com Macedo, não havendo um dia em que o ex-ministro não […]


  8. […] mantém a habilidade de se movimentar entre os pingos da chuva, sem que uma só gota lhe acerte. Dois anos e meio após ter sido constituído arguido, o silêncio ensurdecedor da imprensa portuguesa sobre o caso, e sobre a sua ligação ao mesmo em […]

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