Controlo social digital e lucro, um paradoxo da modernidade

Os governos mantiverem sempre um controlo apertado sobre a capacidade dos indivíduos se organizarem em grupos. De uma forma mais ou menos descarada, a liberdade de associação tem sido sujeita a regulamentação e exercícios de força que funcionam como diques reivindicativos.

Por exemplo, a criação de ordens profissionais está subordinada a legislação específica; as manifestações de rua estão dependentes de determinados procedimentos; houve alturas nas quais as pessoas não se podiam juntar em grupos; e durante muito tempo, o acesso a canais de comunicação com as massas estavam sujeitos a diversos impedimentos, legais e económicos.

Sem querer discutir a necessidade e justeza de tais medidas, é factual que algumas existiram e outras continuam a existir. Excepto quando passamos para as chamadas redes sociais.

O Facebook foi o primeiro caso a transformar as comunidades online, que eram então uma tendência de nicho, num fenómeno de larga escala. Seguiram-se-lhe diversas redes sociais, todas elas centradas na característica comum da existência de um alter ego digital, com pontos de ligação à pessoa real.

Ao contrário da liberdade de associação no mundo real, no digital não tem existido nenhuma restrição legal, tudo funcionamento num processo inorgânico e apenas limitado pelas leis definidas unilateralmente pela entidade promotora de cada rede social.

Poderíamos pensar que os governos não têm reagido de forma igualmente implacável sobre a associação digital porque as suas preocupações mundanas, tais como cobrar impostos e garantir a sua reeleição, não são afectadas pelo mundo virtual do online. Mas já se percebeu há muito que assim não é. Aqui no rectângulo, tivemos o caso Maria Luz e agora, recentemente, o financiamento da greve dos enfermeiros. Nos EUA, o caso Trump/Russia ainda dará muito que falar. De uma forma geral, a rede tem funcionado como amplificador de diversas iniciativas que não teriam a mesma escala sem ela (Primavera Árabe, Coletes Amarelos em França, chamadas de atenção para perseguições políticas, etc.).

Porque não a controlam, então? Na verdade, o controlo existe com o nome de “contra-informação”. Quem não seguir os temas continuamente terá muita dificuldade em distinguir o real do falso. Mesmo assim, tem sido insuficiente para conter danos políticos.

Os chineses, com a sua cultura de partido único que tudo controla, têm sido implacáveis a dominar o turbilhão Internet. Mas os governos ocidentais, centrados no capitalismo como ideologia dominante, têm outros valores, nomeadamente o lucro, que dita muita da legislação que é produzida por cada governo.

O controlo e o lucro constituem um paradoxo no que respeita as redes sociais. Talvez os governos, inicialmente, tenham desvalorizado o impacto das redes sociais no seu modelo de negócio. Mas, quando ficou claro que os dois universos eram facetas do mesmo mundo, já a máquina capitalista tinha enterrado os seus investimentos no Facebook, no Twitter, no Instagram e em tudo o resto que mexe nesta área. E, como sabemos, se há área onde os governos não se arriscam a mexer é nos interesses dos shareholders.

Estamos neste ponto, portanto. O Estado decide como é que as pessoas se podem organizar fisicamente e as corporations, por via dos seus termos e condições, decidem como é que nos podemos organizar online. Entre dois males, o primeiro é o menor, já que os processos democráticos sempre nos dão a ilusão de algum controlo. Por outro lado, tente-se contactar a Google ou o Facebook e logo se descobre que estas empresas nem se dão ao trabalho de publicarem os respectivos contactos. E, mesmo encontrando, por exemplo, um email que funcione, será um milagre se se obtiver resposta.

O paradoxo desfaz-se, no entanto, se observarmos que o controlo social é uma premissa do lucro, valor que domina todos os outros numa sociedade capitalista. Voltamos, então, ao princípio. A capacidade organizativa dos indivíduos é mantida sobre apertado controlo, mesmo quando tal não é óbvio.

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Comments

  1. Carlos Rosa says:

    A Catarina Martins está para o BE,
    como o Sócrates estava para o PS.

    • ZE LOPES says:

      Colossal! Que perspicácia! Que erudição! É que vem mesmo a propósito do “post”! Principalmente naquela parte em que o autor afirma, mesmo no fim, cito, “mesmo quando tal não é óbvio”.

  2. Julio Rolo Santos says:

    As Ordens Profissionais não me parece que tenham sido impostas pelo poder legislativo por sua iniciativa mas pelos diferentes grupos profissionais com o intuito de se defenderem impondo eles próprios as regras de acesso á respectiva ordem. As mais conhecidas de momento são a Ordem dos Médicos e a Ordem dos Enfermeiros.Sobretudo a Ordem dos Médicos chega a propor a limitação do número de candidatos no acesso às Faculdades de Medicina para não prejudicar o seu mercado de trabalho. Com esta limitação ao longo de vários anos foi criando um défice de profissionais que hoje já se nota sobretudo nos hospitais mais afastados das principais cidades do país. Se isto é bom para alguém a Ordem dos Médicos que se pronuncie.

    • j. manuel cordeiro says:

      “As Ordens Profissionais não me parece que tenham sido impostas pelo poder legislativo”

      Nem isso é dito.

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