Sobre o atribulado processo de desconfinamento, o oportunismo político e as várias narrativas que proliferam

1) Tal como muitos de nós previam, o desconfinamento, em grande parte forçado pela elite económica, com o alto contributo da obediência canina do governo, levou a que muitas pessoas baixassem a guarda, convencidas de que a pandemia tinha chegado ao fim. Não só não chegou, como pode perfeitamente piorar e colocar o país numa situação mais crítica do que a inicial, com custos ainda mais elevados para a saúde pública, para a economia e para a imagem de Portugal no exterior.

2) Por todo o lado, mas com especial incidência nas regiões de Lisboa e Algarve, multiplicam-se os ajuntamentos, desde festas ilegais a encontros “espontâneos” junto de bombas de gasolina ou zonas de divertimento nocturno, não esquecendo algumas manifestações, mais ou menos inevitáveis, mais ou menos desnecessárias, mas também cerimónias religiosas em Fátima, que foram já palco de pelo menos uma concentração de algumas centenas de pessoas, e onde hoje foi reportado um pequeno foco de contágio. Mas a Festa do Avante, que ainda não aconteceu – e que, a meu ver, não devia acontecer – é o único problema que inquieta algumas pessoas. Percebe-se bem porquê.

3) Os ajuntamentos de jovens, nos centros das principais cidades portuguesas, são condenáveis e inaceitáveis, mas expectáveis vindos de jovens que, convencidos pela insistência no facto se não serem um grupo de risco, aproveitam para dar largas à face mais estúpida da irreverência natural da idade. Contudo, importa sublinhar que existem milhões de jovens neste país, e que os irresponsáveis que temos visto nas notícias são uma minoria que não representa o todo. Existem adultos e idosos tão ou mais irresponsáveis que estes jovens.

4) O governo, que, por várias vezes, mereceu o meu elogio – que reitero – na gestão da pandemia, parece agora desnorteado e incapaz de gerir o pós-desconfinamento. Quis agradar a gregos e troianos, quis acelerar o processo, e agora é ver António Costa, cuja postura neste processo, a meu ver, chegou a ser praticamente imaculada, a perder-se em absurdos como a história da final da Liga dos Campeões ser um prémio para os profissionais de saúde, uma espécie de cereja no topo do bolo do insulto de que os profissionais de saúde, e não só, têm sido alvo nos últimos dias.

5) Perante o cenário actual, entendo que o governo deveria tomar medidas musculadas, com sanções dissuasivas para toda e qualquer situação que possa colocar em risco a saúde pública, antes que o problema se transforme numa catástrofe. É preferível evitá-la do que correr o risco de vê-la materializar-se. Multas pesadas e prisões por desobediência podem e devem ser equacionadas. A esmagadora maioria dos portugueses, que continua a cumprir com as mais elementares regras de distanciamento e isolamento social, não podem ficar reféns de uma minoria de irresponsáveis que querem fazer festas e festinhas.

6) Os governantes de Lisboa que ponham os olhos no Norte, onde a TVI afirmava estar “a população menos educada”, que lá se revelou a mais esclarecida e competente a controlar o contágio, e que leve daqui a lição que, aparentemente, ainda não foi absorvida por outras zonas do país. Nas últimas 24 horas, apenas 7 novos casos foram registados na região Norte, contra 225 em Lisboa e Vale do Tejo. Para não falar no facto de vários municípios nortenhos não terem um único contágio nos últimos 7 dias, como é o caso do Porto, Matosinhos, Braga, Maia ou Guimarães.

7) Não obstante, a narrativa da hecatombe portuguesa é uma falácia. É verdade que temos um caso preocupante em Lisboa e Vale do Tejo, mas continuamos com um SNS a anos-luz do ponto de ruptura. Os números hoje divulgados revelam que existem 407 doentes internados, menos 15 que ontem, e 69 nos cuidados intensivos, menos 1 que ontem. Quase tantos como o número de recuperados (470). E está tem sido a tendência dos últimos dias, apesar daquilo que se passa em Lisboa e Vale do Tejo, onde se continuam a registar a esmagadora maioria dos novos casos.

8) Ainda somos um dos países do mundo que mais testa por milhão de habitantes. Fazer comparações entre Portugal e países africanos, centro e sul-americanos ou asiáticos é um desonesto e imbecil embuste de natureza política, uma artificialidade patética criada por uma direita refém de André Ventura, uma vez que estes países praticamente não testam, nem tem capacidade de produzir registos fidedignos, quando não são ditaduras, como a chinesa ou a russa, que manipulam os números desde o primeiro momento. Segundo o site Worldometers, Portugal é o 21º que mais testa, num universo de 215 países ou regiões analisadas, sendo que, dos 20 que se encontram à nossa frente, metade são microestados. Não é à toa que Donald Trump quer travar o número de testes efectuados à população estado-unidense. Quanto menos se testa, menos novos casos confirmados surgem a cada dia. E isso é bem mais preocupante e imprevisível do que testar em massa, como se tem feito, e bem, por cá.

9) Finalmente, recordo que, no início do desconfinamento, António Costa comprometeu-se a dar um passo atrás, caso a situação se descontrolasse. Assim sendo, não sei pelo que espera para tomar medidas rápidas e eficazes nas zonas descontroladas. Se necessário for, os municípios de Lisboa e Vale do Tejo com situações mais críticas deverão, à imagem daquilo que aconteceu com Ovar, ser sujeitos a um cordão sanitário e a medidas de isolamento idênticas às praticadas durante o Estado de Emergência. Entre alimentar ilusões e tomar medidas drásticas, mas necessárias, orientadas para proteger a saúde pública, a opção pela responsabilidade é simples e óbvia.

Comments

  1. já lá vou... says:

    O governo, que, por várias vezes, mereceu o meu elogio 💩💩💩

  2. Rui Naldinho says:

    Não há volta a dar-lhe. Portugal ocupa neste momento o 19.° lugar no número de mortes por milhão de habitantes, segundo este site:
    https://www.statista.com/statistics/1104709/coronavirus-deaths-worldwide-per-million-inhabitants/
    Mas de facto estas estatísticas dizem-me pouco. Há países cujos números são fictícios. Jamais acreditarei neles. Hungria? Polónia? México?
    Com excepção da Áustria, Dinamarca, Noruega e Alemanha, na Europa ninguém nas mesmas circunstâncias demográficas, está melhor do que nós.
    Na pretérita semana fiz um curto período de férias na Beira Baixa e Alto Alentejo. O país turístico continua parado. Restaurantes de qualidade ainda encerrados. Mesmo nas zonas de calor, onde há a possibilidade de esplanadas.
    Os hotéis com meia dúzia de hóspedes. Os museus às moscas. Vou ser sincero. Não gosto muito de grandes confusões. Fiz umas férias com um misto de desafogo e de desilusão. Se não quero ajuntamentos, também não desdenho a companhia de gente ao pequeno almoço, no hotel. De uma boa conversa à mesa do café, ou no átrio de um museu. Fui o obrigado a tomar o pequeno almoço no quarto do hotel, porque a sala de refeições, ****, estava fechada por questões de segurança. Um excelente pequeno almoço, numa confrangedora clausura. Visitei ao todo quatro museus, nos quais as guias nos acompanhavam de forma personalizada. Perguntei qual o número de visitantes? Pouco mais do que duas dúzias por dia. Antes eram às centenas.
    Porra, não nasci para monge. Quero viver, caramba.
    É pedir muito?

    • Cristina says:

      Vivo na cidade do Porto. Antes, com tanto turismo, tornava-se quase caótico ir à cidade. Com tanto estrangeiro que por lá andava, quase me sentia também eu de férias num outro país qualquer, sem nunca sair da minha cidade. Hoje quando vou ao Porto, acho a cidade muito triste vazia. Falta-lhe o movimento e a alegria que se viva por lá até há pouco tempo.

    • Paulek says:

      Fictícia, Sr. Rui Naldinho, deve ser a sua porventura real mas pouco fundada ideia sobre a Polónia. Pelo que se sabe, esta andou sempre um passo à nossa frente no ataque à pandemia. Há uma dúzia de anos que lá passo férias, numa pequena aldeia perto de Katowice, a minha netinha Paulina é filha de pais polacos e tem aquele povo o que a nós nos falta: estrutura. E nós, de conjuntura em conjuntura, a do So Ares, a da troica, agora com a do covid, crise e mais crise, espere sentadinho que logo vê: não os 50 anos mínimos para tentar alterar o que é estrutural num povo e num país duma qualquer região do planeta ( por favor leia a publicação de Ana Moreno, e claro que falo do conceito de estrutura na História ) mas ver o descalabro abissal entre uns e outros. E não me venha com a lamentável realidade dos fascistazinhos nacionalistas que até a Justiça querem controlar lá na Polónia; afinal de contas após a queda do Muro de Berlim vieram os juízes polacos ao nosso país e decalcaram em meia dúzia de meses, como por assim dizer, a nossa Constituição, uma das mais avançadas do mundo, porque no que é estrutural e com coisas sérias os polacos não brincam. Já os portugueses…! A caminho dos 50 anos de democracia temos isso mesmo: muito boas leis, mas… o melhor povo do mundo, mas… muito turismo, mas…
      Estrutura, ainda nem sequer quase começámos. Imperam a CM Tv e a Tvi e quejandos ah sim e uns badamecos duns jornalistas que não são jornalistas e para que voltem a ser jornalistas parece que têm também de passar a ser funcionários públicos e o estúpido Expresso Miguel, o Adão, pessoas que nunca pensei tão tacanhas, tal o ódio revelado à função pública, ” porque, caramba, se os broches dos func. Públicos têm direitos ora porra que os magníficos jornalistas têm de ter também”. De forma que, estimado Rui Naldinho, não o condeno por ter corrido atrás d’ Os loucos da rua Mazur, polémica recente inventada, claro está pelos tais jornalistas a propósito da referência aos campos de concentração dos polacos, veja bem!
      Por ultimo, sendo uma pessoa informada, como pode o Sr. ter uma ideia tão negativa dos médicos da Polónia? Estamos na era da Internet, homem!
      Mas Estrutura é outra coisa. Fique bem e, em polaco: dobra noc.

  3. Julio Rolo Santos says:

    O governo decretou o desconfinamento para fazer o jeito aos cidadãos, já fartos de tanto tempo de confinamento, mas alguns cidadãos não se comportaram como gente civilizada ao ignorarem o risco de contaminação ao vírus que ainda subsiste. Para estas situações, o governo devia-lhes cair em cima aplicando-lhes elevadas coimas e a obrigatoriedade de prestarem serviço cívico nos cuidados intensivos hospitalares.

  4. luis barreiro says:

    Sociedade egoísta: … pessoas egoístas que só pensam nos benefícios delas sem pensar nos prejuízos das outras.

    Quem tem emprego garantido é quem manifesta mais egoísmo perante os que perdem emprego.

  5. Filipe Bastos says:

    “Mas a Festa do Avante … é o único problema que inquieta algumas pessoas. Percebe-se bem porquê.”

    Talvez pela tremenda hipocrisia? Pela gritante dualidade de critérios? Pela total falta de vergonha na cara?

    Nada de novo no PCP, aliás: basta lembrar o último 1º Maio, ou o seu célebre património imobiliário, em cuja especulação vai mamando, ou – a verdadeira cereja no bolo – a descarada fuga aos impostos na sua festarola anual.

    E quem lhe recorda estas verdades pedestres, João Mendes, não é um direitalha a espumar de raiva pelos comunas. Noutros lados até me chamam comuna. Apenas tenho olhos na cara e tento ser isento. Já experimentou?

  6. Filipe Bastos says:

    Quanto aos terríveis “ajuntamentos” de jovens, esses facínoras, e a minuciosa contabilidade de infectados, mais 225 aqui, mais 7 acolá, é tudo mesmo muito preocupante.

    Todos os dias morrem uma a dez pessoas com covid… em dez milhões. Há 407 pessoas internadas e 69 nos CI, diz o João. No país inteiro. A esmagadora maioria dos infectados tem sintomas leves a nenhuns. A esmagadora maioria das vítimas tinha mais de 70 anos e várias doenças.

    No mundo – 8 mil milhões de pessoas – morrem por dia 3.000 a 5.000 com covid. Em qualquer dia normal, com ou sem covid, morrem 150.000 pessoas.

    Sei o que leva a direita a subestimar uma pandemia – sentem-se seguros nas suas mansões e os lucros valem mais que a maralha – mas não vejo o que leva a esquerda a exagerar tanto o covidas.

    “Multas pesadas e prisões por desobediência”? Por uma gripe que só realmente afecta os muito velhos e doentes? O João quer mesmo confirmar o estereótipo do esquerdalha ansioso por controlo e repressão, não quer?

  7. Paulo Marques says:

    Bem, anda toda a gente a ir a festas por toda a Europa, vamos melhorar o ranking rapidamente.
    E já temos solução europeia, fazer um concerto para angariar fundos… lol

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