Armando Vara soma e segue. Encarcerado.

Armando Vara, figura proeminente do Partido Socialista na era socrática, foi deputado, secretário de Estado, ministro e exerceu ainda as funções de administrador da CGD e de vice-presidente do BCP. Apesar do percurso de “poderoso”, Vara está a cumprir o terceiro ano de uma pena de cinco, no Estabelecimento Prisional de Évora. Hoje foi condenado a mais dois anos de prisão efectiva, por crime de branqueamento de capitais. Serão, no total, sete anos de prisão efectiva.

A justiça portuguesa não goza – nunca gozou – de grande popularidade. Por culpa própria e da incompetência/cumplicidade dos legisladores que, efectivamente, tomam decisões. Não obstante, e perante os desenvolvimentos dos últimos meses, e, em particular, das últimas semanas, não me recordo de outro momento, na história deste país, em que tantos intocáveis tenham perdido a aura inimputável como hoje. Nem em quase cinco décadas de democracia, muito menos no tempo do regime estruturalmente corrupto de Salazar. E isso, num tempo em que a democracia é diariamente atacada por aqueles que querem regressar ao autoritarismo estruturalmente corrupto e totalmente impune, é digno de registo.

Comments

  1. POIS! says:

    Concordo com tudo. No entanto, há aqui um pequeno apontamento que queria deixar à reflexão..

    A esmagadora leva de condenados por corrupção é, até agora, gente que fez grande parte da sua vida profissional no sector público.

    E porquê? Porque aí é mesmo difícil ocultar a riqueza ilícita. Um caso típico é o de Isaltino: se não estou em erro, o seu percurso profissional foi sempre no Estado: Procurador, professor universitário, cargos políticos variados. Não havia maneira de justificar, pesem embora os bons vencimentos, tudo o que tinha nas mãos.

    José Sócrates é um caso parecido. Engenheiro municipal e carreirista político são bons empregos, mas não dão rendimento suficiente para se gastarem milhões em férias, apartamentos de super-luxo e coisa e tal. Daí a entrada em cena da suposta “fortuna da mãe”, um mito que ainda arrastou muita gente. A mim não, porque sempre desconfiei de uma coisa: na Covilhã, em Coimbra, enquanto foi estudante e trabalhou não se lhe via fortuna “de rico”. Qualquer pato-bravo local ostentava bem mais.

    Uma pergunta: e porque não foi discutida em tribunal, do mesmo modo, a origem da fortuna do Carlos Santos Silva? Ora, porque foi obtida no “privado”. Aí todas as fortunas estão justificadas. É o “sucesso” a trabalhar, senhores! O superjuiz Alexandre “o grande” já tem mais dificuldade em descobrir a coisa.

    Vara, Penedos & Penedos, etc. também não andaram longe. Cargos políticos, empresas públicas, tudo é mais ou menos fácil de escrutinar. Já o Luís Filipe Vieira tem tudo justificado: trabalha desde os 14 anos, e antes disso já recolhia as moedas deixadas pelos elefantes no Jardim Zoológico. Depois meteu-se nos pneus e, como todos sabemos, meia dúzia deles já justificam uma fortuna de milhões. Ou talvez não.

  2. Rui Naldinho says:

    Pacheco Pereira escreveu em tempos que estranhava o facto de em Portugal os presos por corrupção, tráfico de influências, evasão fiscal, serem todos oriundos das classes mais baixas. Foi assim com Isaltino, Duarte Lima e Armando Vara, entre outros.
    Enquanto eu não vir Salgado e Rendeiro, por exemplo, a esturricarem na prisão, por vários anos, não acredito um pintelho na Justiça deste país.

    • POIS! says:

      Ora bem! Isso também!

      Ninguém tem seguido a malta do “Compram’isso Portugal”, por exemplo. Ou da pujante “Ongoing”, em português “Cávaiindo”…

  3. Filipe Bastos says:

    Pois tenho de concordar com o POIS e o Naldinho. A justiça só funciona, ainda assim mal e porcamente, quando o peixe não é realmente graúdo. E o peixe mais graúdo, fora Mários Chulares, Múmias Cavacas e pouco mais, está no privado.

    Nada que afecte o entusiasmo do João Mendes: eterno optimista, incurável ingénuo, continua a festejar estas vitoriazinhas para tuga ver como se fossem grandes triunfos da suposta ‘democracia’.

    É melhor que nada? É sim senhor. Mas irá o Vara cumprir sete anos? O Isaltino, recordo, mal cumpriu um. E o dinheirinho? As propriedades, as contas na Suíça e afins, as acções, as pensões milionárias… a mama, o saque do Vara e da famelga dele?

    Só se fala da condenação; disso não se fala. Já reparou, João?

  4. JgMenos says:

    Já cá faltava: ‘ no tempo do regime estruturalmente corrupto de Salazar’.

    Os abrilescos sanearam quanto puderam mas não puderam acusar de corrupção UM SÓ dos governantes do regime que derrubaram.
    Nessa época, enquanto um bom número estava ocupado a estruturar o puteiro dito democrático, o PC tomou conta do MP, e não pode pôr um ministro, um secretário, um alto funcionário sequer, com uma acusação quanto mais uma condenação por corrupção.

    Esta canalha atolada na merda sempre se tenta limpar caluniando o Estado Novo!

    • POIS! says:

      Pois é! Lamentável!

      É uma grossa falta de educação caluniar defuntos!

    • POIS! says:

      Pois era!

      No Estado Velhinho era tudo uma santidade! Tudo muito tenreiro, perdão, tenrinho.

      E as cabecinhas salazarescas, essas, eram muito inspiradas pelo Espirito Santo, muito devotas de São Borges e São Irmão.

      Corrupção? Impossível! Ou não estivesse lá o Cerejeira para os encaminhar para o Inferno. Bastava um telefonemazinho ao Satanás, embora por vezes a coisa demorasse. As telefonistas eram umas calonas. Era tudo mulheres dos mangas de alpaca, entravam todas por cunhas.

  5. Tal & Qual says:

    Este menos é uma besta !
    No tempo do botas todos os portugueses eram corruptos…
    Desde o policia de transito, (esta policia foi extinta por isso mesmo) até aos Ministros, a quem se pagava tudo… Vê o caso do Tenreiro, Quem queria pescar, tinha de lhe pgar!

    • JgMenos says:

      Ó minha grande besta!
      O Tenreiro não emigrou, ficou cá e ninguém lhe encontrou fortuna ou acção que o condenasse.
      E percorre outras figuras do regime e encontra-me um que a tua Abrilada tenha declarado corrupto.

      • POIS! says:

        Pois é! Temos, ao menos, de dar razão ao dito cujo:

        Quando o roubo é legal não há corrupção!

        Bestial, ó Menos!

      • Paulo Marques says:

        Lá isso, os Champalimaud, Ricciardi, Espirito Santo e demais famílias de bem passaram sempre pelas gotas da chuva.

  6. Tal & Qual says:

    Este quadrupede não refere que meia dúzia de grandes empresas dominavam os portugueses, pagando-lhes uma miséria e os mantinham sem escolas, sem médicos, sem habitação e lhes deu uma guerra em 3 frentes e que durou 13 anos. Enfim, deixemos de escrever para esta besta quadrada, faxolas!

    • POIS! says:

      Ora pois. No seu comentário há um elemento sobre o qual tenho a tendência a não estar de acordo: é a expressão “besta quadrada”.

      Você tem a certeza? É mesmo quadrada? Não sei se acredite. Como é que o “Tal & Qual” chegou a tanta precisão geométrica?

      • Abstencionista says:

        Aqui vai uma “balada de protesto”, (muito gira), dedicada ao meu querido amigo Xô Pois!

        Título: “O coice cobarde”

        Tambor: pumpumpum…

        “O idiota do Poio
        É uma besta quadrada
        Quando olha pró espelho
        Vê essa besta chapada.”

        “Gosta muito de dar coices
        Em aventar distraído
        Mas quando lhe toca a vez
        Fica com o ego ofendido.”

        Coro:
        eheheheheh…
        eheheheheh…
        eheheheheh…
        eheh…eheeh

        Castanholas: clopclopclopclop…

        • POIS! says:

          Tá bem! Castanholas…vestidinho á sevilhana…

          Quão sexy está o Badalhoco Abstencioneiro!

          Já que gosta tanto de versos:

          “O lerdinho Abstencionista,
          na badalhoquice insistiu.
          Pois que vá mandar versinhos,
          À sostrinha que o pariu.

          Bem pode esperar sentado.
          A conversa acaba aqui.
          Pode ir já para a caminha,
          Dar beijinhos ao bobbi”

          CORO:

          “Abstencionista bacoco,
          Daqui não levas mais troco” (bis, tris, quadris…)

  7. Filipe Bastos says:

    Ah, a velha discussão de qual o regime mais corrupto: o Estado Novo ou a partidocracia abrileira.

    Primeiro, a questão não é só do regime; é da cultura, do relaxe, da permissividade do povo. Mais que tolerar, este aceita a corrupção.

    Segundo, há certa degradação moral também alheia aos regimes: a geração dos meus avós tinha mais brio que a dos meus pais, que por sua vez tinha mais que a minha. Isto talvez se deva, em parte, às crescentes facilidades da modernidade.

    Quanto a políticos, é inegável que Salazar era mais sério do que a escumalha pulhítica PS/PSD/etc. dos anos 80 até hoje.

    Mas era outro tempo: Hitler ou Estaline também não deviam ser corruptos. Porque o seriam? Tinham poder ilimitado vitalício, tudo e todos às suas ordens. Iam vender-se a quem, para quê?

    Enquanto regime e sociedade, é provável que o Estado Novo fosse menos corrupto que este esgoto partidocrático. Não é difícil. Mas é uma comparação inútil; o Estado Novo morreu e não volta. Nem faz falta nenhuma. Precisamos é duma democracia.

    • POIS! says:

      Sabe uma coisa?

      Você não pode reduzir tudo ao discurso moraleiro que lhe é habitual. Os tempos são diferentes. As estruturas económicas também.

      Não é preciso recuar séculos: nos anos 50, nos EUA, ser banqueiro era uma dor de cabeça. Estou a citar de cor e sem me lembrar bem das referências, mas li que no Chase Manhattan Bank, por essa altura um “banquito” da cidade de Nova Iorque, os administradores e quadros superiores ganhariam pouco mais de cinco vezes o ordenado do empregado mais baixo. E os banqueiros emprestavam o seu dinheiro, exigiam garantias e arriscavam a fortuna se corresse mal.

      Rokfeller, entre outros da época, levou umas boas dezenas de anos a acumular a célebre fortuna.

      Compare com os dias de hoje…ganha-se 100, 200, 1000 vezes mais que o empregadito e faz-se fortuna em três meses, se não for menos.

      A propósito do regime do Estado Velhustro Salazaresco, há gente que passou pelo exército, em plena Guerra Colonial, que lhe sabe contar como se passavam as coisas ao mais alto nível no que diz respeito a compras. O meu pai, que trabalhou para industriais têxteis contou-me várias histórias bem significativas: só carros “Opel” novinhos em folha, o patrão comprou três. E até um Mercedes (comprado em conjunto com outros dois industriais) foi parar às mãos de um Senhor Generaleiro, ou Brigadal, ou lá que é.

      Para quê? Ora para que ganhassem um concurso de fornecimento de pano para fardas, o que foi fácil porque…as amostras de tecido que enviaram eram as mesmas que tinham recebido como referência, apenas recortadas de outra maneira…

      Escusado será dizer que o tecido real era de muito menor qualidade. Mesmo assim, ao que parece, melhor que outros anteriores e posteriores, feitos na região de Lisboa…

      Repare numa coisa: hoje o Estado gasta, proporcionalmente muito mais. Isso proporciona negócios que, sob a aparência de decisões racionais, podem representar boas oportunidades de enchimento de bolsos vários.

      Tomemos como exemplo o Serviço Nacional de Saúde: proporciona a existência de grandes negócios, alguns cheirando a favores e corrupção. mas quando você entra num hospital é tratado, não precisa de pagar a ninguém umas “propinas” como acontece noutras paragens.

      E acontecia em pleno Estado Velhustro Salazaresco, pode crer.

    • Filipe Bastos says:

      Pois a banca privada nunca foi boa, mas sim, era melhor antes da desastrosa mistura entre retalho e ‘banca de investimento’, na prática mama em roda livre. Reagan e Thatcher deram cabo disto tudo, como decerto sabe.

      Rockefeller, embora talvez não tão mau como tantos robber barons da sua era, não deixa de ser um mega-mamão. Tal como a sua fortuna obscena terá requerido mais anos que muitas de hoje, mas não deixa de ser obscena.

      O seu ponto é que o mundo mudou, a desigualdade aumentou, a mama piorou. De acordo; está cada vez pior. Mas qual a objecção ao meu “discurso moraleiro”? E porquê moraleiro? Acha que devemos tolerar trafulhas e mamões?

      O Estado gasta hoje muito mais, a (pseudo-)democracia é mais vulnerável a trafulhices, etc. Novamente, de acordo. E ninguém discute que se vive hoje melhor do que no Estado Novo – mas não é isso que está em causa. Nunca foi.

      Cinquenta anos depois, havíamos de estar pior? O que parece é que muitos abrileiros se contentam com pouco. Muito pouco.

      • Paulo Marques says:

        Não era tão mau, era o pior, mas não tinha nada de mamão, ou de corrupto. Era tudo limpinho, limpinho, tal como eram os amigos santos de Salazar exactamente das mesmas famílias que conhecemos tão bem recentemente. Bora legalizar tudo outra vez, é a melhor forma de acabar com a corrupção.

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