Presidente Oliveira da Figueira


Tivemos o sr. Teófilo e as suas positivas burrices. Logo a seguir, chegou o sr. Arriaga patrocinando “golpe de espadas” e descoroçoados lamentos acerca de quem o rodeava e daquilo que significava a instituição. O Bernardino, esse que não merece o senhor, consistiu numa tisana de cogumelos venenosos, engrossada com Agarol. A brincadeira Sidónio, coisa que ficou entre o pingalim à entrada da sopa dos pobres e o general Tapioca. Os impotentes srs. Almeida e Gomes e as águas paradas do sr. Carmona que por uns tempos deram a beber a mais uma excelsa burrice, de seu nome Higino Lopes. O loquaz sr. Thomaz e o arrependido que se des-arrependeu Spínola. O saltitante sr. Gomes II, do esquecido crachá da PIDE e do Movimento para a Paz e Cooperação, a expensas dos generosos cofres da URSS; o nosso Monk adiado que se conhece por sr. general Eanes e entramos, finalmente, na 3ª República em toda a sua plenitude.

Vamos então, à conhecida paternidade da geração rasca, a da conversa fiada dos “Oliveiras da Figueira”.

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16 de Março de 1974: falsa partida (Memória descritiva)

Como julgo já aqui ter dito, através de um jornalista amigo que, no quadro das suas funções, assistia às reuniões do MFA, fui seguindo o caminho que as coisas estavam a tomar. Naquele princípio de 1974, as reuniões que fazíamos na Rua de Silves, na Parede, ora em casa do Joaquim Reis, um compadre meu ou na garagem de um outro elemento do grupo (quando havia muita gente), eram animadas pelas informações que o tal jornalista ia trazendo. Sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, a tropa sairia para a rua.

Por isso, naquele sábado pela manhã, quando começámos a ouvir as notícias na rádio e na televisão, pensámos que era o “tal” movimento que andávamos a seguir há meses. Tínhamos muita esperança e quando verificámos a facilidade com que a tentativa foi neutralizada, apanhámos uma grande desilusão. Só na reunião da semana seguinte ficámos tranquilos – o “tal” movimento não fora ainda desencadeado. O que se passou então no dia 16 de Março de 1974? [Read more…]

11 de Março – os dias seguintes (Memória descritiva)

Como geralmente acontece com os golpes militares, se falham, servem de pretexto para consolidar a posição de quem os neutralizou – foi o que aconteceu com o golpe spinolista – o rumo esquerdista dos acontecimentos acentuou-se: nacionalização da banca, reforma agrária, institucionalização do MFA, substituição da Junta de Salvação Nacional pelo Conselho da Revolução. Este novo órgão deliberou aprovar a opção socialista da Revolução. Mas vejamos dia a dia.

Logo em 12 de Março foram encerradas as fronteiras com Espanha a partir das 14.30 horas. O envolvimento dos serviços secretos espanhóis no golpe spinolista foi evidente – apoio logístico e, provavelmente numa fase mais adiantada, a promessa de ajuda militar. Os franquistas ajudariam a salvar a «democracia» e a esconjurar a «ameaça vermelha». [Read more…]

Memória descritiva: Otelo

Foi numa tarde de sábado do Verão de 1974, dia 13 de Julho, mais precisamente. Em casa do meu compadre Joaquim Reis, na Parede, eu, ele, o Jaime Camecelha, as respectivas mulheres, estávamos à volta de umas cervejas e de uns petiscos que a comadre Lurdes preparara. Excepcionalmente, naquele dia não fôramos a nenhuma manifestação e gozávamos o merecido descanso, após uma semana de trabalho e de luta. As crianças estavam numa sala ao lado com uma merenda adequada.

Na televisão, víamos distraidamente uma cerimónia qualquer transmitida em directo. Demos mais atenção quando vimos que estava ali toda a Junta de Salvação Nacional. O general Jaime Silvério Marques fazia um discurso balofo onde exaltava a juventude de espírito dos membros da Junta de Salvação Nacional, todos eles oficiais generais, chamando a esse ilustre grupo os louros da Revolução de Abril. Nós ríamos e íamos comendo, bebendo e conversando. Era a conversa de xaxa do costume.

Foi então que um jovem major de cabelos precocemente embranquecidos, elevou a voz e perguntou: «-Dá-me licença, meu general?» Silvério Marques apanhado de surpresa disse que sim. Spínola que conhecia bem aquele major de artilharia esboçou um sorriso. Acho que foi o meu compadre quem disse, referindo-se ao major: «- Este gajo parece o Nasser!».E o «nasser» sai-se com esta:

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A máquina do tempo: foi há 34 anos

 

 

Faz hoje 34 anos, por esta hora, uma boa parte dos portugueses sentia-se triste – a festa da liberdade acabara – falava-se no advento de uma «democracia musculada», fosse lá isso o que fosse. Um tal tenente-coronel Ramalho Eanes, que fora do meio militar ninguém conhecia, aparecia nos noticiários como o senhor desta guerra – óculos escuros, patilhas compridas, frases curtas e com uma pronúncia estranha, não auguravam nada de bom. A comparação com Pinochet era inevitável. Temia~se que se reproduzisse aqui o que dois anos antes ocorrera no Chile. Na foto da época, vemos a seu lado, outros dois protagonistas do movimento: ao centro, Jaime Neves, conotado com a direita militar, no outro extremo Vasco Lourenço, signatário do documento dos «Nove» e que se dizia estar ligado ao Partido Socialista. Neves e Lourenço eram conhecidos. E quem seria o «gajo» de óculos escuros? Soube-se depois que também estava ligado ao chamado «Grupo dos Nove» e que fora encarregado de encabeçar o movimento militar de 25 de Novembro.

 

Havia outros portugueses que respiravam de alívio – àquilo a que chamávamos «festa», chamavam «choldra», «bagunçada», «anarqueirada»… Passados 34 anos, já é possível falar dessa data (quase) sem rancores, nem falsos clichés. E, a propósito, o meu sentido de justiça obriga-me a saudar a transformação que se produziu em Ramalho Eanes – o bisonho tenente-coronel converteu-se num homem culto, ponderado e apresentável. Hoje em dia, seria uma opção para a Presidência. Em princípio, eu não votaria nele, mas seria uma figura respeitável. Coisa que não era há 34 anos. Mas não nos antecipemos. A nossa máquina do tempo vai viajar até ao dia 25 de Abril de 1975.

 

É matéria ainda sensível, apesar da distância de 34 anos que nos confere já uma apreciável perspectiva histórica do acontecimento. Vou cingir-me à síntese dos acontecimentos e a uma ou outra opinião pessoal, emitida sem prosápias de analista (que não sou), na perspectiva do simples cidadão que tem, por enquanto, o direito, e até o dever, de opinar. É a minha perspectiva, não viso a verdade científica, nem sou imparcial. Sujeito-me às críticas de quem não concordar, mas, pelo menos, tento não ser acusado de falsear a história.

 

Um documento emitido por oficiais da esquerda militar em 8 de Julho de 1975, em pleno «Verão Quente» – «Aliança Povo/MFA – para a construção do socialismo em Portugal», enchera de esperança o povo de esquerda. No mês seguinte, um documento provindo da esquerda moderada tentou aplacar o incêndio que lavrava de Norte a Sul – o chamado «Documento dos Nove», sem aludir ao anterior, recusava o modelo socialista da Europa de Leste, bem como o modelo social-democrata da Europa Ocidental.

 

Propugnava um socialismo alternativo, apoiado numa democracia pluralista, respeitadora das liberdades, direitos e garantias fundamentais. Note-se que o primeiro documento também não defendia o comunismo do tipo soviético e, por isso, não colheu grande simpatia entre as hostes pecepistas; mas deu corda às esperanças da esquerda extra-parlamentar que inundou as ruas com as suas manifs entusiásticas.

 

As posições extremavam-se. No Norte as sedes dos partidos de esquerda, eram assaltadas e destruídas. Os confrontos multiplicavam-se com o ELP (Exército de Libertação de Portugal), criado pelo inspector da PIDE, Barbieri Cardoso, presidido pelo general António de Spínola e sediado em Espanha, a levar a cabo alguams acções contra os militares e contra os partidos de esquerda. O espectro da guerra civil assolava o País.

 

Passado um «Verão quente» e um princípio de Outono agitado, o início de Novembro fora marcado com as notícias vindas de Angola – recrudesciam os combates entre as forças do MPLA, reforçadas com unidades cubanas, e as da UNITA, apoiadas por tropas sul-africanas e mercenários portugueses. Em 11 de Novembro, foi proclamada a independência. Enquanto decorriam as cerimónias em Luanda, na presença do almirante Rosa Coutinho, que cessava as suas funções de Governador e delegava o poder nas mãos de Agostinho Neto, escutava-se nas imediações da capital o troar das peças de artilharia, pois os combates prosseguiam. Os ecos dessa luta ouviam-se também em Portugal.

 

No dia 12, o Palácio de São Bento, sede do Governo e da Assembleia Constituinte, era cercado pelo trabalhadores da construção civil que sequestraram os deputados durante várias horas. No dia seguinte, uma grande manifestação, com centenas de milhares de pessoas, percorria as ruas da capital, exigindo o advento do Poder Popular.

No dia 20, o Governo auto-suspendeu as suas funções exigindo que as forças da ordem garantissem o normal funcionamento das instituições. No dia seguinte, no Ralis (Regimento de Artilharia de Lisboa), realizava-se um juramento de bandeira sui generis – os soldados juraram e saudaram a bandeira de punho cerrado e erguido.

 

A temperatura atmosférica, matizada pelo chamado «Verão de São Martinho» era amena. A temperatura política era escaldante. O abismo aproximava-se quase sem que para ele caminhássemos. No dia 24, uma gota fez transbordar a taça da paciência conservadora – o Conselho da Revolução tomou medidas que a muitos desagradaram – substituiu alguns comandantes militares, dissolveu a base-escola de pára-quedistas de Tancos. Tropas pára-quedistas ocuparam de imediato as bases da Ota, de Tancos e de Monte Real. Elementos do Ralis posicionaram-se nas principais entradas de Lisboa, controlando estrategicamente os acessos à capital.

 

O presidente Costa Gomes decretou o estado de sítio. Chamou Otelo Saraiva de Carvalho ao Palácio de Belém. Otelo, recorde-se, graduado no posto de general, comandava o COPCON (Comando Operacional do Continente), a força operacional mais bem apetrechada e potencial foco de uma reacção violenta e quiçá decisiva da esquerda militar. Otelo foi à reunião com Costa Gomes, sabendo que, na prática e sob outra designação, estava a ser detido, retido, impedido de actuar,  use-se o eufemismo que se quiser para prisão, porque na realidade foi isso que aconteceu.

 

E aqui, abro um parêntesis, para contestar algumas acusações que têm sido feitas (inclusivamente no Aventar) a Otelo. Conheço-o bem, somos amigos, nessa medida serei algo suspeito. Pese essa circunstância, reconhecendo que poderá não ter sido ao longo do processo revolucionário (e, sobretudo, depois) um modelo de ponderação, mas ao deixar-se deter em Belém, evitou conscientemente uma guerra civil. Sem ser no Aventar, já ouvi imbecis e atrasados mentais a acusar o Otelo de estupidez. Reajo sempre mal, pois sei que lhe devemos que o 25 de Novembro não se tenha tornado numa data negra e não se tivesse saldado por muitas, muitas mortes. Otelo pediu a demissão do COPCON que ficando decapitado permitiu que o Regimento de Comandos da Amadora, quase sem constrangimentos dominasse os pontos estratégicos de Lisboa, acabando por controlar a situação.

 

Faz hoje 34 anos, a esta hora a «festa« acabara. Voltava-se à «normalidade». Pergunto agora aos militares de Novembro – todos ou quase todos tinham sido militares de Abril: – Esta normalidade que temos, mais de três décadas depois, era a que sonh
av
am em Abril de 74? E em Novembro de 75 foi  esta a normalidade que quiseram proporcionar ao País?