Portuenses Desterrados e Descartados

Não votaram, no passado dia 29, pelo menos os 9,7% da população portuense autóctone perdida para os concelhos limítrofes ao longo dos últimos dez anos. Também duvido que o reumatismo do envelhecimento portuense, cujo índice é de 189,9 face à Região Norte, pudesse exercer plenamente o seu direito, entre queixas de artrite, falta de ar, e sobretudo a maldita solidão. 9,7% de exilados mais uma escandalosa abstenção de 47,4%, mais os votos nulos 1,9%, somados aos votos em branco 2,5%, determinam uma vergonhosa e questionadora maioria de não exercentes do direito de votar, no Porto: 61,5%. Perante isto, não pode haver triunfos de pacotilha nem regozijos parolos. Humildade. Somente humildade.

É este, só pode ser este, o grande ponto de partida para Moreira cumprir bem o seu desígnio, inicialmente a contragosto, mais empurrado que voluntário, o que não tem mal nenhum se pensarmos no Mestre de Avis, o qual parece não estava lá muito pelos ajustes para assumir o fardo de liderar aquela etapa capital rumo à nossa admirável emancipação ibérica. Atiraram-no em frente e deu plena conta do recado.

Não espero outra coisa de Rui Moreira.

Peste parlamentar

No mural do Rui Zink, descobri, em boa hora, uma ligação para mais um texto que ilustra as qualidades da classe política. Carlos Peixoto, deputado do PSD, resolveu brindar o povo com a sua opinião sobre o envelhecimento do país.

Usando de uma imagética elegantíssima, produz esta frase lapidar, mesmo ferida pelo uso deficiente da regência: “A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha.”

Depois de debitar alguns números sobre o decréscimo da natalidade, mostra-se preocupado, quase revoltado, com a emigração, o que lhe poderá valer um processo disciplinar, uma vez que foi o próprio primeiro-ministro a aconselhar os portugueses a emigrarem.

É então que, poeticamente, passa a repetir, assustadoramente, o adjectivo “assustador”, recitando a ladainha das inevitabilidades, como bom vigário da igreja dos últimos dias do Estado Social, essa mentira inventada por quem não quer assumir a verdadeira origem da dívida pública. Como qualquer membro de uma seita fundamentalista, descobre hereges combustíveis nos funcionários públicos e nos portadores de cabelos brancos. [Read more…]

Passos Coelho liberaliza as rendas da habitação ?

Não temos um mercado de rendas de habitação o que empurra os jovens para a compra de casa. E que leva a juventude a fugir do centro das cidades, ou porque as rendas são insuportáveis ou porque as casas não têm condições de habitabilidade.

Os senhorios, com as rendas ao nível a que estão, naturalmente que não fazem obras de reabilitação, com a consequente degradação do parque habitacional. Uma hipótese já consagrada na Lei é os inquilinos fazerem as obras e descontarem o valor nas rendas futuras, ou os senhorios interessados deitarem mãos à obras e subirem a renda no futuro. Não funciona. Pelo meio há um batalhão de burocratas, com prazos, visitas e relatórios que levam inquilinos e senhorios para guerras de paciência a ver quem desiste.

Na Baixa de Lisboa, nos prédios que ameaçam ruir com perigo para os cidadãos, a Câmara toma posse administrativa dos prédios e faz as obras. Há já dezenas de prédios seiscentistas onde a intervenção foi feita com êxito e outras estão em curso. São medidas avulsas que vão tendo algum impacto mas só uma política consistente de liberalização das rendas pode acudir às nossas cidades. Há grandes e vários problemas em equação. A desertificação dos centros das cidades, o envelhecimento da população residente, o entrar e sair de milhares de carros de quem vive fora da cidade e trabalha dentro dela, com as despesas inerentes, o tempo perdido e a saúde arruinada.

Os inquilinos não têm poder financeiro para pagar as rendas e os senhorios não têm poder financeiro para fazer as obras. Parece um círculo vicioso ! Será? A prestação da compra da casa, o custo do automóvel e as horas perdidas no trânsito não dão margem para se estudar o assunto com coragem?

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