O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 aplicado às três pancadas

C’est le tango de la pluie sur la cour
Le miroir d’une flaque sans amour
Qui m’a fait comprendre un beau jour
Que je ne serais pas Vasco de Gama

Brel

***

VERSÃO I

Num serviço de atendimento da Segurança Social, algures, no distrito de Lisboa.

então e ‘acção’?

– ‘Acção’ perde o cê.

– Perde?

– Sim, perde.

– Mas o cê não faz falta?

– Claro que faz. Agora, se não se importa, vá tirá-lo, sff.

– OK.

A ção social

– Desculpe, não bastá ‘tirá-lo’. Tem que chegar aquele “ÇÃO SOCIAL” para a esquerda.

– Isso dá muito trabalho. Ia chegar o ‘A’ para a direita, mas depois ficava desalinhado com o “INFORMATIVO”, o “TESOURARIA” e o “(mediante marcação)”. Seja como for, fica lá o espaço. Nunca se sabe. Pode ser que o AO90 vá ao ar e assim é muito mais simples, pinta-se o cê: “basta uma meia hora” ou “não mais que 15 minutos” (a doutrina divide-se).

ação acção

– Ah! Está bem.

 ***

VERSÃO II

Exactamente no mesmo serviço de atendimento da Segurança Social da versão I, algures, no distrito de Lisboa. [Read more…]

Diretion? Diretion? Oh dear!

diretion

Leitor atento teve a amabilidade de me enviar esta ligação, com uma reportagem sobre os One Direction, transmitida durante a edição de ontem do Jornal das 8 da TVI — por qualquer motivo que me escapa, a ligação da TVI não funciona por estas bandas.

A base IV do AO90, sem qualquer valor científico – escusado seria acrescentar: sem qualquer ligação à realidade; contudo, por via das dúvidas e por descargo de consciência, acrescente-se e saliente-se: sem qualquer ligação à realidade –, constitui, como se vê, um desnecessário factor de perturbação da consciência ortográfica dos falantes/leitores/escreventes. A supressão, em português europeu, de consoantes com importante valor grafémico fará com que se projecte noutras línguas a arbitrariedade do novo código: contudo, felizmente para elas e seus respectivos falantes, essas línguas não foram sujeitas a reformas ortográficas caóticas, garatujadas em cima do joelho.

Casos como o deste *diretion tenderão a aumentar. Aliás, trata-se de problema já anteriormente mencionado. Esperem para ver. Ou não, não esperem. Se quiserem ver o desastre a instalar-se, basta olharem para o lado, assobiarem para o ar e encolherem os ombros: a ordem é aleatória – para não dizer facultativa –  e até haverá quem olhe para o lado, assobie para o ar e encolha os ombros em simultâneo. Se não quiserem assistir ao caos instalado, têm bom remédio: não fiquem quietos.

Post scriptum: Não conheço – nem tenho, lamento imenso, particular interesse em conhecer – os One Direction. Assim, deixo-vos na companhia de uma das minhas bandas favoritas e de uma canção que corre o risco, se as coisas tomarem o rumo que se prevê, de qualquer publicação portuguesa que adopte o AO90 lhe transformar o Having trouble with my direction /Upside-down, psychotic reaction num ínvio (sim, ínvio) Having trouble with my diretion/Upside-down, psychotic reation:

Marx em Bruxelas

Marx le retour affiche-marx-officiel

Jésus ne pouvait pas descendre, c’est donc moi qui ai fait le déplacement

Quem morar por estas bandas, não deve perder o Marx de Michel Poncelet, em cena até 25 de Maio.

De regresso ao mundo dos vivos, Marx explica, sem intermediários, mas de forma bastante crítica, as suas ideias. Uma excelente interpretação do texto de Howard Zinn, em que os fragmentos dedicados ao tempo presente são transportados, de uma forma extremamente fina, do Soho nova-iorquino original para Bruxelas, espaço concreto do espectador que se deslocou ao Théâtre de la place des Martyrs. Um monólogo em que Poncelet consegue dar-nos uma perspectiva realista e notável dos participantes da narrativa e interagir com quem se encontra no acolhedor espaço da sala de espectáculos. E mais não digo, se não, estrago a surpresa.

Post scriptum: Quem não morar por estas bandas, pode sempre ver a interpretação que deixei há uma semana ou comprar o livro do Zinn (esta é a edição que possuo). Creio que ainda não haverá tradução portuguesa, mas há Marx, le Retour (o texto interpretado por Poncelet) e Marx en el Soho.

Brel à espera da águia

No dia 15, os marinheiros de Amesterdão poderão aprender outra canção.

Homenagem a Jean Ferrat – C’est beau la vie (Memória descritiva)

Jean Ferrat era o nome artístico do cantor francês Jean Tenenbaum, nascido em 26 de Dezembro de 1930 em Vaucresson (Hauts-de-Seine). Morreu ontem com 79 anos, em Ardèche, uma localidade no sul de França. De origem judaica, era o mais novo de quatro irmãos. Seu pai, nascido na Rússia, foi deportado durante a guerra para Auschwitz e ali morreu. Compreende-se melhor através deste pormenor biográfico o sentimento com que Ferrat canta Nuit et Brouillard.

Obrigado a abandonar os estudos para sustentar a família, actuou nos anos 50 em pequenos cabarés de Paris. Cantou versos de Louis Aragon e canções dedicadas a Neruda e a Lorca. Os seus temas eram, geralmente, de índole política. Foi com Nuit et Brouillard que o êxito chegou para Ferrat, pois recebeu o Grande Prémio do disco de 1963 com esse tema sobre os campos de extermínio. Nesse disco, incluía-se C’est beau la vie, com que antecedo as palavras deste texto. [Read more…]