Merci pour tout

The Charlie Hebdo' s cartoonist Luz shows a special edition of French satirical magazine Charlie Hebdo, on November 3, 2011 during an editorial conference at the Theatre du Rond-point in Paris, one day after the offices of French satirical magazine Charlie Hebdo have been destroyed in a petrol bomb attack last night. The edition of the paper published yesterday, which was called Charia Hebdo - a play on the Islamic word sharia, was intended to

O cartonista Luz do jornal Charlie Hebdo anunciou publicamente a sua intenção de sair do jornal após Setembro. Especula-se de uma forma oblíquia que a razão esteja ligada ás questões financeiras que estão agora a ser discutidas pela direcção do jornal. Mas é evidente que os motivos são muito mais profundos do que isso. Recorde-se que Luz não é só um dos históricos do jornal como foi das primeiras pessoas a chegar à redacção, ainda antes da polícia, e foi ele que encontrou os corpos dos colegas. Depois, forçou-se a si mesmo a trabalhar para chegar à famosa capa: “Tout est pardonné”.

Devo confessar que tenho um enorme respeito por este homem. Se dois fanáticos matassem os meus amigos em nome de uma ofensa imaginária, em nome do ódio e da babaridade pura, em nome de fosse o que fosse, eu nunca perdoaria. A capa de Maomé a chorar, o “está tudo perdoado” é um dos maiores exemplos de perdão. Eu não perdoaria. Mas eu também não sou Charlie. Na realidade, muito pouca gente o é. Muito pouca gente teria a coragem desinteressada para o ser. Muito pouca gente tem coragem para rir e para pensar – porque é disso que estamos aqui a falar. Luz teve-a e tem-na e pagou por isso. Agora é tempo de descansar.

Ao sol

Eu estava a preparar-me para mais uma aula, mais uma hora de trabalho. Do vidro da sala de professores, reparo numa mulher sentada, muito quieta: cabeça voltada para cima, olhos fechados, mãos entre as pernas, corpo firme, costas direitas. Todo o seu corpo parecia querer alimentar-se do sol, de calor e de luz. E outra coisa: muito séria «agora não me incomodem!». No que estaria a pensar?

Bonito de se ver! Imagens «surrealistas» pontuam os nossos dias que pensamos serem monótonos e iguais uns aos outros.

Como aquela outra mulher que, vi hoje, atirava pepitas para o passeio… Afastou-se e, no passeio,  aguardou a chegada do animal.

Mais imagens se esperam… sabe bem!

Tu és melhor do que tu

Faz-me o favor…

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!

Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor – muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny, in “O Virgem Negra”

Mãe

 (adão cruz)

Mãe a palavra universal a palavra mais consensual da humanidade

Nem Deus… Deus é de uns e não de outros Deus é conceito de muitos e negação de outros tantos

A mãe não a mãe é de todos sem excepção

A mãe é de todos e é só nossa a mãe é do crente e do ateu a mãe é do pobre e do rico do sábio e do ignorante Continuar a ler “Mãe”

Um pontinho de luz

Há uma criatura na minha rua, não sei se um homem se uma mulher que, todas as noites, ou quase todas as noites, deixa uma vela acesa na varanda envidraçada. Não sei desde quando o faz…

E eu, todas as noites, ou quase, pergunto-me «por quê ou por quem o faz»?

Já fui poeta da luz

adão cruz

(Poemas de mãos dadas)

 Já fui poeta da luz quando a palavra alumiava o infinito e o sol nascia dentro de mim.

Quando a vida alumiava o infinito eu nasci na erva e dormi no feno e acordei com melros e rouxinóis e saltitei com os pardais.

Quando me vesti de sol e me despi de luar e estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios.

Quando meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino. Continuar a ler “Já fui poeta da luz”

A tua mão

adão cruz

Como simples aves damos as asas a caminho do sol para fugir às lágrimas que a terra espreme.

A luz incendeia a vontade de fugir mas a tua mão serena abre o coração à esperança onde a angústia cresce por entre músicas perdidas e restos de flores.

Eu continuo o caminho dos lábios que deixaram de suspirar e dos olhos que pararam de girar confundidos entre lágrimas e risos.

O longo caminho das sombras onde as plantas não falam nem as fontes nem os pássaros.

Mas a tua mão apertada mesmo que incrédula murmura baixinho que os prados se estendem a nossos pés.

E que as brandas ondas do mar deslizam suavemente sobre a areia cobrindo de espuma o teu corpo sonâmbulo que à noite desperta por entre o labirinto dos meus sonhos.

Que palácios pretende o vento impaciente em teus cabelos de fogo vencida a idade em que o coração treme sem casa para morar?

O meu Benfica não apaga a Luz

O meu Benfica não apaga a Luz, rega o relvado a horas próprias, não se sente menorizado quando um campeão faz aquilo que faz o Benfica ao ganhar títulos: festeja-os com a legitimidade do vencedor.

O meu Benfica demarca-se do Benfica igual aos outros, do Benfica que copia e imita o pior dos rivais. O meu Benfica não perde tudo numa centena de minutos, o jogo, a postura, a dignidade. O meu Benfica não é uma massa de seguidores acéfalos, questiona os dirigentes, exige explicações e chama os bois pelos nomes.

Consola-me que exista um Benfica dentro do benfiquinha. Porque eu, do benfiquinha, não sou.

Que jogadores são aqueles que fazem sombra na Luz?

Na época transacta o Benfica podia ter feito a festa do campeonato no Estádio do Dragão. Não conseguiu. Esta época o FC Porto teve oportunidade de confirmar o título de campeão no Estádio da Luz. Conseguiu.

Segundos depois do fim do jogo, as luzes da Luz deram ‘kaput’. Os holofotes deram o berro, a escuridão tomou conta do relvado e das bancadas, qual Ptolomeu dos tempos modernos que roubou o fogo da celebração dos ‘deuses’ do relvado. O sistema de rega foi accionado. Muitos espectadores devem ter entrado em pânico. A polícia também.

E, assim, dos palermas ainda vai rezar esta história.

É que, para o futuro, fica o resultado, o título de campeão do FC Porto e a atitude patética e infantil da direcção do Benfica. O que vale é que o clube em causa é maior que alguns imbecis que o dizem representar.

*Título adaptado de um romance de António Lobo Antunes

Poemas do ser e não ser

Passei o dia a ouvir música

sempre a mesma

alternando Madredeus e Erik Satie.

Como foi possível

parecerem-me tão semelhantes?

Que percebe de sons

este monocórdico espírito?

Mas foi o mesmo

o que produziram em mim:

a sensação amarga

de ter atirado fora uma paveia de sentimentos.

Como vou misturar

é quase certo que nada existe

nada está perto nem eu estou triste

com Embryons desséchés

e Peccadilles importunes? Continuar a ler “Poemas do ser e não ser”

Who’s afraid of the big, bad wolf?

Recentemente fui passar um fim-de-semana ao campo. Fiquei naquilo a que se chama uma “casa de hóspedes”, destas em que a estada decorre num ambiente familiar, e que funciona às mil maravilhas se calha a gente de gostar da família que lá vive. Da família, felizmente, pouco vi, porque os seus amáveis membros rapidamente deixaram os hóspedes com a empregada e fugiram para os seus divertimentos equestres. Chegámos já de noite e não foi nada fácil descobrir o monte no qual se erguera a casa que nos receberia. Caminhos enlameados, nem uma única placa informativa, escuro como breu numa noite sem estrelas.

“Porque está tão escuro?”, perguntava esta citadina acagaçada. “Porque estamos no campo”, respondia o meu companheiro, que, como todos os que cresceram no campo, tem um gosto especial por me fazer sentir inapta sempre que deixamos a cidade para trás.

É verdade, no campo não há luz. E a escuridão, como sabem todas as crianças, é um território alarmante porque nele há espaço para que tomem corpo todos os nossos temores. Pousei o inútil GPS e fiquei a olhar pela janela do carro, enquanto o carro avançava a custo sobre trilhos de lama. Vi bandos de homens brandindo garrafas partidas, alcateias de lobos esfomeados, reuniões de feiticeiras aborrecidas com a interrupção, vi tudo isto e mais alguma coisa até que ao meu lado ouvi uma voz tranquilizadora: “É ali, já a vejo”.

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