Os populistas do Norte

«O principal problema político dos governos do Norte [holandês, finlandês e alemão) é que não querem contradizer-se nos seus parlamentos, pois barricaram-se por detrás de um discurso populista, segundo o qual os seus povos pagam para que os preguiçosos dos gregos se aguentem. Tudo isso é falso, uma vez que é aos bancos que pagam.» Alexis Tsipras, 29 de Julho de 2015 [Fonte: L’Humanité|transcrição em Francês]

A data mais temida

cabeca

A data mais temida pelo sistema financeiro e pelos governos europeus que o servem fielmente é a data das eleições espanholas, agendadas para dezembro deste ano. Se um Syriza incomoda os mercados, um Syriza e um Podemos incomodam muito mais. Para os mercados financeiros seria um pesadelo gerir (leia-se manipular) cimeiras europeias com Tsipras e Iglesias do Podemos. Este é o cenário mais temido, tudo o resto que acontecer até às eleições espanholas não será mais do que um longo esforço para fazer do Syriza um exemplo a não ser seguido em Espanha, na Irlanda onde o Sinn Féin tem 20% nas sondagens, na Escócia onde o Partido Nacional Escocês é maioritário e em Portugal se o Bloco continuar a sua subida nas sondagens.

Ao contrário de outros comentadores, não sou vidente e não sei o que se sucederá na Grécia. Sei que os gregos e o Syriza não querem sair do euro e muito menos da União Europeia. Sei de governos que gostariam de os empurrar para fora do euro e de muitos mais que rezam pela queda do governo do Syriza. Não estou otimista para hoje. Se o governo do Syriza cair, não pense a oligarquia financeira que se vai livrar das suas responsabilidades. Depois do Syriza a política não voltará a ser a mesma, o povo reconhece hoje melhor do que nunca a diferença entre os submissos ao poder financeiro e os que lutam contra aqueles que em Genebra, na City londrina, no Luxemburgo, na Holanda ou na Jerónimo Martins continuam a ter lucros com a crise e a esmagar o povo.

Adaptação de artigo publicado no diário As Beiras a 02/07/2015.

Adair Turner: uma lição de finanças e de regulação dos mercados

Hoje limito-me a uma sugestão de leitura. Remeto-vos para o artigo de Adair Turner no Jornal de Negócios. O conteúdo do citado artigo desmistifica as teses patológicas do ‘absolutismo do mercado’, mesmo em mentes empedernidas como aquelas que caracterizam dirigentes e técnicos superiores do próprio FMI – apenas 18 meses antes do despoletar da crise, a referida instituição publicava um designado ‘Relatório Global da Estabilidade Financeira’, onde se lia:

A confiança na história de um sistema que se auto-equilibra…

Com efeito, esta crença enviesada neoliberal, denunciada por Adair Turner, constituiu a principal causa ideológica e de comportamentos institucionalizados para a falta de regulação eficaz dos mercados financeiros; e consequentemente para a crise com que os EUA haveriam de contaminar o mundo.

A União Europeia, é sabido, não pôde eximir-se da crise; de resto, no seu espaço geográfico, os males são agravados devido à ausência de coesão das políticas económicas e financeiras dos Estados-Membros. As implicações de maior gravidade incidiram sobre os designados “PIIGS”, de que, infelizmente, Portugal faz parte.

Adair Turner exerce a presidência da Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido e é membro da House of Lords. Transmite, com conhecimento, qualidade e isenção, uma lição eloquente sobre a teoria do (falso) auto-equilíbrio dos mercados.

Recomendo a leitura do artigo, seguida de reflexão séria; dirijo a recomendação, em especial, a políticos, comentadores, articulistas de opinião, blogueres e outras personagens nacionais que, despudorada ou ignorantemente, escrevem metros e metros de blasfémias contra o papel do Estado na economia, o qual integra um sistema global de regulação consistente e eficaz. Leiam e reflictam!

Portugal e a falência induzida pela banca.

Ainda não percebi se o Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, acredita nas suas próprias afirmações, a propósito da situação financeira portuguesa; e não percebendo isto, pela parte que me toca, afianço que não acredito nas mesmas afirmações.

A imprensa continua a incessante divulgação de notícias adversas a Portugal. O jornal “i” é categórico no título “Bruxelas acusa bancos de empurrar Portugal para a falência”. Por sua vez, o ‘Jornal de Negócios’, com a ilustração de fotografia do sorridente par Merkel – Sócrates, lança a pergunta “Portugal pode sair do euro?”; no texto, anuncia 4 (quatro) páginas da edição em papel, dedicadas ao tema.

O sistema financeiro internacional, grande detonador da crise mundial através de “bombas” do tipo ‘derivados’, ‘hedge funds’ e ‘subprime’, não só contínua a gozar de impunidade como, face às baixas taxas de juro de mercado, está interessado em extrair proveito das elevadas taxas especiais, praticadas em empréstimos a países como Grécia e Portugal. Sabem que, mais tarde, alguém pagará – BCE ou FMI.

O referido sistema não só ficou incólume a medidas de reforma, como foi auxiliado por dinheiros públicos em muitos países, destinados resolver os efeitos dos seus próprios desvarios. Ainda há poucos dias, o inefável Joseph Stiglitz publicou na edição online de “Político” um artigo intitulado “Build strong rules for finance system”, de conteúdo muito crítico sobre a falta de regulação reforçada para que o sistema financeiro não venha, em contra-senso, a ser parte ganhadora da crise com que pulverizou o mundo; ou seja, à custa de mais sacrifícios do sistema económico, e em especial das famílias.

Perante tudo isto, acreditar em Teixeira dos Santos depende muito dele próprio e da garantia absoluta de que Portugal vão vai para a falência, nem sairá da zona euro. Quem ma dá?

A máquina do tempo: as papoilas afegãs e a liquidez do sistema financeiro internacional

Uma notícia destes últimos dias é a declaração, em entrevista ao diário britânico «Observer», do italiano Antonio Maria Costa, máximo responsável na ONU pelo combate ao crime e ao tráfico de droga, que nos vem garantir que o sistema financeiro internacional se salvou do colapso total devido a dinheiro proveniente do narcotráfico – «Os empréstimos interbancários foram financiados por dinheiro vindo do tráfico de droga e de outras actividades ilegais» (…)«Em muitos casos, o dinheiro da droga era a única liquidez disponível. Na segunda metade de 2008, a falta de liquidez era o maior problema do sistema bancário. Ter liquidez em capital, tornou-se num importantíssimo factor». [Read more…]