A máquina do tempo: as papoilas afegãs e a liquidez do sistema financeiro internacional

Uma notícia destes últimos dias é a declaração, em entrevista ao diário britânico «Observer», do italiano Antonio Maria Costa, máximo responsável na ONU pelo combate ao crime e ao tráfico de droga, que nos vem garantir que o sistema financeiro internacional se salvou do colapso total devido a dinheiro proveniente do narcotráfico – «Os empréstimos interbancários foram financiados por dinheiro vindo do tráfico de droga e de outras actividades ilegais» (…)«Em muitos casos, o dinheiro da droga era a única liquidez disponível. Na segunda metade de 2008, a falta de liquidez era o maior problema do sistema bancário. Ter liquidez em capital, tornou-se num importantíssimo factor».

Segundo os cálculos deste alto responsável da ONU, o mundo do crime disponibilizou 240 mil milhões de euros para repor a liquidez do sistema financeiro internacional. «Há alguns sinais de que alguns bancos foram salvos desta maneira». Acrescentou que este dinheiro de proveniência criminosa faz agora parte do sistema, «pois já foi lavado». Os mercados do Reino Unido, Suíça, Itália e Estados Unidos, foram segundo o dirigente internacional da luta contra o tráfico, os mais utilizados na lavagem deste dinheiro proveniente dos negócios com a droga.

Em Outubro passado Antonio Maria Costa alertara já para o efeito devastador do ópio afegão nas sociedades ocidentais. 92% da heroína traficada pelas máfias mundiais é produzida pela papoila daquele país. 100 mil pessoas (jovens na sua maioria), morrem por ano devido ao consumo dessa droga, mais do que qualquer outra, e muito mais do que as baixas sofridas na guerra. Este tráfico movimenta cerca de 45 mil milhões de euros por ano, sendo a maior fonte de financiamento do terrorismo internacional. «O catálogo dos horrores produzidos pelos narcóticos afegãos é grotesco», diz Costa, que afirmou que, só nos países membros da OTAN que intervêm no Afeganistão, morrem 10 mil pessoas por ano, cinco vezes mais do que a soma das baixas militares em oito anos de guerra.

O ópio afegão é utilizado como moeda de troca para obter armas que as milícias talibãs utilizam contra as tropas instaladas no país – «A implicação directa dos talibãs no tráfico de ópio, permite-lhes financiar uma máquina de guerra cada vez mais ampla e sofisticada», explicou este alto funcionário da ONU. Calcula-se que os talibãs obtenham com o ópio cerca de 106 milhões de euros.

A fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão é actualmente «a maior zona de comércio livre do mundo da droga, armas, dinheiro sujo e seres humanos», concluiu. A ONU afirma que só consegue interceptar 20% do ópio afegão, sendo a maior parte apreendida no Irão. Menos de 2% é confiscado antes de sair do país.

É o capitalismo em todo o seu esplendor – livre iniciativa, espírito empreendedor, globalização da economia… e 100 mil jovens mortos por ano pelas papoilas do Afeganistão.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Um mundo sem saída.

  2. Carlos Loures says:

    Tem saída pelas traseiras – dá directamente para o caos.

  3. Luis Moreira says:

    Há muitos interesses nas drogas e nas armas, não acaba por causa da ganância dos homens.São as duas actividades que mais dinheiro movimentam. Legalizem-nas, que o tráfico desaparece e os interesses tambem.

  4. Luis Moreira says:

    Legalizem-nas que os negócios acabam.

  5. Carlos Loures says:

    Na verdade, a legalização acabaava por ser um mal menor. Mas significaria a derrota total da justiça. Além disso, os tubarões logo descobririam uma forma de proteger os seus interesses. Não tenhamos dúvida de que algumas altas instâncias internacionais apoiam, ainda que veladamente, esta vergonha e este crime. O fim súbito do negócio da droga, provocaria um crash mais violento do que a «quinta-feira negra» de 1929. A economia mundial tem na droga um dos seus principais pilares. Este sistema (que às vezes defendes) está construído sobre muitos milhões de mortes – vive da morte.


  6. Exactamente Carlos. A economia mundial tem na droga, no crime, na fraude, na guerra, na exploração do ser humano a todos os níveis, os seus pilares. Este miserável e demoníaco sistema capitalista que fez do homem um ser sem dignidade, sem honra, sem ética, um sistema que roubou ao ser humano todas as potencialidades de desenvolvimento dos altos valores solidários ao alcance da sua mente superior, está construído sobre muitos milhões de mortos. Felizmente que conheço muita e muita gente em que acreditaria para ajudar a mudar o mundo, mas isto transformou-se num cancro incurável, com metástases de tal modo invasivas que me tornaram quase incuravelmente pessimista. Coisa que eu não era.

  7. Carlos Loures says:

    Como não ser pessimista? Gastei as minhas primeiras décadas num optimismo que me levou a lutar, da forma possível, para que uma sociedade melhor substituísse a que conhecíamos. Nunca parei de intervir, mas agora vejo que é como querer esvaziar um oceano com uma colher de chá. Contigo, por certo, passa-se o mesmo.