Poemas estoricônticos

Uma coisa é certa

aqui sentado

na margem deste regato

debruado a pedaços de neve

o avesso do pensamento já não incomoda.

O silêncio acorda os olhos de pó

e a melodia

há muito perdida nas encostas nevadas

renasce na canção deste rio.

Não importa ser-se aqui planta ou pedra

ou torvelinho de água brincando à roda do abismo.

Os soluços são apenas o cantar da água

e o tempo de recordar há muito se deslembrou.

A montanha despiu a neve

a saudade deixou de respirar tristezas

a angústia tem o tamanho da neve

e o abraço do sol o tamanho da angústia.

Os lábios rasgados do sexo cósmico

devoram os beijos

que não têm

como a neve

a força de um regresso.

O tempo de sorrir não morreu

no naufrágio das flores das noites nuas.

Por isso

não importa não saber cantar

se a música dos teus dedos

nasce nos cabelos de hoje.