Na senda de um deus caído

NA SENDA DE UM DEUS CAÍDO
(Dedicado ao amigo Carlos Loures, poeta da lucidez)

 Durante muito tempo fui pensando que o gosto e não gosto constituíam a base mais séria da apreciação do comum dos mortais no que respeita à obra de arte, sobretudo contemporânea. Creio que me fui deixando levar, também, pela aceitação de que esta mesma dualidade se encontrava na base da criação artística.

Só depois de ter lido que o gosto é a palavra mais caída em desuso, e depois de se ter considerado este conceito como movediço, preso não à natureza e à essência mas ao modo de comunicação exterior, sujeito a controles de natureza psicológica, institucional, mediática e propagandística, eu reflecti profundamente e dei-me conta do erro em que vinha permanecendo.

 A vida, a despeito de ser uma maravilhosa obra do acaso num Universo repleto de mistérios, obedece a determinantes geofísicas, mapas biológicos e padrões neurais inquestionáveis. Quer na arte em geral quer na pintura e na poesia, sinto um medo terrível da indistinção da fronteira entre o artificialismo, mesmo ocasional, e a consciência assumida da transparência do sentimento, legítimo filho da idoneidade e da identidade das imagens que geram as emoções necessárias à criação.

A existência desta consciência no seio da reflexão e da razão é, porventura, melhor suporte material do que a tela e as tintas. Os padrões neurais da imagem mental estão lá, como estrutura basilar. A mão exprime essa imagem, mudando-lhe a cor e a forma com toda a liberdade que lhe permitem os limites da espécie.

 A lucidez e a razão acima de tudo. Tendo eu uma avidez quase obsessiva pela lucidez, sabendo, todavia, que a lucidez pode ser um exercício de crueldade, atrevo-me a dizer, talvez abusiva e incaracteristicamente, que a pintura não é mais do que a tentativa de tornar lúcidas as emoções que a desencadearam.

 Os estímulos geradores das emoções que levam á criação artística são complexos. Penso que se pode, de uma forma abrangente e ao mesmo tempo simplista, dizer que são a própria vida na sua totalidade e globalidade, sempre que ela cabe no curto espaço de um verso ou na estreita dimensão de uma tela.

No entanto, penso que a vida é, por vezes, tão real e opaca que nada reflecte, podendo não ser fonte credível de emoções traduzíveis numa consciência estética. Melhor do que a vida nesse papel parece-me ser a metáfora, a metáfora da vida.

Sendo esta, possivelmente, a res-poética, e a poesia a álgebra superior da metáfora, por que abandonar a senda de um deus caído, ou por que não experimentar este ponto de partida na criação pictórica, com dor e prazer? A dor como prevenção constante, e o prazer como premeditação possível de uma espécie de homeostasia estética. 

             adao cruz adao cruz

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Aliás, há muito que é para mim claro, que quem recorre à arte para transmitir emoções, está a tentar “encontrar refúgios” para o que sente, a mais das vezes sofrimento que nao aguenta sozinho. A vida turbulenta da maioria dos artistas aponta para aí…

  2. Carlos Loures says:

    O Rui Mário Gonçalves disse-me uma vez uma coisa sobre o gosto com a qual concordei: «só se gosta ou não gosta do que se compreende»; isto é, em matéria de apreciação das artes e das letras, devemos fazer anteceder a nossa opinião de uma prévia compreensão do que estamos a apreciar. Claro, a emoção que uma obra de arte ou uma composição musical nos causam, não pode ser alheia a essa apreciação – somos pessoas e não computadores (por enquanto). Belas e sábias palavras estas que nos apresentas, Adão. Obrigado pela dedicatória.