Só uso o pé direito para andar


God2-Sistine_Chapel

Ele há dias assim. O bloguista refractário e preguiçoso, levanta-se bem disposto e finalmente decide interromper um longo e imperdoável silêncio.

Na véspera, exausto, entrou tarde e apressado em casa. De fugida beijou a mulher, cheirou o perfume do tacho, fez uma festa ao cão, abriu uma cerveja e sentou-se na cova do sofá. Pegou no comando e acalmou. A primeira parte ainda não tinha acabado. Mas, porque o vício é maldito e o  zero a zero persistia, puxou de um cigarro. A mão esquerda –  o bloguista é canhoto – ensaiava ainda a trajectória que lhe levaria o lume do isqueiro à ponta do paivante, quando o puto, também canhoto, na esquina direita da área maior do lado esquerdo da defesa, bateu no esférico, com o lado direito da bota esquerda. A bola, tão caprichosa como o puto, descreve um duplo arco, na horizontal e na vertical. Bate no relvado maltratado, trai o crédulo keeper e aloja-se nas malhas laterais do segundo poste. Era o primeiro. O bloguista, mais tranquilo foi pôr a mesa que a mulher reclamava. Disfarçou o melhor que soube a pressa do comer. Dispensou a sobremesa e urgente, pediu licença.

O apito para o prólogo já soara. Pouco depois o puto pega  na bola e, sempre com o esquerdo, passa por um, por outro e com a pontinha da chuteira – esquerda – pica a bochecinha da bola. O redes olha incrédulo para cima, acompanhando a viagem da redonda com uma súplica. Os deuses ouvem-no e concedem-lhe a graça. O hemisfério superior da chincha vai embater na secção inferior do cilindro. Assim não, diz a dita. O puto ri.

Minuto 74, o puto recebe a bola de costas e com um passo de tango, fá-la passar por baixo da tanga do defesa, que prostra os olhos no chão à procura dos rins. Ouvem-se palmas. Será o público? Não, são os testículos do grego que está à nora. O puto encara de frente o único defensor do último reduto que pode jogar com as mãos e chama pelo pé que tem está ao pé. O dito é surdo e cego, não responde nem se move. O irmão sinistro, vindo não se sabe bem de onde numa trajectória que viola todas as leis da anatomia, da física, da filosofia e da moral, passa por detrás do dextro para, num gesto seco, endossar sem remetente a esfera de cabedal para o rectângulo sagrado dos filhos de Ulisses. O puto ri, o puto salta. O bloguista salta com o puto. E a catedral salta e ri.

O cão ladra e a mulher zanga-se. O bloguista beija-a, faz-lhe amor, fuma mais um cigarro. Na vitrola alguém canta que o dia foi perfeito e o bloguista sonhar com os  anjos que a Luz viu.

(p.s. este post não é sobre futebol nem sobre feijões. De clássicos, talvez, porque se falou de Arte. Não se aprovará qualquer comentário que verse esses matérias).

Comments

  1. Luis Moreira says:

    enfim, com o pé que tinha mais à mão…

  2. Miguel Dias says:

    errado, luís. esse foi o outro. este é mesmo com o pé que tinha mais ao pé.


  3. Zero a zero, minuto 89. Sem qualquer paragem durante o jogo, o homem de preto manda jogar mais 5 minutos.
    Ao minuto 94, o homem da Marvel pega na redondinha com as duas mãos e atira-a para a baliza. O desesperado quim-redes, em cima da linha afasta-a mas…o homem de preto avança para o meio-campo apitando golo.

    Domingo, nem que tenha de ser assim, eheheheheheheheheheheheeh.

    Até amanhã, camaradas!

  4. carlos ruão says:

    yo, nigger, simplesmente genial, you feel me ?

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