A namoradinha

No nosso bairro não acontecia nada, a não ser os jogos de sempre, e o assalto às quintas circundantes onde roubavamos fruta, principalmente laranjas e diospiros. E romãs, o fruto mais bonito, mas que dá muito trabalho a comer.

Até um dia, aquele bairro foi uma maravilha de baixa “tensão”, nenhuma adrenalina a não ser quando éramos invadidos pelos “gajos” do Bairro do Castelo que íam para lá engatar as “nossas miúdas”, (amigas e irmãs).

Mas o paraíso não dura sempre e um belo dia chegou lá a Lurdes, vinda de França, filha de uma Francesa e de pai português, que felizmente tinha saído à mãe. Loirinha! A irmã era mais nova, hesitei, e enquanto hesitava os meus amigos andavam doidos, todos “no santo sacríficio da saída” que era quando as miúdas saiam do Liceu.

Mas o filtro foi funcionando, a vizinhança ajudava, e às tantas eu e o meu melhor amigo, eramos a companhia natural, para e do Liceu. Soube mais tarde que o meu amigo, sempre que me apanhava de costas, lançava a rede à Lurdinhas, em absoluta e miserável deslealdade.

A Lurdinhas é que se matava a rir com a nossa conversa, dizia que sim aos dois, ou não, conforme as coisas se tornavan mais ou menos sérias. Em absoluto desespero, passava frequentemente pela porta dela para dar uma palavrinha à mãe, carregado de livros, não fosse ela pensar que eu não tinha futuro garantido.

Um dia, descobri que o meu amigo, até a mãe tinha metida ao barulho, já havia missa cantada junta, o que me destroçou por completo e que nunca lhe perdoei até hoje ( digo até hoje porque ainda hoje somos os maiores amigos).

Eu bem lhe dizia que ele se devia virar para a Manela, que ele já tinha namorado, mas o pai dela não estava pelos ajustes e tinha havido grandes complicações entre as famílias que se conheciam por serem oriundas de aldeias próximas. A nossa vida era pois, esperar um sinal de preferência da Lurdinhas.

Mas o momento, havia de chegar e chegou, no dia em que fizemos a prova escrita de Francês. A Lurdes, sabe-se lá porquê, num ginásio onde todos os alunos fizeram exame ao mesmo tempo, ficou entre mim e o Luis Rocha. Ora, a Lurdes tinha como língua-mãe o francês, e nós eramos dois cábulas, precisavamos de ajuda. Agora sim, íamos ver de quem é que a Lurdes gostava mais.

Ela terminou a prova num instante e a seguir passou-nos as respostas, com um ar muito compenetrado e sério, percebendo que para nós não era só a prova que estava em jogo. Eu jurava ao Rocha que o papel que havia recebido dela, era muito mais completo que o dele, e ele jurava o contrário, que tinha respondido a tudo, o meu não podia ser maior que o dele.

A semana que durou até à fixação das notas foi a única na vida em que não nos falamos. E conhecemo-nos há cincoenta e cinco anos!

Lá fomos ansiosos ver as notas, eu ía morrendo pelo caminho a ver se chegava primeiro. Quando lá cheguei ainda tive um momento de alegria, o Luís estava com cara de chateado ( sou eu, Deus seja louvado)!

A Lurdes tinha-nos dado dezasseis aos dois!

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