Memória descritiva: Luta armada contra a ditadura (2)

Já vimos que os comunistas estavam bem organizados. E os anarquistas?

Os anarco-sindicalistas estavam, sobretudo, filiados na Confederação Geral do Trabalho. Tinham tido grande implantação entre as classes trabalhadoras, mas aos poucos, o PCP ia-lhes reduzindo o espaço de manobra e hegemonizando as organizações de classe. Em todo o caso, ainda estavam activos, mesmo depois de todas as suas estruturas terem sido ilegalizadas pelo golpe de 1926. Prepararam um atentado contra o ditador que, por muito pouco, não resultou.

Na manhã de 4 de Julho de 1937, na Av. Barbosa du Bocage, em Lisboa, Salazar saiu do carro que o transportara até junto da capela particular de um amigo para assistir á missa dominical quando a escassos metros rebentou um engenho explosivo. O atentado fora preparado com cuidado, estudando a rotina do ditador nas manhãs de domingo, a bomba fora colocada, sob o pavimento, no local onde o carro costumava parar e seria accionada manualmente por elementos escondidos num prédio vizinho.

Tudo correu como o previsto, só que o carro estacionou a metros do local habitual e o visado apenas apanhou um susto. Emídio Santana (1906-1988), um dos autores do atentado, foi perseguido. Fugiu para Inglaterra onde acabou por ser preso e, entregue às autoridades portuguesas. Foi condenado a 16 anos de prisão.

Em 1943, o Partido Comunista criaria o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista, o MUNAF, uma organização de massas destinada a enquadrar politicamente antifascistas não comunistas (o mesmo conceito que, cerca de duas décadas depois, levou à constituição do MDP). No seio desta organização foram criados os GAC – Grupos Anti-Fascistas Armados – vocacionados para a acção armada. Não chegaram, no entanto, a desencadear qualquer operação de luta armada.

Durante a II Guerra Mundial, não se verificaram movimentos armados dignos de menção. Talvez porque os oposicionistas depositavam toda a esperança em que de uma vitória das forças aliadas resultaria o fim do regime salazarista. Esperava-se, pois, que o fim do nazi-fascismo acabaria com as ditaduras de Franco e de Salazar. Já perto do final do conflito, em Janeiro de 1945, foi anulada uma tentativa de golpe militar contra o Estado Novo. Tratava-se de uma coligação de oficiais monárquicos e de republicanos conservadores. Com o final da guerra, em Maio, chegou tal o truque de prestidigitação – Salazar transformou a ditadura em «democracia orgânica». Os Aliados, mais preocupados com o comunismo do que com o fascismo residual da Península, fecharam os olhos.

Em 11 de Outubro de 1946, uma coluna do Regimento de Cavalaria 6, do Porto, comandada por oficiais milicianos, dirigiu-se a Lisboa com a intenção de derrubar o regime. O vice-almirante Mendes Cabeçadas, um dos homens do 28 de Maio, aderira à revolta, estando prevista a adesão de diversas unidades militares. Na Mealhada, a coluna foi detida por forças fiéis ao governo, acabando por se render. Os oficiais de Cavalaria 6 foram julgados e condenados em Março de 1947.

Em 10 de Abril de 1947, foi desmantelada antes da sua eclosão outra revolta. O seu principal dirigente, o general José Marques Godinho, morreu na prisão vítima de ataque cardíaco. Durante muitos anos, mais de uma década, a oposição ao regime esteve mais orientada para iniciativas de carácter cívico.

Em 18 de Dezembro de 1958 foi neutralizada a tentativa de golpe militar organizada pelo general Humberto Delgado. Delgado, fraudulentamente derrotado nas eleições presidenciais de Junho tentou a via «putschista». Em 11 de Março de 1959, foi descoberta a «Revolta da Sé», assim designada porque os conspiradores se reuniam na Sé de Lisboa. Foram presos elementos militares como os majores Luís Cesariny Calafate e Pastor Fernandes e o capitão Almeida Santos. À conspiração estavam também ligados o advogado Francisco Sousa Tavares e o católico progressista Manuel Serra.

1961 foi, pode-se dizer, um «annus horribilis» para o regime salazarista. Na madrugada de 22 de Janeiro de 1961, um comando do DRIL (Directório Revolucionário Ibérico de Libertação), composta por portugueses e por espanhóis ex-combatentes da Guerra Civil, dirigido por Henrique Galvão e Jorge Sottomayor, pôs em marcha a «Operação Dulcineia», tomou de assalto o paquete de luxo Santa Maria, ao largo do mar das Caraíbas e crismando-o de «Santa Liberdade».

O navio esteve em poder dos revolucionários até 2 de Fevereiro, acabando por desembarcar no Rio de Janeiro os passageiros e por se entregarem os assaltantes às autoridades brasileiras. O presidente Jânio Quadros recusou-se a entregar os revoltosos às autoridades portuguesas, concedendo-lhes asilo político. Mas, fora de Portugal, mais precisamente nas colónias, iria acontecer algo de decisivo para acelerar a degradação do regime.

Em 4 de Fevereiro de 1961, eclodiu uma sublevação armada em Luanda, conduzida por elementos do MPLA, de Agostinho Neto. Após uma emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel e a tomada do seu armamento, os revoltosos assaltaram a Casa de Reclusão Militar, a cadeia da PIDE no bairro de São Paulo, a cadeia da 7ª esquadra da PSP, para libertação de presos. Tentaram também tomar a Emissora Oficial de Angola. No dia 15 de Março do mesmo ano, verificaram-se violentos ataques no Norte de Angola, levados a cabo UPA de Holden Roberto. Começava assim a Guerra Colonial, que iria desenvolver-se por três frentes – Angola, Moçambique e Guiné – e a que só a Revolução de 1974 poria termo. Uma guerra que durou 13 anos e que provocou um grande desgaste no regime.

Em 10 de Novembro de 1961, um super-constellation da TAP, 45 minutos depois de descolar de Casablanca com destino a Lisboa, foi tomado por um grupo comandado por Hermínio da Palma Inácio. Era a «Operação Vagô», planeada por Henrique Galvão e que consistia em largar 100 mil panfletos, denunciando a fraude eleitoral das legislativas de dia 12, sobre Lisboa e a Margem Sul do Tejo, Barreiro principalmente. A operação correu conforme previsto e o avião aterrou em Tânger, sem que passageiros, tripulantes e assaltantes tenham sofrido qualquer dano.

Na noite de passagem de ano, em 31 de Dezembro de 1961, um grupo armado constituído por militares e civis, comandado pelo então capitão Varela Gomes, tomou de assalto o quartel de Infantaria 3, em Beja. O comandante da unidade, o major Calapez, feriu gravemente Varela Gomes e fugiu aproveitando-se da confusão estabelecida e avisando o governo central que de imediato enviou tropas para dominar os revoltosos. Durante este acontecimento foi morto o tenente-coronel Jaime Filipe da Fonseca, sub-secretário de Estado do Exército.

O general Humberto Delgado que viajara clandestinamente para Portugal para assumir o comando da revolta, pôde regressar ao seu lugar de exílio sem ser preso. Varela Gomes, e os elementos civis, como Manuel Serra, foram presos, julgados e condenados a pesadas penas de prisão. Entre os civis, além de republicanos, havia elementos católicos e até monárquicos.

1961 terminava como começara: em sobressalto para o regime. E no horizonte perfilavam-se novas ameaças à «paz» que Salazar e a sua camarilha tinham implantado em Portugal. A paz que reina nos cemitérios.

(Continua)

Atenção: Esta série é composta por quatro textos. Após a sua publicação, sairá em três partes a transcrição de uma mesa redonda que o Aventar levou a cabo com operacionais das três organizações clandestinas que lutaram contra a ditadura – a LUAR, a ARA e as BR. Pedimos a vossa atenção para esse interessante debate.

Comments

  1. Pisca says:

    Sobre a chamada Revolta da Sé, será de referir o nome do então Padre Perestrelo de Vasconcelos (Pároco da Sé de Lisboa, daí o nome da revolta).
    Filho do então Administrador do Arsenal do Alfeite, com o mesmo apelido, o qual era intimo de Salazar.
    Tal custou é claro a prisão e afastamento ao Padre Perestrelo, que viria mais tarde a abandonar o clero.
    Penso que o filho é o actual Sec.Estado não sei do quê..

  2. Carlos Loures says:

    Sem dúvida. Além do Padre Perestrelo de Vasoncelos e dos citados Francisco Sousa Tavares e Manuel Serra, estiveram envolvidos outros católicos como, por exemplo, o escritor Alçada Baptista. Porém, amigo Pisca, estes meus textos são resumos, sumarizações, e não podem conter todos os elementos. E, claro, ao escolher omitir esta ou aquela personalidade, cometem-se injustiças. Nesse espírito de «economia», não expliquei que, embora envolvendo católicos progressistas, o «Golpe da Sé» estava ligado ao MMI (Movimento Militar Independente), liderado pelo general Delgado. Felizmente que, com a ajuda de leitores atentos, como Pisca, as coisas se vão compondo. Por outro lado, talvez em 12 de Março próximo dedique um texto a este movimento. Obrigado pelo seu comentário.

  3. Pisca says:

    Não era uma critica de modo algum, antes pelo contrário, apenas para referir o Perestrelo de Vasconcelos e a sua importância

    Falou-se em tempos que Vasco Gonçalves teria estado “muito perto” desse movimento também
    Agradeço entretanto o seu trabalho de resumo que tenho acompanhado com todo o interesse

    Só mais uma pequena nota, há um escrito de Bento Gonçalves, à data Sec.Geral do PCP, a condenar a participação na Revolta da Marinha Grande, julgo que no livro Palavras Necessárias

  4. Carlos Loures says:

    Não fazia mal se fosse uma crítica. Como disse, espero no dia 12 de Março poder publicar um texto sobre o movimento onde poderei, por certo, dar uma visão mais completa, com menos omissões. Também ouvi falar no envolvimento de Vasco Gonçalves, mas nada apurei de concreto. Quanto à Marinha Grande, estou a preparar um texto sobre o tema para o próximo dia 18. E conto com as suas críticas, favoráveis ou desfavoráveis. Um abraço.

  5. Nuno Castelo-Branco says:

    Conhecia relativamente bem esta história. Sempre fiquei com a sensação de que a decisão de fazer zarpar uma parte da nova Armada para Espanha, consistiu num erro crasso. deu ao regime todos os argumentos para disparar, ainda por cima valendo-se daqueles sentimentos que há séculos atravessam toda a sociedade portuguesa, de esquerda, de direita, monárquica ou republicana. Aderirem ao regime do sr. Azaña e do seu perceptivo tutor José Estaline, foi a melhor prenda que Salazar/Carmona poderiam ter recebido. O país entendeu e viu o perigo. Em Madrid, falava-se abertamente na república soviética ibérica, uma versão daquilo que todos conhecemos.
    Mas aqui fico à espera de tudo o que o Carlos tem ainda para dizer. Que sorte tive em nascer décadas depois. O século XX foi mesmo uma porcaria.

  6. Carlos Loures says:

    O século XX foi um dos mais asquerosos de toda a História, embora sejamos suspeitos, por tê-lo vivido em parte (eu numa grande parte). Quanto à República Espanhola, é redutor colocá-la sob a égide de Estaline. Os homens das Brigadas Internacionais não eram todos pró-soviéticos, nem sequer eram todos comunistas. segundo me disseram pessoas que viveram esse período, percebeu-se bem que o movimento falangista era o prólogo de uma tragédia de grandes proporções. Por isso, democratas-cristãos, anarquistas, socialistas e, claro, comunistas, acorreram a dar o seu contributo para defender o mundo do perigo do nazi-fascismo. Não seriam muitos, mas houve monárquicos nas Brigadas. Penso que esse aspecto é o mais importante e a lição a tirar da Guerra Civil – foi um ensaio para o Terror que chegou logo a seguir. Que Estaline foi um déspota, já o sabíamos. Por outro lado, quando a República espanhola precisava mais do seu auxílio, dada a preponderância que a corrente anarquista estava a assumir, ele cortou a ajuda. Os Aliados também tiveram culpas.

  7. Nuno Castelo-Branco says:

    Carlos,

    Seria interessante sabermos até que ponto a excessiva presença visual da URSS na guerra civil, terá levado a Inglaterra a contemporizar com Franco. Além disso, sabia-se da vontade d e uma parte do “reviralho” em apoiar a hipótese federal, coisa que deve ter deixado o Foreign Office bastante preocupado.
    De resto a historiografia oficial que hoje parece vingar em Espanha – especialmente através do canal História -, não parece deixar margem para dúvidas.Sabemos como as coisas funciona e nesse aspecto, o PC é eficientíssimo, tendendo sempre para a hegemonização dos movimentos onde participa. No caso de 1932-39, foi por demais ostensivo. Até no campo de batalha, quando vemos filmes documentários, só vislumbramos os caças Rata Il-3, acho eu (?), os tanques soviéticos, os cantos típicos da 3ª internacional, os punhos fechados, foices e martelos, etc. Era esta a imagem que passava para toda a Europa. De qualquer forma, Estaline fez-se pagar e bem, arrecadando as reservas de ouro espanholas na quase totalidade. Bem vistas as coisas, fez o “plunder” que Hitler imitaria em toda a Europa.

  8. Carlos Loures says:

    Nenhuma das forças intervenientes na tragédia de Espanha, está isenta de culpas. A FAI, os anarco-sindicalistas, que chegou a ter muita força entre as classes trabalhadoras, o POUM, com prevalência trotskista, mas divergente do estalinismo, e, naturalmente, o Partido Comunista que, na sua qualidade de representante da poetência que pagava as despesas, se sentia dono de tudo. Um amigo catalão que já morreu e que combateu no Exército da República, contava que, em Barcelona, com os tanques nacionalistas às portas da cidade, os comissários políticos ligados à CHECA, enchiam autocarros dos transportes públicos com anarquistas, trotskistas, republicanos católicos e os mandavam para as praias para serem executados. Não acredito na inocência dos Aliados – mesmo que, ganha a guerra pela República, o Partido Comunista subisse ao poder (o que duvido que acontecesse), nada seria tão terrível como o que aconteceu a seguir.

  9. Nuno Castelo-Branco says:

    De qualquer forma, o regime Azaña estava condenado pela conjuntura internacional. Crê que Hitler deixaria a Espanha de fora do conflito? Duvido muito. Em 1940, ter-se-ia limitado a impor o Armistício aos apressados franceses – que não aceitaram a proposta de União Anglo-Francesa que Churchill trazia -, atravessava a fronteira, chegava a Lisboa e fechava o Estreito de Gibraltar. Agora, imagine o que isso teria significado para a Inglaterra: derrota no Mediterrâneo, mais que provável alinhamento de Vichy com o Eixo, os panzer com o petróleo de Mossul e Abadan e Estaline de mãos tolhidas, com os americanos mais isolacionistas que nunca. Seria uma Europa unida bem diferente daquela que hoje temos.
    Como dizia lord Salisbury – e todos os 1º ministros britânicos – Lisboa deve ser sempre um “porto amigo”. Os ingleses dependiam disso, na época do império e mesmo hoje, não me parece que vissem com bons olhos esta cidade – e os 3 portos portugueses -, a Madeira e os Açores sob controlo de Madrid.

    Ainda quanto à guerra civil espanhola, nada que o PC tivesse feito era para admirar. Veja o que aconteceu aos membros do KPD refugiados na Rússia após 1933. Foram entregues após o Pacto germano-soviético e o mesmo se aplica a romenos, búlgaros, húngaros, polacos, checos, etc. Lembra-se da mania controleira de 1975? Viu-se no que deu, assim como a patética subida ao Chaimite, quando chegado a Lisboa, Cunhal queria emular Lenine. Fora o resto, copiado a papel químico de uma história que com 15 anos de idade, já conhecia de cor e salteado.

    Ontem fiquei irritado por não ter tido a oportunidade de o avisar acerca de uma fabulosa série que a RTP1 está a passar por volta da uma da manhã: chama-se Apocalipse e versa a 2ª Guerra Mundial, com filmes a cores, ou coloridos, alguns inéditos. A cor torna tudo mais medonha, porque damos-nos conta que aquilo ainda está bem próximo, foi há pouco tempo. Reconhecemos perfeitamente as cidades, o tipo de vida, as roupas, as caras e até o armamento. Ainda me lembro dos Junker 52 da FAP no aeroporto de Lourenço Marques, assim como os DC3 Dakota, etc. Incrível, até porque nasci 20 anos após o início da guerra. Carlos, não perca esta série, vale a pena dar-se à insónia.

  10. Carlos Loures says:

    Vou estar atento à tal série. Acho que se o Hitler e o Mussolini tivessem sido derrotados em Espanha, não se teriam aventurado a uma guerra. A vitória em Espanha deu-lhes a ilusão de que estavam a viver uma ópera de Wagner ou de Verdi. Por outro lado, se os Aliados têm ajudado a República, o peso dos pró-soviéticos seria reduzido e poder-se-ia ter instalado um regime democrático que não excluindo o PCE, incluiria todas as outras forças políticas. Mas teriam de ter limpo também a cárie salazarenta… Teriam poupado muitas vidas.

  11. Nuno Castelo-Branco says:

    É sempre arriscado, aventurarmos-nos nestas coisas da história dos “ses”. Creio que o lado da 2ª república já estava condenado em 1934, após os exageros que se conhecem. Os filmes já corriam os cinemas da Europa e as imagens eram feias (imagine sse em 1911-22 tivessem visto o que se passava em Lisboa!).
    A preponderância exibicionista do PC era por demais evidente e em 1936, Hitler ainda não parecia ser militarmente perigoso. Os Jogos de Berlim muito fizeram pela imagem do regime, assim como o fim do desemprego, o “arregaçar mangas”, etc. A verdade é que o PCE/Estaline evidenciaram-se demais e já a ninguém era estranho aquilo que se passava na URSS, apesar das platónicas lamechisses do Bertrand Russel e missões intelectuais lá enviadas para “bater palmas ritmadas”. Como se não soubéssemos como as coisas funcionam!
    Quanto a mim, quando Azaña, Negrin e os outros deixaram os comissários do PC fazer o que bem entendiam, condenaram-se ao insucesso.

  12. Pisca says:

    Oh Nuno
    Meta lá aí travões, você anda a ver “Historias” a mais, tenho visto alguns desses documentários e alguns deles são de ir às lágrimas com as mistificações historicas, mas enfim, arranja-se um chavão e repete-se até que seja verdade.

    Já agora sobre essa do Chaimite no Aeroporto aconselho o seguinte:

    http://tempodascerejas.blogspot.com/search?q=chaimite

    tem dentro deste post mais 2 (dois) links sobre o assunto

    Já foi dito, redito e tredito o que de facto se passou, o próprio Jaime Neves (penso ser insuspeito para si), diz numa entrevista por aí, que face ao numero de pessoas presentes foi o próprio ou alguém da sua equipa a sugerir que A.Cunhal falasse em cima do carro blindado.

    Mas se vocês quiser até pode dizer que o PC foi buscar a tal coisa, a colocou ali, esteja à vontade, assim como assim já passaram muitos anos e há que fazer os outros felizes com essa ideia

  13. Nuno Castelo-Branco says:

    Então continue a ir às lágrimas à vontade, porque tam´bem me rebolo de gozo com fotos retocadas, reinterpretações de histórias inexistentes, apagamento de Pactos com Hitler, etc. lembra-se da sabotagem nas usinas francesas de 1940? Foram inventadas? Não.
    Eu avisei que a história dos “ses” é perigosa, mas no caso do PC – tão previsível que sempre foi e ainda é -, creio não estar enganado. Vivem muito da mitologia e isso paga-se.
    O episódio do Chaimite no aeroporto, se foi por mero acaso – foi ?! -, deu imenso jeito à situação e para isso, ouça as declarações do secretário-geral recém desembarcado. Até Mário Soares disse logo tratar-se de uma cópia da chegada a Petrogrado. Ora Soares sabe bem do que fala, pois pressentiu pouco depois, ser uma espécie de sucedâneo de Masaryk, na melhor das hipóteses. É que hoje torna-se difícil esconder as coisas.
    Quanto às estórias do PC, sabe bem daquilo que falo. Por exemplo, compare as declarações de Cunhal após as eleições de 1975, com as de Lenine depois de ter ficado apenas com 1/4 dos eleitores saídos das primeiras eleições russas pós-1917.

  14. Pisca says:

    Até lhe pode chamar um apito esteja à vontade

  15. Carlos Loures says:

    Não me parece que devamos dar importância aos mitos que fazem jeito a uns e enfurecem outros. Por exemplo, a direita e alguma «esquerda responsável» inventou uma frase que o Otelo nunca disse – a tal de que «metia todos os fascistas no Campo Pequeno», ou coisa que lhe valha. Se essa frase existe, não a citem, apresentem a gravação ou a transcrição do jornal a que ele deu a entrevista (salvo erro foi ao DBN, quando chegou de Cuba); outro mito que já ouvi a monárquicos – «A Portuguesa», actual hino nacional, foi composto para o teatro de revista – como se o Alfredo Keil e o Henrique Lopes de Mendonça compusessem e escrevessem para revistas! Podía encher páginas com mitos. Mas acho preferível fixar-nos em factos, deixando também de lado os «ses». E já agora, Nuno, a Internacional não é pertença dos partidos comunistas.Foi composta em 1888 por um operário anarquista e a letra é de outro operário francês também anarquista. Foi criado durante a Comuna de Paris. Portanto, era com toda a propriedade cantado durante a vigência da República.

  16. Pisca says:

    Caro Carlos Loures
    Perfeitamente de acordo
    Mas cabe sempre desmentir os “transformados factos” que se convertem em “realidades convenientes”

  17. Carlos Loures says:

    É aquilo que defendo. Mas quando se trabalha nestas coisas há sempre o risco de tropeçar em mitos e em inverdades. Nem sempre se pode trabalhar com fontes primárias e já se sabe os perigos que as fontes secundárias implicam. Sempre que relativamente a algum destes textos aparece um leitor a contestar e a dizer que não foi assim ou que a minha informação está incompleta, fico satisfeito. O que interessa é chegar à verdade ou tão perto dela quanto possível. Não sou leninista, rejeito grande parte das teses de Lenine, mas há uma frase dele (ou que ele repetia) que uso muito «só a verdade é revolucionária». Com aldrabices e mitos não se vai a lado nenhum.

  18. Nuno Castelo-Branco says:

    Carlos, essa de “A Portuguesa” ser apontada “por monárquicos” de ter sido música de revista, é novidade para mim. O que dela sei, é que foi composta como marcha patriótica e oferecida a D. carlos e logo a seguir, a… D. Miguel (filho do I)! Tornou-se aos poucos como coisa apropriada pelo PRP. Aliás, vou fazer-lhe o “gosto ao dedo” e publicar no Aventar a capa da partitura original, para que não subsista qualquer dúvida quanto a isto.
    O sr. Lenine dizia, de facto, que só a verdade é revolucionária. resta saber qual a verdade. É que esta pode ser interpretada a bel-prazer. Por exemplo, quando tendo 25% dos votos, diz – tal e qual como Cunhal faria – que … a revolução não depende de votos. Para mim, depende e muito. Sou um “incorrigível reaccionário” e continuo a acreditar nos princípios gerais do Vintismo.

  19. Carlos Loures says:

    Nuno, não o considero um reaccionário. Há diversas maneiras de apreciar a verdade, vários ângulos de a observar e isso é inevitável. Mesmo que nenhum de nós queira mentir a verdade a que chegaremos será sempre diferente. Não é à VERDADE que me refiro, porque para cada um existe uma. É às verdades, aos factos, e isso é igual para todos. O Otelo fez a tal declaração ou não a fez, por exemplo. A partir de afirmações verdadeiras, podemos chegar a conclusões diferentes. No entanto, se baseamos as nossas afirmações em inverdades, então é como se estivéssemos a falar línguas diferentes. Creio que o Pisca, o Nuno e eu (que, pelo andar das carruagens, pensamos todos de forma diferente e perfilhamos ideologias diferentes) nisto, estamos de acordo. Quanto à «Portuguesa», foi um monárquico (e não monárquicos) que me veio com essa história. Está a ver? Para ganhar pontos, sem querer, usei o plural.

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