Vou mostrar-te como eu era

Naquilo a que agora se chama “redes sociais” encontra-se a cada passo quem utilize como imagem para o seu perfil uma foto da infância. E já ninguém se espanta quando, ao descobrir um amigo ou conhecido nesses espaços virtuais, se depara não com o quarentão que conhece mas com um rapazito sardento e de franja, com vagas semelhanças com aquele que virá a ser.

Recuperadas para um espaço que não é o seu, surgem sempre um pouco tristonhas, essas imagens dos anos sessenta ou setenta, quando não mais antigas, como se se envergonhassem dos calções tão fora de moda ou das trancinhas ingénuas. Estão como peixe fora de água, acabrunhadas por terem sido arrancadas das gavetas ou dos álbuns que as avós foram guardando, e trazidas para ali, tantas décadas depois, e em representação de alguém que não reconhecem.

Lembro-me de ter um dia sido surpreendida por uma amiga que me trouxe, sem que isso viesse a propósito, fotografias de criança “para eu ver como ela era”. O gesto pareceu-me absurdo mas agora dou-me conta que coincidiu com um momento crítico, estávamos prestes a acabar a universidade, com isso terminaria a adolescência prolongada e em breve teríamos de fazer o que os adultos faziam.

É que isso de recuperar as imagens da infância responderá, especulo eu, à necessidade de recuperar um espaço seguro, uma época dourada na qual se vivia despreocupadamente (ou assim se prefere recordar), e onde o futuro era ainda um lugar luminoso e pleno de promessas.

Em distintas ocasiões vi gente que, tendo acabado uma etapa da sua vida, lançava-se a  procurar nos caixotes do sótão alguma foto que documentasse esse outro eu, mais jovem, mais esperançoso, e nessa evocação reunia ânimo para se lançar para novos voos.

Quanto mais incerto o futuro, mais forte a tentação de procurar refúgio no passado. Mas o passado recente também está tingido de frustrações, incertezas, fracassos, e há que recuar mais e mais, até nos sentirmos pacificados com a recordação.

E assim se chega à foto dos dez anos no Jardim Zoológico ou, indo mais atrás ainda, ao bebé gorducho deitado na mantinha, de rabo ao léu para o fotógrafo, dependendo da etapa em que ficou a fronteira de segurança.

Há uns anos a geração que por cá se chamou “rasca” passou a ser conhecida como “Geração Peter Pan”.

Já sabem o que se quer dizer quando se recupera a figura do rapaz da Terra do Nunca. Parece que a suspeita de que estamos perante gente que não quer crescer se confirma em coisas como o o gosto pelos gadgets, o culto das séries animadas da infância, a estada cada vez mais prolongada na casa dos pais, ou o regresso depois de um fracasso, seja ele o divórcio, ou o desemprego, ou ambos.

Começou por ser a geração com mais possibilidades de sempre – estudou mais do que os seus pais, viveu um salto tecnológico sem par, foi poupada à guerra – mas tem visto as expectativas defraudadas sem piedade. Viu chegarem ao fim a estabilidade, a prosperidade, o “para o resto da vida”. Trabalhos precários e mal pagos, relações pessoais fragmentadas, desorientação num mundo sem coordenadas.

E quando não há promessas que aligeirem o que aí vem, o melhor é mesmo olhar para trás e lembrar uma altura em que éramos adoráveis, com as covinhas nas faces ou o nariz sardento, ou sem o primeiro dente de leite, e quem nos podia tratar com dureza, quem podia ignorar-nos, quem se atreveria a negar-nos um anseio, se éramos assim, ingénuos e impolutos, tão desconhecedores do que se seguiria?

Mas, vá lá, admito que haja casos em que um trintão possa plantar no perfil uma foto dos seus seis anos unicamente porque não tinha outra à mão.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Eu, por acaso, foi só porque esta foto era a que estava na “pen” do meu filho e, a bem da verdade, não me presta justiça!

  2. Fernando Moreira de Sá says:

    “Começou por ser a geração com mais possibilidades de sempre – estudou mais do que os seus pais, viveu um salto tecnológico sem par, foi poupada à guerra – mas tem visto as expectativas defraudadas sem piedade. Viu chegarem ao fim a estabilidade, a prosperidade, o “para o resto da vida”. Trabalhos precários e mal pagos, relações pessoais fragmentadas, desorientação num mundo sem coordenadas”.

    Como eu gostava de ter tido arte para escrever isto, Carla!
    São textos como este que me fazer sentir um imenso orgulho em pertencer ao Aventar.

  3. Fernando Moreira de Sá says:

    Ups: que me fazem e não me fazer…

  4. Carla Romualdo says:

    Obrigada, Fernando, realmente é um orgulho pertencer ao Aventar


  5. Sento-me comigo
    na pedra do meu sentir
    entre as coisas mortas e as ideias
    e a morte de tudo à minha volta
    ri-se e faz pouco de mim.
    Do jardim da minha infância
    nem gesto nem força
    que faça pouco da morte.
    Das rosas brancas que me iludiram
    apenas o crédito de mais um dia
    despropositado
    frio
    horizontal
    coincidente
    vazio.

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